Em discurso, Lula admite que Brasil pode ser afetado pela crise

Um recado a Bush ou um alerta de que a crise pode chegar ao Brasil? Essa é a pergunta que fica no ar ao ouvir a declaração do presidente Lula na quinta-feira, 27, no Fórum Empresarial Brasil-México, no Recife (PE). “Ô Bush, o problema é o seguinte, meu filho, nós ficamos 26 anos sem crescer agora que a gente está crescendo você vem atrapalhar? Resolve a tua crise!”, disse Lula referindo-se a conversa telefônica que teria tido com o presidente norte-americano.

Antes, Lula demonstrou preocupação com a crise dos Estados Unidos. Pela primeira vez, o presidente brasileiro não pintou um Brasil blindado, inabalável por qualquer crise. Numa declaração bem mais próxima da realidade, afirmou: “de olho nessa crise americana, porque essa crise americana pode não ser tão grande quanto a gente imagina, mas pode ser maior do que a gente imagina”, alertou.

Depois, Lula reivindicou um dos programas que mais atacava quando ainda não estava no comando do país, o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer). “O Brasil tem know-how para salvar banco, é só afinar o Proer. Se ele quiser, ele pode vir ao Brasil que tem gente que pode ensinar. (…) Se ele precisar, eu acho que nós poderemos mandar essa tecnologia para eles”, disse Lula.

O Proer foi criado em 1995, pelo então governo Fernando Henrique Cardoso, para salvar banqueiros falidos com dinheiro público. Estima-se que o valor investido no programa entre 1995 e 2000 tenha correspondido a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Endurecimento contra os EUA ou sinal de fraqueza?
Ao dar ordens a Bush, Lula pode até passar uma imagem de autoridade. Na prática, não é isso que acontece. É o governo brasileiro que segue as orientações políticas e econômicas da Casa Branca: paga a dívida, ocupa o Haiti, apóia governos pró-imperialistas, como o de Uribe, abre portas para multinacionais, retira direitos dos trabalhadores.

Os primeiros sinais de que o Brasil não está imune à crise já começam a surgir. Na semana passada, as bolsas brasileiras responderam com uma forte queda à crise da venda do banco Bearn Stearns por 1% de seu valor nos EUA.

O preço das matérias-primas de exportação, as chamadas commodities, vem sofrendo grande queda nas últimas semanas. As ações da Vale do Rio Doce e da Petrobras tiveram baixa, derrubando as ações na Bovespa.

A inflação e os juros também começam a se movimentar no sentido de conter um possível efeito da crise. No mesmo dia do discurso de Lula no Recife, admitindo riscos de a crise norte-americana afetar o Brasil, o Banco Central aumentou a projeção da inflação de 2008 de 4,3% para 4,6%. Junto com isso, especialistas garantem que os juros devem subir em breve, como foi indicado pelo próprio Comitê de Política monetária (Copom) na semana passada.

Guido Mantega, ministro da Fazenda, também admitiu a gravidade da crise, comparando-a à grande recessão de 1929. Essa mudança de discurso do governo acaba com o falso otimismo que estava sendo propagado, atribuindo ao crescimento econômico um caráter de redoma que protegeria o Brasil. A crise é mundial e deverá afetar o Brasil. O que não se sabe ainda é quando e em que grau.