Editorial: Derrotar a reforma e as ameaças autoritárias de Bolsonaro

Ato do dia 22 de março na Av Paulista. Romerito Pontes

Editorial do Opinião Socialista nº 568

Quando fechávamos essa edição, continuava a novela da crise política no andar de cima. Um verdadeiro barraco com vários capítulos: a brigaiada entre Bolsonaro e Rodrigo Maia, entre o Executivo e o Legislativo, os palavrões do astrólogo Olavo de Carvalho contra os militares, a luta livre entre o Senado e o STF, o prende e solta de Temer, os militares dando uma de “razoáveis” e a Fiesp se reunindo com Mourão.

Encontro onde, aliás, Mourão disse aos empresários (no estilo “13º salário é jabuticaba”) que “reajuste do salário mínimo acima da inflação é uma vaca sagrada que precisa mudar, como a Previdência“. Essa brigaiada toda deve ser aproveitada pela classe trabalhadora para derrotar a reforma da Previdência, defendida por todos eles.

No mais recente capítulo da briga, a Câmara aprovou, com folga, uma Emenda Constitucional instituindo o Orçamento Impositivo. Quer dizer, deu mais poder ao Parlamento, impedindo o Executivo de mexer ou remanejar certas verbas destinadas às emendas parlamentares. No Senado, a notícia é que já havia maioria para impedir o fim da exigência de vista para a entrada de turistas dos EUA no Brasil, sem reciprocidade, como Bolsonaro se comprometeu com Trump.

Enquanto a crise pega fogo, Bolsonaro ia ao cinema com a primeira-dama assistir “Superação: Milagre da Fé”. Mas não sem antes fazer provocações, ameaças e propaganda em defesa da ditadura, da tortura e dos ditadores. Dias atrás, em visita ao Chile, elogiou o ditador Pinochet, um dos mais sanguinários da história.

Já no Brasil, determinou que os militares comemorem o golpe de 1964, em mais uma provocação e ameaçada velada. Bolsonaro, porém, se enfraquece, perde popularidade e vai se isolando. Chamar a comemorar o golpe é uma provocação que deve ser totalmente repudiada. Não porque esteja colocada a possibilidade de um golpe militar neste momento. Mas, justamente por isso, essa ideia e proposta devem ser completamente rechaçadas, desde já, para que não seja deixada nenhuma brecha para esse tipo de coisa.

Botar o time em campo rumo à Greve Geral
Nessa briga dos de cima devemos torcer é pela briga e botar o time de baixo em campo. A mobilização independente dos trabalhadores e a unidade no rumo da construção da Greve Geral são os caminhos para derrotar a reforma da Previdência e impedir os planos de barbárie de Guedes, Bolsonaro, Mourão, mas, também, desse Congresso e do Judiciário. Apesar das brigas, todos concordam em jogar a crise nas costas dos trabalhadores.

É também a mobilização unificada e a organização dos trabalhadores e do povo pobre que podem defender as liberdades democráticas e impedir ameaças autoritárias.

Evidentemente, a classe trabalhadora mobilizada sabe fazer unidade de ação, mesmo com os inimigos, para enfrentar um inimigo ditador, que tente fechar o regime. Mas, não deve fazer acordo político e se aliar com um dos campos inimigos, se submeter à sua direção e tirar o nosso time de campo. Esse caminho é o da derrota, de aceitar pagar o preço pela crise e, inclusive, o pior caminho para enfrentar ameaças autoritárias.

Os trabalhadores começaram a botar o time em campo no último dia 22. É preciso dar continuidade à mobilização e à proposta de derrubar a reforma da Previdência. Não é hora de desmontar a luta, tirar o time de campo e entrar em negociações espúrias para viabilizar emendas na reforma. Esse tipo de atitude, tomada pelas cúpulas das centrais, pelo PT e o PSOL, em 2017, impediu que derrotássemos a reforma trabalhista. Ao tirarem a mobilização dos trabalhadores de campo para priorizarem as eleições, abriram caminho para a “alternativa” Bolsonaro.

A reunião das centrais no dia 26 de março não aponta para um plano de lutas consequente no rumo da greve geral. Os ativistas de base, sindicatos e movimentos sociais, no entanto, não devem perder o foco: precisamos construir a mobilização por baixo para derrotar a reforma -seja a proposta de Guedes ou de Temer – e os planos de entrega do país. Vamos exigir da cúpula das centrais e dos partidos que se dizem de oposição que construam a mobilização unificada.

Tirar dinheiro dos ricos
Os ricos desse país são 1% da população. São donos, acionistas majoritários ou minoritários dos bancos, das grandes fábricas e cadeias de lojas. Não pagam impostos sobre dividendos e vivem de “investir” em títulos do governo, que pagam os maiores juros do mundo.

Para remunerar os lucros dessa gente, o governo rouba nossa aposentadoria e ainda quer botar a mão no dinheiro que, obrigatoriamente, precisa destinar à saúde e educação.

A submissão do nosso país aos países ricos, às multinacionais e aos banqueiros internacionais e, agora, ainda mais, aos interesses de Trump, vai levar a um empobrecimento e desemprego ainda maior.

A alternativa dos de baixo é socialista
Precisamos impedir os ataques e a reforma da Previdência. Mas a alternativa não é o “menos pior”. Queremos tudo aquilo a que temos direito, “um país que não está no retrato”, como disse o samba da Mangueira, com pleno emprego, salário digno, saúde e educação públicas e gratuitas, sem racismo, machismo, lgbtfobia e violência. Para isso é preciso enfrentar esse 1%. Parar de pagar a dívida aos banqueiros, impedir as privatizações, a desnacionalização e a entrega do país e reestatizar, sob o controle dos trabalhadores, as 100 maiores empresas.

Para isso, precisamos de um governo socialista, dos trabalhadores, que, apoiado na mobilização e organização dos de baixo (unindo a classe operária, o povo pobre, os oprimidos e a juventude), possa governar através de conselhos populares.

Redação