Em Minas Gerais, uma contradição do MST

A aproximação com o governo Lula fez com que setores da direção do MST defendessem até mesmo projetos voltados para a agroindústria. No norte de Minas Gerais, nas cidades de Pirapora e Montes Claros, a direção do movimento queria impor a produção prioritária de plantas oleaginosas (amendoim, mamona, etc.) nos assentamento para vender aos usineiros produtores de bicombustíveis no lugar de priorizar a produção de alimentos. O projeto ganhou força depois que foi inaugurada na região uma usina de bicombustíveis.Para falar sobre o assunto, o Opinião entrevistou André Silva, ex-dirigente do MST em Minas que se opôs ao projeto.

Como foi essa proposta de produzir sementes para bicombustíveis em assentamentos da região?

Aqui em Montes Claros foi inaugurada recentemente uma usina de bicombustível. A Petrobras chamou então os pequenos produtores pra discutir um projeto de produção de oleaginosas. A direção do MST daqui de Minas, juntamente com alguns integrantes da Via Campesina, disse que seria bom implementar esse projeto em alguns assentamentos e acampamentos, com a intenção de usar esse dinheiro tanto para a produção de oleaginosas como para a reestruturação do MST nas regiões, principalmente no Norte de Minas. Estamos falando de estrutura como veículos, escritórios, computadores, mas também dinheiro para a produção. O MST e a Via Campesina pegaram aproximadamente R$ 6 milhões da Petrobras.

A discussão era de que os assentamentos tinham que produzir 75% de oleaginosas e 25% de produção de alimentos de forma consorciada. Os assentados então teriam que produzir a mamona, a única oleaginosa liberada para região, e pagariam a Petrobras em grãos. Depois montaram uma cooperativa, a Copatec, para comprar equipamentos para retirar o óleo da mamona e repassá-lo a Petrobras.

O grande contraste disso tudo é que passamos vários anos denunciando a monocultura da cana-de-açúcar, mamona e soja, que acaba com a produção de alimentos. Dissemos por muito tempo que os combustíveis renováveis não estariam nas mãos dos trabalhadores, mas sim da elite, de empresas estrangeiras e do imperialismo.

Quais foram as conseqüências disso?

Teve uma ruptura de um assentamento e de um acampamento com o MST (Assentamento 1° de maio e acampamento José Bandeira). Rejeitamos esse projeto, que sempre esteve contra os princípios que o próprio movimento tinha discutido com os trabalhadores.

Tem algum assentamento que implementou o projeto?

Sim. Um acampamento que plantou foi o Novo Paraíso. No entanto, eles não obtiveram nenhum lucro e a Petrobras acabou rompendo o contrato com o assentamento porque ela não cumpriu a meta da produção da mamona. Outros assentamentos também implementaram aqui no norte de minas.

A direção do MST defendia essa proposta?

O único dirigente que não defendeu fui eu. Fui muito criticado e por isso acabei saindo do movimento. Os dois assentamentos também não aceitaram essa proposta e saíram do movimento. Não era essa proposta que aprendi a defender dentro do MST.

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