Em cinco anos, imperialismo matou um milhão de iraquianos

Dos que sobreviveram, um em cada três vive na misériaEm 20 de março de 2003 o exército dos Estados Unidos iniciava a invasão do Iraque, sob o pretexto de que o país, sob o governo de Saddam Hussein, produzia armas químicas de destruição em massa e fazia parte do “eixo do mal”, isto é, colaborava com o “terrorismo internacional”.

Cinco anos depois, sem a descoberta de nenhuma fábrica ou depósito de armas químicas e com a propaganda do eixo do mal desacreditada, o governo Bush continua insistindo na manutenção da ocupação sob o pretexto de que ocorreria um banho de sangue entre shiitas e sunitas se as tropas norte-americanas se retirassem. Como o país não foi “estabilizado”, isto é, o fornecimento de petróleo iraquiano não está garantido, o imperialismo recusa-se a admitir seu fracasso numa guerra que já consumiu US$ 3 trilhões e por onde já passaram 1,6 milhão de soldados.

Depois de cinco anos, quatro mil destes soldados foram mortos. Um número pequeno, se for comparado com a guerra do Vietnam, quando ocorreu a morte de 58 mil soldados norte-americanos. Mas apenas estes números não dizem tudo. Há uma quantidade 15 vezes maior de feridos, pelo menos 500 com amputações dos membros, cerca de 35 mil veteranos com algum distúrbio mental e 121 suicídios apenas em 2007. São números capazes de gerar mobilizações anti-guerra nos Estados Unidos e movimentos contra novos alistamentos, à semelhança do que ocorreu na guerra do Vietnam.

O custo da guerra
Mas é um número ainda insignificante se comparado com a perda de vida dos combatentes e da população iraquiana. Não existem números oficiais porque os atestados de óbitos não retratam a realidade. As pessoas não informam as mortes de seus familiares, muitos são enterrados em valas coletivas e os desaparecidos não são computados. A imprensa mundial também dá pouca importância a este fato.

Quando a operação militar de ocupação do Iraque estava concluída, no fim de abril de 2003, o general norte-americano Tommy Franks estimou que 30 mil iraquianos teriam sido mortos.
Em 2007, o governo iraquiano divulgou a ridícula cifra de 151 pessoas mortas devido à guerra, até junho de 2006.

Porém, as estimativas realizadas por entidades independentes superam em muito estes números e demonstram a farsa da “guerra científica”, que não causaria mortes de civis, difundida pelo imperialismo no início da invasão. Uma pesquisa domiciliar realizada pelo Instituto Lancet resultou em quase 655 mil iraquianos mortos até junho de 2006. Este número inclui todas as vítimas diretas e indiretas da guerra, entre combatentes, policiais e população civil. Destas, 600 mil foram mortes violentas, sendo 186 mil delas atribuídas às forças invasoras.

Outra pesquisa mais recente, de agosto de 2007 com dois mil iraquianos, realizada pelo Opinion Research Business (ORB), chegou ao número estimado de um milhão de mortos. Nesta pesquisa, 22 % dos entrevistados disseram que em sua casa havia um ou mais membros da família mortos devido à guerra. Destes, 48 % foram atingidos por balas, 20 % por bombas e 9 % por bombardeio aéreo.

A tragédia da população
As tragédias provocadas pela invasão imperialista não param por aí. O Iraque tinha índices sociais comparáveis a países europeus até a Guerra do Golfo em 1991. Após aquela guerra e dez anos de embargo econômico, inclusive de alimentos, a situação ficou muito deteriorada. Mas hoje, segundo Joseph Chamie, um especialista em saúde da ONU, “eles estão cada vez mais próximos dos países da África sub-saariana”. Os índices de subnutrição subiram de 19% para 28% após quatro anos de guerra e mais de 65% da população não possui acesso à água tratada. Mais da metade dos médicos do Iraque fugiu do país e estima-se que o desemprego seja de 25%. O fornecimento de energia elétrica é irregular ou inexistente em 88% das residências, e 67% das pessoas descrevem que o esforço de reconstrução do país é ineficiente ou nulo nas regiões onde vivem.

Em dezembro de 2007, o governo fantoche iraquiano anunciou planos de cortar o orçamento para o fornecimento de rações de alimento à população pela metade, além de reduzir em cinco milhões o número de pessoas dependentes do sistema de racionamento. Atualmente, 10 milhões de iraquianos vivem na miséria e dependem desse sistema, num país de 28 milhões de habitantes.

Esta catástrofe atinge de maneira brutal as crianças e as mulheres. Mais de 60% das crianças sofrem de problemas psicológicos, decorrentes da perda dos pais e parentes e dos sofrimentos que a guerra acarreta. Existem cerca de cinco milhões de crianças órfãs e as mulheres da família ficam com a obrigação de criá-las, pois os orfanatos têm capacidade para apenas 26 mil crianças. Cerca de dois milhões de iraquianos deixaram o país, e a maior parte localizou-se na Síria e Jordânia. Calcula-se que pelo menos 50 mil mulheres e meninas foram obrigadas a prostituir-se na Síria, tornando aquele país famoso pelo turismo sexual no mundo árabe.

Uma comparação com o Vietnam
Em dezesseis anos, de 1959 até 30 de abril de 1975, quando foi oficialmente encerrada, a guerra do Vietnam causou a morte de um milhão e cem mil soldados norte-vietnamitas e membros da Frente Nacional de Libertação, os vietcongs. O número de civis é incerto, mas o governo vietnamita estimou um número de dois milhões, em 1995. O motivo foram os bombardeios indiscriminados efetuados pela força aérea norte-americana. Entre 1965 e 1968 foram despejadas um milhão de toneladas de bombas sobre o Vietnam do Norte. O número de civis mortos pode ter chegado a 180 mil. Em outro período, durante 14 meses a partir de abril de 1969, quase três milhões de toneladas de bombas foram jogadas, com um número de mortes não estimado.

O envio de tropas ao Vietnam passou de 3.500 em março de 1965 a aproximadamente 200 mil em dezembro. Mas terminou com o envolvimento de mais de oito milhões de recrutas durante toda a guerra. Em 1969, a imprensa divulgou o ataque do exército a uma aldeia norte-vietnamita, onde mulheres e crianças foram assassinadas a sangue frio, episódio conhecido como o massacre de My Lai, e causou uma onda nacional de revoltas contra a guerra. Era o início da derrota imperialista, dentro de sua própria casa.

Todos estes números são estarrecedores, pois detrás de cada um deles se esconde um ser humano que perdeu a vida. O capitalismo em sua fase decadente, o imperialismo, só consegue manter sua existência ao custo da destruição da vida na Terra, seja a natureza ou os seres humanos. Mais do que nunca, é necessário e possível derrotar o imperialismo.

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