Eleição na França: nada a comemorar…

Nenhuma surpresa
O resultado da eleição presidencial na França não causou nenhuma grande surpresa. Nicolas Sarkozy, da União por um Movimento Popular (UMP), e Ségolène Royal, a candidata do Partido Socialista (PS), vão para o segundo turno com 31,11% e 25,83% dos votos, respectivamente. Mais uma vez, será eleito presidente um representante dos partidos institucionais, que se alternam no poder há anos. A mídia destaca que a eleição foi uma “grande vitória” do povo francês pelo alto quórum – lá o voto não é obrigatório –, com quase 85% de votantes. Todos comemoram também o recuo do candidato da extrema-direita Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional (FN), que teve a menor votação desde 1988, conseguindo “somente” 10,51% dos votos, contra os 16,86% em 2002, que o qualificaram para o segundo turno.

No terreno da extrema-direita
O recuo da extrema-direita se explica em parte pela concorrência de Sarkozy, que encabeçou uma candidatura disposta a “invadir o território” da FN, defendendo medidas ultra-reacionárias, como a criação de um ministério da “identidade nacional e da imigração”. O que ele já fez e disse, como ministro do Interior de Jacques Chirac, não deixa dúvidas: chamou os jovens imigrantes de “ralé” da sociedade, defendeu uma política ofensiva com expulsões de imigrantes, e aplicou uma política repressiva contra os jovens da periferia, que provocou vários motins em 2005. Uma nova lei sobre os imigrantes ilegais permitiu expulsar 35 mil pessoas em 2006; no mesmo ano, mais uma lei de Sarkozy dificultou o reagrupamento familiar. Até Marine Le Pen, porta-voz da FN, declarou depois do resultado do primeiro turno: “Nossas idéias foram muito bem sucedidas, já que permitiram a Sarkozy conseguir 30% dos votos”.

O próprio Sarkozy fez a campanha dirigindo-se ao eleitorado da extrema-direita: “Se vocês escolheram a FN no passado, é porque nós tínhamos renunciado a defender suas idéias”. O candidato relaciona o “descontrole imigratório nos últimos 30, 40 anos” com a “explosão social” nos subúrbios quando afirma que “Há uma França exasperada. E por quê? Porque a identidade nacional foi posta em risco por uma imigração descontrolada, pela fraude ou pelos desperdícios de fundos”. Diz ainda: “ninguém é obrigado a vir morar na França, mas quando se opta pela França, tem de respeitar as suas regras: não ser polígamo, não praticar a excisão, nem degolar carneiros no seu apartamento”. Como se esta fosse a realidade dos imigrantes na França…

Em geral, as propostas de Sarkozy atacam duramente os trabalhadores. Um de seus temas prediletos é a defesa do trabalho enquanto valor, e o ataque ao o “assistencialismo”, ou seja, aos direitos sociais dos trabalhadores. Ele propõe “trabalhar mais para ganhar mais” e promete o fim do seguro-desemprego para aqueles que recusarem duas propostas de trabalho. Promete a generalização da precariedade, a restrição do direito de greve e ataques contra as aposentadorias. Para lutar contra a delinqüência, chegou a propor o fichamento das crianças com comportamento agressivo nas escolas, a partir dos três anos, no intuito de diminuir a criminalidade. E, última pérola, declarou que a pedofilia é genética.

De fato, a votação de Sarkozy preocupa por ter sido uma das maiores da direita desde os anos 70, com Valéry Giscard d’Estaing. O outro candidato da direita, chamado de “terceiro homem” da eleição, François Bayrou, é da União para Democracia Francesa (UDF), partido aliado inúmeras vezes à UMP. Bayrou se apresentou como um candidato centrista, fora do tradicional eixo esquerda-direita, para capitalizar os votos dos descontentes. O que não passou de estratégia eleitoral, já que ele apresentou o mesmo programa de Sarkozy. Somando os votos de Sarkozy, Bayrou (o que pode ser contestado, já que se considera que parte do eleitorado de esquerda tenha votado nele) e de Le Pen, a direita sai desta eleição com 65%.

A responsabilidade dos socialistas
Ségolène Royal e o PS têm muita responsabilidade quanto ao crescimento da direita. No poder de 1981 a 1995, o partido deixou o eleitorado desiludido quanto à sua política, praticando a flexibilização dos direitos trabalhistas, a privatização e o arrocho salarial, seguindo as diretivas da União Européia. Nesta eleição, Ségolène e o PS foram mais à direita, resgatando o tema da segurança, surfando também na onda do nacionalismo, já que ela propunha ter uma bandeira francesa em casa e cantar o hino nacional. Quanto à imigração, o porta-voz do partido e marido de Ségolène especificou que o PS era a favor de “uma regularização com critérios não global”. Isso significa que as expulsões continuarão.

Batendo na tecla da segurança, como os outros candidatos de direita, ela declarou: “não é aceitável que, num país como a França, a segurança cotidiana não seja garantida”. Em geral, sabemos que Ségolène está a favor dos interesses dos patrões. Defendendo a “democracia participativa”, a “França presidente”, Ségolène esconde suas verdadeiras propostas: arrocho salarial, concessões aos patrões e ataques aos trabalhadores. Assim, para lutar contra o desemprego, lançou a proposta do Contrato Primeira Sorte (CPS), que financiaria durante um ano o salário de um jovem trabalhador no setor privado. Melhor do que o CPE, trabalhadores gratuitos para os patrões! No domingo, após o resultado, já cobiçando os votos de Bayrou, ela declarou ser uma “mulher livre” e que ia pedir o voto de todos, não só os da esquerda.

O que está acontecendo com a “esquerda da esquerda”?
O balanço da dita “esquerda da esquerda” não é bom. Todos tentam explicar a baixa votação com a pressão do voto útil no PS e a lembrança do dia 21 de abril de 2002, com Le Pen no segundo turno. O Partido Comunista teve a pior votação de sua história, com 1,94%, bem menos do que Robert Hue em 2002 (3,7%). Quanto a José Bové, camponês conhecido por sua luta contra os transgênicos e cuja candidatura deveria representar os militantes antiglobalização, chegou a apenas 1,32%.

Arlette Laguiller, da organização trotskista Luta Operária, candidata pela sexta vez desde 1974, obteve apenas 1,34%, resultado muito menor que o de 1995 (5,83%). A LO defendia um programa de transição classista, com proibição das demissões, mais serviços públicos para criar empregos, aumento do salário mínimo, fim das subvenções aos patrões e controle da produção e dos lucros pelos trabalhadores. Os eixos prioritários do programa eram a luta contra o desemprego e o arrocho salarial, além de um plano de urgência para os dois milhões de pessoas sem moradia digna.

Já o Partido dos Trabalhadores (organização dos lambertistas na França) não tinha candidato próprio, mas apoiava Gerard Schivardi, presidente da Câmara Municipal de Mailhac, que foi do PS até 2003. Com 0,34% dos votos, ele defendeu a eleição de uma assembléia constituinte, as 36 mil comunas (que equivaleriam às prefeituras), os serviços públicos, a ruptura com a Europa de Maastricht e a “união livre dos povos e das nações da Europa”.

A terceira organização que se diz trotskista, a Liga Comunista Revolucionária (LCR, do Secretariado Unificado), conseguiu a maior votação com a candidatura do jovem trabalhador do correio Olivier Besancenot (4,11%, ou 1,5 milhão de votos). Com a palavra de ordem “nossas vidas valem mais do que os lucros deles”, a liga retomou em seu programa eleitoral várias propostas da LO, como proibição das demissões, aumento de 300 euros para todos, fim do arrocho salarial e direito à moradia com requisição dos imóveis desocupados.

Todas essas organizações, menos o PT, depois do anúncio do resultado do primeiro turno, começaram a chamar voto em Ségolène. Surpreendentemente, Arlette declarou: “No segundo turno, não há nenhum voto útil para os trabalhadores. Nem Sarkozy, nem Ségolène farão nada para resolver os problemas das classes populares: o desemprego, o arrocho, a crise da moradia. Entretanto, desejo de todo o meu coração que Sarkozy seja derrotado, pela sua arrogância e por seu programa que só faz brindes ao patronato (…) Votarei em Ségolène. E chamo todos os eleitores a fazerem o mesmo. Mas só fiz essa escolha por solidariedade com todos os que, nas classes populares, dizem preferir tudo menos Sarkozy”.

As perspectivas depois do segundo turno
As pesquisas de opinião apontam vantagem da candidatura de Sarkozy, com 54% de intenções de voto. Segundo um outro levantamento (Ifop), 54% dos que votaram em Bayrou iriam votar em Sarkozy e 83% dos votos de Le Pen iriam também para o ex-ministro, apesar de o ex-candidato se recusar a chamar voto em Sarkozy.

Mas, independente do resultado do dia 6, não haverá nenhum avanço para os trabalhadores. Sarkozy e Ségolène são “farinha do mesmo saco”. Se é verdade que PS, PC e mesmo a “esquerda da esquerda” agitam o espantalho do fascismo com Sarkozy, não é menos verdade que a ação dos trabalhadores é o que fará a diferença nos próximos cinco anos. A última palavra não será dada no terreno eleitoral. Desde 2002, os trabalhadores franceses vêm travando lutas decisivas contra os ataques às suas conquistas sociais.

Em 2003, houve a mobilização de massas que derrubou a Lei Fillon, que prometia a destruição do sistema de aposentadorias. Depois foi o “não” à Constituição Européia. Em 2005, houve a revolta dos jovens da periferia, submetidos ao desemprego e à discriminação. Por fim, em 2006, ocorreu a onda de mobilizações da juventude contra o Contrato Primeiro Emprego (CPE), que flexibilizava os direitos trabalhistas, que forçou o governo de Villepin a recuar. Desde então, as lutas não cessaram: na PSA-Aulnay, na Alcatel e na Airbus, os trabalhadores entraram em greve contra o anúncio de milhares de demissões. Nas escolas, a comunidade mostrou solidariedade aos sem-documentos que Sarkozy quer expulsar do país. Até os trabalhadores da Clear Channel, responsáveis por colocar os cartazes oficiais dos candidatos, entraram em greve e obtiveram um aumento de 50 euros. Como podemos ver, tanto Sarkozy quanto Ségolène não terão as mãos livres para implementar os planos da burguesia imperialista francesa.

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