Entrevista com Waldo Mermelstein: o 11 de setembro chileno e o fim da via pacífica ao socialismo

Há um outro 11 de setembro que é pouco lembrando pela grande imprensa. Trata-se do dia em que foi desferido o golpe militar comandado por Augusto Pinochet contra a Frente Popular do presidente chileno Salvador Allende, em 1973. Começou, assim, uma ditadura sanguinária que promovia assassinatos, torturas, desaparecimentos e genocídios.

Para lembrar a data, o Portal do PSTU entrevistou Waldo Mermelstein, ex-militante do Movimiento de Izquierda Revolucionaria do Chile (MIR) e testemunha ocular dos últimos meses da experiência da “via pacifica” ao socialismo. Waldo foi um dos fundadores, em 1974, do grupo trotskista Liga Operária, que deu origem à Convergência Socialista, principal corrente fundadora do PSTU.

A caminho de Santiago
“Eu fui conhecer o ensino no Chile, estudar economia e ver o processo da Frente Popular. Havia um encanto com o processo chileno. Todo mundo via como uma coisa natural atingir o socialismo a partir das eleições.

Cheguei em 4 de setembro de 1972. Essa data é o dia de comemoração do aniversário da eleição do Allende.

Cheguei lá dois anos depois que Allende foi eleito. Deixei as minhas coisas no hotel e fui direto para uma manifestação da esquerda. Já havia uma polarização importante no país, mas a grande polarização começa em outubro de 1972. Voltei definitivamente ao país no final do ano.”

Pacto
“Para assumir a presidência, Allende fez um pacto de garantias constitucionais, que ele assinou no Congresso com a Democracia Cristã (partido da direita), assegurando que não mexeria nas Forças Armadas, que indenizaria as empresas expropriadas, que não mexeria nos meios de comunicação. Isso é o que se conhece. Dizem que há coisas que nunca foram publicadas nesse pacto.

Há um intervalo entre o 4 de setembro até 4 de novembro de 1970, quando Allende assume a presidência. Esse momento foi marcado por intensas negociações e pressões em que o comandante do exército foi assassinado, o imperialismo ainda não sabe muito bem o que fazer. Era um momento de muita confusão do imperialismo, pois ele estava se afundando na guerra do Vietnã.”

Primeira fase
“A primeira fase do governo Allende, isto é, de novembro de 1970 a outubro de 72, nacionaliza o cobre por unanimidade no Congresso Nacional. A burguesia queria tomar conta do cobre. Queria negociar com o imperialismo em melhores condições. No entanto, o governo Allende assume uma política de indenização, mas descontando os lucros extraordinários que as empresas tiveram. A partir daí começa o bloqueio imperialista.

Com o dinheiro do Cobre, o governo aumentou em 100% os salários, istituiu vários programas sociais os quais a distribuição de meio litro de leite diário para todas as crianças, estatizou 49 empresas da chamada área de propriedade social, acelerou o processo da reforma agrária pagando indenização. No entanto, é importante lembrar que a ‘chilenização’ do cobre já vinha de antes, do governo Eduardo Frei.”

Fase de negociações
“A burguesia do país sabia que tinha que negociar com o movimento operário, que tinha uma grande tradição. O proletariado chileno era muito desenvolvido e politizado. A burguesia aceitou negociar, havia uma ala negociadora, a Democracia Cristã, principal partido da direita, que aceitou negociar num primeiro momento.

Já em 1971, começam as primeiras manifestações da classe média contra o governo e a burguesia, diante de controle de preços, de remessas de divisas, começa a pressionar, sonegar produtos, surge o mercado negro.

Depois que muitas fábricas começaram a se tornar propriedade social, os operários de muitas outras também quiseram fazer parte dessa experiência. O projeto inicial era colocar 10% da área industrial nas mãos do Estado. Mas isso acabou chegando a 30%, por mobilizações, ocupações que exigiam intervenções e a posterior estatização das empresas.

Em 1972, o governo propõe negociar com a Democracia Crista e fixar limites para áreas de propriedade social, dando assim maiores garantias e concessões econômicas para a burguesia.”

O lockout
“Em outubro de 1972, a burguesia chega à conclusão de que se deve destituir o governo e lança um lockout patronal, baseado nos colégios patronais, de advogados e médicos, e caminhoneiros.

Entre os caminhoneiros do Chile, havia dois setores: os grandes empresários e os pequenos empresários, que eram a maioria. Como o governo controlava o cambio, ele também entregava divisas. O grande produto do Chile era e é o cobre. O governo entregava divisas para o sindicato, o sindicato não repassava e dizia que a culpa era do governo. Então começa a gerar um movimento de massas. Começa a haver o financiamento americano e a patronal começa a organizar o lockout, a parar o país. Aqui ressalta a falta de uma política por parte da Unidade Popular para separar o setor dos pequenos e dos grandes empresários do transporte. Mesmo assim a grande surpresa foi que o lockout foi enfrentado pelos trabalhadores e foi vencido.”

Enfrentado o lockout
“Os trabalhadores enfrentaram o lockout da seguinte maneira. Não tem transporte? Os trabalhadores requisitaram todo o meio de transporte que havia e organizavam o transporte para o trabalho. As empresas fechadas foram ocupadas pelos trabalhadores. Um problema gravíssimo foi a distribuição de produtos, em especial a de alimentos. O governo não havia tocado nesse setor. Esse é um problema das nacionalizações parciais. Quando começa o conflito social, o capital continua dominando. Então, ele tem formas de negar o investimento, de fazer sabotagem e várias empresas de distribuição foram abertas na marra. Organizaram-se juntas os comitês de abastecimento.

No Chile, o processo de radicalização da mobilização era acirrado nos momentos de ofensiva patronal, porque os trabalhadores chilenos confiavam demais em suas direções, que era possível fazer a transição pacífica sob a constituição ao socialismo, que o Exército era profissional e que não faria qualquer golpe. Isso estava bem na cabeça dos trabalhadores, era martelado todos os dias por Allende, que era um dirigente de prestígio excepcional, havia sido médico em clínicas populares durante vinte anos. Então, a resposta inicial para o Paro de Outubro, como se chama na história chilena, foi espontânea até certo ponto. Não foi chamada pela CUT, não foi chamada pelos partidos, que depois incorporaram. Não foi chamado nem pelo Partido Comunista nem pelo Partido Socialista. O PS tinha muita força. E dentro dele, começaram a se gerar alas esquerdas, em especial nos cordões industriais.

A burguesia ficou assustadíssima com a força dos trabalhadores mobilizados. O campo foi ocupado, as terras foram ocupadas, as fábricas foram ocupadas. Houve um processo que fugiu do controle a burguesia apelou para a negociação. Houve um pacto para sair do Paro de Outubro. É neste momento que o papel de Allende e do Partido Comunista se torna mais nefasto, por não responder às novas necessidades desencadeadas pelo processo. Porque até ali diziam, ‘bom, nós escolhemos a via pacífica, não estamos mentindo’. A partir dali se aceleram todos os processos. Surge uma ala esquerda, surgem organismos, um processo que ocorre em todas as revoluções, sob diferentes formas, os cordões industriais. Os cordões na verdade surgem um pouco antes, mas se massificam neste momento. Foi talvez o ponto (ou um dos pontos) mais altos de todo o processo, onde a história poderia ter sido escrita de forma distinta e a ditadura de Pinochet nunca tivesse existido… ”

Cordões industriais
“Os cordões industriais eram organismos de cooperação e federação entre as diversas empresas de uma região. Para enfrentar a sabotagem patronal, o problema do transporte, os problemas dos bairros, pois os bairros aos redores das fábricas eram bairros de trabalhadores, tinha que ter organismos estruturais. O Partido Comunista era claramente contra os cordões, dizendo que era ‘paralelismo sindical’.

A primeira função dos cordões era proteger as fábricas, pois os patrões queriam sabotá-las. O que isso significa? Queriam tirar as máquinas das fábricas. A segunda função era fazer com a fábrica opere e os trabalhadores trabalhem.

O Paro de Outubro foi resolvido por um acordo entre o governo e a oposição burguesa e tomou a forma de um gabinete cívico-militar. Esse acordo significou a proposta de devolução de algumas das empresas ocupadas, colocar os militares como fiadores da burguesia, colocando o país em Estado de Emergência repetidas vezes. Inclusive alguns órgãos de imprensa da esquerda socialista foram censurados e recolhidos das bancas pelo governo, durante esse período.”

Definição pelo golpe
“A burguesia tenta uma última cartada democrática, que foram as eleições legislativas de março de 1973. Apesar de toda crise econômica, a Unidade Popular consegue 44% dos votos, não chegando, portanto aos 2/3 necessários para destituir o Presidente. A partir daí muda a estratégia da burguesia. As facções fascistas Pátria e Liberdade e o Partido Nacional começam a ter hegemonia e a Democracia Cristã se define pelo golpe.

Começa a haver divisões nas Forças Armadas. A marinha de guerra não sai para a tentativa de golpe de 29 junho de 1973 – conhecido como ‘tancazo’ – porque os marinheiros fazem greve de fome. E houve também resistência entre os soldados e suboficiais do Exército.

Quando o golpe foi derrotado, me lembro de uma grande manifestação popular na frente do palácio La Moneda, na qual Allende disse: ‘vocês devem agradecer aos generais do Chile por terem evitado o golpe’. Um desses generais do qual ele se referia era Augusto Pinochet. Em seguida, ele decretou o Estado de Emergência e toque de recolher a noite. Enfim, entregou o país nas mãos dos militares, mas sob o seu governo.

Havia muita confiança no governo. Dizia-se que os militares não eram golpistas, que não estavam a favor da extrema direita. Os trabalhadores achavam que a Frente popular era o seu governo mesmo que o considerassem muito frouxo com a oposição. Tem até a famosa frase de cartaz que dizia: ‘esse és um gobierno de mierda, pero és mi gobierno’. Outros exigiam ainda respostas duras do governo contra a oposição, como foi o caso dos operário da construção civil nos programas das rádios de esquerda”

O MIR
“Surge na década de 60, a partir de uma combinação de grupos guevaristas e alas trotskistas, a organização mais à esquerda que existia e maior contestava o governo Allende, o MIR, Movimiento Izquierda Reviolucionária.

O MIR, entretanto, não tinha uma política de massa muito bem resolvida. Havia uma polêmica se a organização revolucionária dos trabalhadores passaria pelos comandos populares (de bairros) ou pelos cordões operários. Como o MIR tinha mais força nos bairros e não conseguia entrar nas fábricas, propunha que fossem os comandos. De certa forma, o MIR fazia um pouco do jogo do PC em relação aos Cordões Industriais.

O MIR também mudava constantemente as caracterizações sobre o governo. Quando havia militares no governo, ele era burguês. Quando não havia, diziam que o governo não era burguês, o que causava oscilações e ilusões em sua atitude frente a ele.

O MIR vem de uma tradição sectária. Nas eleições de 1970, eles tiveram a posição de liberar seus militantes para o voto nulo ou favorável a Allende. Isso custou caro ao MIR e facilitou o trabalho do Partido Comunista. Eu vendia jornal do MIR entre os ativistas comunistas. Era muito difícil”. Para coroar, frente ao golpe militar que se preparava quase à luz do dia, o MIR chamava à uma frente única com a esquerda socialista e as agrupações menores como a Esquerda Cristã e o Mapu, e não com toda a Unidade Popular.

Insubordinação da Forças Armadas
“Depois de julho de 73, Allende autoriza os generais a combater a insubordinação militar, isto é, permitiu que os dirigentes dos marinheiros e dos soldados fossem presos e torturados. O governo entregou à repressão os únicos que o defendiam dentro das Forças Armadas.

Os militares começar a preparar a sua intervenção. De que forma? Indo nos locais e sedes dos movimentos de massas e realizando busca e apreensão de armas. Os militares usaram uma lei proposta pelo próprio governo para desarmar os operários, a Lei de Controle de Armas, aprovada em julho de 1972. Com essa lei, sob a desculpa de estavam buscando armas, começaram a invadir as fábricas. O movimento operário, por sua vez, não sabia o que fazer. Estabelece-se assim uma confusão monumental.”

O caminho para o dia 11/9
“Os trabalhadores reagiram contra a ofensiva patronal e imperialista, mas sem nenhuma organização que falasse para eles que os trabalhadores deveriam tomar o controle do país, o que seria a sua única saída contra o golpe.

Os organismos de poder, os comando comunais, os cordões industriais, as ocupações de terra, precisavam de um norte político. Qual foi o norte político que o PC deu? Uma campanha pelo ‘não’ à guerra civil. Diziam: ‘despues del tancazo, por que no o dialogaço?’

Um dos símbolos dessa política de concessões foi a desocupação pelos carabineiros, por ordem do governo, do Canal 9 de Televisão, tomado pelos seus trabalhadores já havia algum tempo e que era um dos únicos a furar o bloqueio nos grandes meios de comunicação dominados pela direita.

Ou seja, defendiam dialogar com a Democracia Cristã que já tinha se definido a favor do golpe. O governo entregou o país nas mãos dos generais, aceitou que os militares que resistiram fossem reprimidos, chamou a conciliação com quem estava preparando o golpe e não orientou que o golpe vinha e que tinha que se preparar contra ele. A falta de orientação fez com que praticamente não houvesse resistência. A não ser em alguns bairros e fábricas, mas foi uma resistência desorganizada e desesperada. Mesmo o último discurso de Allende foi no sentido de admitir a derrota antecipadamente, não chamar à resistir…

No dia do golpe acordei com os bombardeios. Eu morava perto do centro e segui para a universidade para saber o que fazer. Passei em frente ao Palácio que estava cercado, com soldados que tinham lenços vermelhos. Eu pensei: ‘Será que são nossos?’. Pensei em falar com eles, mas ainda bem que não fiz isso, pois hoje não estaria aqui. Vários companheiros estrangeiros foram assassinados na hora.

A escola ficava ao lado de uma unidade de carabineiros, a PM chilena, que disseram que tínhamos meia hora para sair. Saímos tentando achar algum cordão industrial, mas estava tudo fechado e o toque de recolher tinha sido decretado.”

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