Entrevista com Trade Hamade, ex-ministro do Trabalho do Líbano e membro do Hezbollah

“O Hezbollah não é uma milícia. É uma resistência popular, legal, que defende a independência de seu país”Trad Hamade, ministro do Trabalho do Líbano, demissionário do governo Fuad Siniora e membro do Hezbollah, visitou o Brasil. Aproveitamos sua presença no país para entrevistá-lo, dando aos leitores do Portal do PSTU a oportunidade de conhecer as posições dessa organização sobre a situação no Oriente Médio.

Portal do PSTU – Boa tarde. Gostaríamos de lhe desejar boas-vindas ao Brasil. O PSTU é um partido socialista com partidos irmãos na América Latina. Nós apoiamos a resistência dos povos árabes contra Israel e o imperialismo e gostaríamos de manter relações com o Hezbollah para atividades de solidariedade à Resistência e, também, para estabelecer contato com os sindicatos no Líbano. No Brasil temos uma atuação importante em sindicatos que buscamos envolver em atividades de solidariedade internacional.
Trad Hamade
– O Hezbollah é um partido amigo de todos os povos ou movimentos sociais que lutam pela justiça e pela igualdade e apóia as lutas dos povos que sofrem agressões ou interferências em seus assuntos internos ou até mesmo invasões por outras nações estrangeiras. Essa é a posição do Hezbollah. Avalio muito bem a postura do Brasil politicamente, principalmente dos partidos que apóiam e defendem a causa árabe e apóiam a resistência do povo libanês contra a agressão dos inimigos do povo libanês e árabe.

No Líbano, tem uma força sindical muito forte, tradicional, que defende o direito dos trabalhadores na luta para estabelecer a justiça. Atua em conjunto com outras organizações, inclusive de outros países, na luta pelos direitos dos trabalhadores e está aberta a esse tipo de diálogo com outros sindicatos, assim como com partidos como o PSTU.

Infelizmente, o sindicato dos trabalhadores no Líbano está sofrendo interferência do atual governo e está lutando para adquirir sua independência e continuar a sua luta para conquistar os direitos dos trabalhadores e resistir aos ataques. São os sindicatos que tomam a frente na defesa dos direitos dos trabalhadores e para representá-los junto aos órgãos políticos. Os governos realmente democráticos não podem interferir na autonomia e independência dos sindicatos, porque eles sabem mais do que ninguém o que o trabalhador precisa. Por isso sabemos que os sindicatos no Líbano vão sair vitoriosos da atual interferência do governo atual e continuar sua luta para conquistar o direito dos trabalhadores.

Os governos dos EUA e de Israel querem o desarmamento do Hezbollah para cumprir uma resolução da ONU. Como o Hezbollah vê o papel da ONU no Líbano e no Oriente Médio?
Trade Hamade
– A guerra do ano passado, de julho de 2006 foi a guerra mais sangrenta que já houve no Oriente Médio onde foi clara a derrota do exército agressor, do Estado de Israel apoiada pelo exército americano. Saíram derrotados do Líbano, não atingindo o seu objetivo de querer desarmar um povo que decidiu lutar pela sua terra e manter a soberania de seu país. A resolução da ONU diz respeito ao desarmamento das milícias e o Hezbollah não é uma milícia. É uma resistência popular, legal, que defende a independência de seu país. Não exerceu nenhum papel de terrorismo, de agressão em nenhuma parte do mundo, muito menos do Líbano. Sua existência se dá pelo direito de resistência e defesa de um povo.

Ninguém pode interferir na autodeterminação de um povo. O direito de defesa é um direito que consta, inclusive, nas resoluções da ONU para todo o mundo. As forças do exército de Israel ocuparam nosso país durante 28 anos e só promoveram guerras desde sua origem até hoje. Nada mais certo que nosso povo tenha o direito de se organizar e pensar nas estratégias corretas de defesa, conforme achar necessário. E é isso que está sendo feito pelo povo do Líbano e pela resistência libanesa.

Não podemos ser considerados milícia. Somos uma resistência popular cujo único objetivo é manter sua independência e manter a soberania do país. São os Estados Unidos que ignoram os direitos humanos em todo o mundo. E o Estado de Israel, que surgiu expulsando o povo palestino de seu território, de tempos em tempos promove guerras contra nossos países em geral. É por isso que pedimos o apoio mundial de todos no mundo contra os nossos inimigos, o governo americano e o Estado de Israel.

Certamente, sabemos que seria necessário um órgão internacional para garantir e proporcionar a paz em todos os povos do mundo, mas, infelizmente, a ONU nas mãos do governo americano, é utilizada como instrumento para que ele atinja todos os seus objetivos em nossa região e no mundo todo. O representante do governo americano na ONU, John Bolton, fez uma infeliz declaração quando disse que os Estados Unidos ficarão felizes quando essa organização sumir do mapa. Com isso, eles poderão mandar e desmandar de acordo com tudo o que lhes interessa.

Depois do fim da guerra fria, os Estados Unidos se tornaram a única força mundial dominante no mundo todo. Para eles não interessa a existência da ONU a não ser para executar suas ordens e seus objetivos. E como somos parte daqueles que lutam pela paz e pela justiça, estamos lutando para a independência da ONU frente à soberania norte-americana, para salvar a organização e ajudar outros povos a se salvarem das garras dos Estados Unidos.

Nós do Líbano, um país com uma pequena população, atuamos com a ONU e apoiamos suas resoluções que beneficiam os países do mundo árabe. No entanto, o único país que, em nenhuma situação aceitou ou colocou em prática as resoluções da ONU foi o Estado de Israel. Nós o consideramos um estado agressor que não se satisfaz com o que tem e promove a miséria em todo o mundo árabe. Dezenas e dezenas de resoluções contrárias a Israel nunca foram conferidas ou cobradas desse Estado. Por um lado, nós defendemos a existência da ONU, por outro, temos esse caso do Estado de Israel que, tendo apoio americano, desrespeita todas as resoluções da ONU ou só cumpre aquilo que lhe convém.

O Hezbollah defende o reconhecimento do Estado de Israel? E a formação do Estado Palestino nos territórios ocupados em Gaza e Cisjordânia? Como o Hezbollah vê os conflitos entre o Fatah e o Hamas?
Trade Hamade –
O Hezbollah não reconhece o Estado de Israel por ser um estado agressor, que entrou à força, invadiu a terra e matou o povo e expulsou quem podia expulsar. E como invadiu à força, nós defendemos o direito do povo palestino de tomar de volta a sua terra e retornar ao seu país. Nós apoiamos o governo palestino e todos os partidos e facções que atuam no seu interior e pedimos que eles entrem num acordo para chegar ao seu objetivo final que é o retorno dos palestinos espalhados no mundo para aquela região. É uma situação desagradável para nós vermos os conflitos entre os partidos palestinos. Achamos que é uma necessidade extrema a união do povo palestino. Quem acaba perdendo com essa divisão é o povo palestino que vive em desgraça há várias décadas. Os únicos que, de fato, se beneficiam com esses conflitos é o Estado agressor de Israel.

Sobre essa questão da formação do Estado Palestino, vocês defendem em todo território histórico ou nos territórios ocupados?
Trade Hamade
– Em minha opinião, creio que teria de ser formado um Estado Palestino, onde tanto judeus quanto palestinos poderiam viver democraticamente em seu interior. Mas os Estados Unidos e o Estado de Israel sequer reconheceram aquelas partes do país para formarem o Estado Palestino. Há décadas, acontecem encontros, negociações entre as duas partes, patrocinadas pelos países da Europa e pelos Estados Unidos para formar dois estados, o Estado de Israel e o Estado Palestino. Esses acordos sempre foram respeitados pelo povo árabe e pelo povo palestino e jamais foram respeitados ou cumpridos pelos Estados Unidos e por Israel, que sempre fizeram o contrário das resoluções da ONU e atacaram os palestinos.

É como convidar alguém para sentar numa mesa com um enorme banquete e não deixar a pessoa tomar sequer um copo de leite dessa mesa. O povo palestino até hoje não conseguiu sequer o reconhecimento de seu Estado nos territórios ocupados. Os palestinos têm o direito de ver reconhecido o seu Estado. Na verdade, há uma enganação fortíssima dos Estados Unidos e de Israel que dizem que querem a paz, que querem manter a paz na região, mas isso não passa de palavras. O povo palestino aceitou o mini-estado formado pela Cisjordânia e Gaza e sequer esse mínimo foi respeitado, sempre continuaram sendo atacados pelo governo americano e pelo Estado de Israel.

O que acontece realmente é que o povo palestino está sofrendo diariamente massacres e massacres para os obrigarem a aceitar a paz que Israel e o governo americano querem. São crianças, mulheres e homens mortos para que seja implementado o plano de domínio americano e israelense. Tudo o que os palestinos querem é o seu direito de viver. A causa palestina é uma causa justa que defende o direito de um povo existir e ela é fortificada com a luta [armada] de seu povo e com o apoio de países amigos como o Brasil e outros países que apóiam o direito palestino de ter um país. Por isso, acreditamos que eles vencerão no fim e terão seu território.

Como o Hezbollah vê a situação no Iraque? O Hezbollah apóia a resistência iraquiana?
Trade Hamade
– O Hezbollah tem sua preocupação central no Líbano, que é o país onde ele existe, mas ele apóia a autodeterminação do povo iraquiano e sua luta contra a invasão norte-americana para que o povo tenha o direito de viver independente e possa constituir um governo no qual veja representado democraticamente todas as forças políticas e religiosas do próprio povo. O Hezbollah apóia todos os povos que buscam justiça. A única saída que vemos para o Iraque é a retirada das tropas americanas e deixar que o povo iraquiano eleja seus governantes e garantam a vida digna para aquele país.

Os americanos estão preocupados com sua situação no Iraque, mas a única saída possível é eles saírem de lá e deixarem os iraquianos decidirem sobre si. Essa é a única situação viável. Fora isso, o Iraque continurá sendo um campo de batalha.

Qual a proposta do Hezbollah para a crise política do Líbano hoje?
Trade Hamade –
O Hezbollah faz parte de uma força de oposição na qual estão presentes vários partidos políticos no Líbano. Essa força política apresentou um projeto de lei para o governo com três pontos essenciais para sair da crise: o primeiro é a formação de um governo que defenda a soberania do país; o segundo é a formação de um governo onde sejam representadas todas as forças políticas; e o terceiro é que, é necessário garantir as reformas de tudo aquilo que foi destruído no ano passado. Esses pontos são o ponto de partida para uma reforma política no interior do país, que garanta uma política nova. Também foi pedida uma nova eleição do poder legislativo. Esse ano termina o mandato do presidente da república. Está sendo procurado um candidato que consiga expressar todas as forças políticas presentes no país, através de um acordo entre todas as forças políticas.

E sobre a conferência Paris III, a conferência de “doadores” que prevê que sejam feitas “doações”, mas também um plano de privatização das empresas do Líbano?
Trade Hamade
– A economia do Líbano está enfrentando uma situação muito difícil. O governo, infelizmente, está gastando mais do que pode arrecadar. Isso acarretou em um aumento da dívida externa e interna. A economia do país está necessitando de uma reforma política onde haja arrecadação e projetos concretos bem executados para o país.

Durante uma conferência no parlamento libanês sobre as resoluções do encontro em Paris, havia duas correntes políticas que estavam discutindo as resoluções. Uma corrente representada por mim e outra corrente era a equipe econômica do governo, que seguia a cartilha do Banco Mundial sem levar em consideração a realidade do país e os processos que passamos com todas as reformas. Com isso, o mais provável é que fossem acumuladas mais dívidas. No novo plano, a equipe econômica do governo propunha que se deixasse de lado o setor agrícola e industrial para se concentrar no setor de serviços. A nossa posição era que fossem revitalizados os setores agrícola e industrial e também o setor de serviços. Na reforma tributária, a única solução por eles apontada era pôr mais impostos e diminuir os direitos dos trabalhadores.

Estamos reivindicando a reforma política e administrativa principalmente para garantir a união e o fortalecimento dos três setores no país. A equipe econômica do governo queria privatizar tudo e agora. Para nós, deveria privatizar os setores públicos que não funcionassem e mais para frente ver se seria necessário privatizar o resto. Infelizmente, estamos com as mãos atadas já que as resoluções do Banco Mundial são “palavras divinas” que não podem ser discutidas ou contrariadas. Ao invés de saldarmos dívidas, estamos aumentando. Não podemos aceitar. É como dizer que eu posso trazer dinheiro e gastar a vontade e deixo que meus filhos e netos se virem mais tarde. Estão oferecendo empréstimos a longo prazo que parecem resolver os problemas, mas só empurram pra mais tarde. Esse é o capitalismo e o liberalismo que querem para o nosso povo.

O que acontecerá com o futuro da resistência caso ocorra acordos na região, como por exemplo, entre a Síria e os EUA ou o Irã?
Trade Hamade –
A resistência libanesa é um assunto interno do país e faz parte da defesa do país contra as agressões constantes dos países agressores e independem dos acordos feitos na região. É um direito conquistado de um povo, nada além.