Docentes rechaçam tentativa de constituição de sindicato da CUT/Proifes e defendem Andes-SN

Em assembléia realizada no sábado (6/9), eles reafirmaram a legitimidade do Andes-SN como o único sindicato dos docentes do ensino superior do paísImpedidos de entrar na assembléia convocada pela CUT/Proifes para criação de um sindicato de professores das universidades federais, realizada neste sábado (6/9), na sede da CUT, em São Paulo, mais de 200 docentes contrários à criação da entidade reafirmaram a legitimidade do Andes-SN como o único representante da categoria, em assembléia realizada na parte externa do prédio da central.

Dentro do prédio da CUT, professores filiados ao Proifes aprovaram a criação de um “novo sindicato” com apenas 115 votos presenciais e 485 votos por procuração. Além de impedir os professores de participar da assembléia e expressar sua opinião, os dirigentes da CUT/Proifes também impediram a entrada dos jornalistas.

Ao reafirmarem a legitimidade do Andes-Sindicato Nacional, os professores rejeitaram, por unanimidade, a pretensa nova entidade. “Nos quase 30 anos de existência do Andes-SN, sempre realizamos assembléias de portas abertas à participação de todos, inclusive da imprensa. Eles obstruíram a entrada de um número de professores pelo menos duas vezes superior ao que já estava lá dentro. Esse tipo de procedimento é absolutamente incompatível com o edital de convocação dessa assembléia, porque fere o direito de manifestação da categoria e, portanto, é irregular”, ressaltou o presidente do Andes-SN, Ciro Teixeira Correia, que, por ser professor de uma universidade estadual (USP), também foi impedido de entrar no local.

Estratégias de obstrução
O edital de convocação, publicado pelas entidades governistas há cerca de um mês, deixava claro que se trataria de uma assembléia exclusiva de professores das universidades federais, mas em nenhum momento explicou as regras de participação, menos ainda previu votos por procuração. No entanto, às 14h40 – vinte minutos antes do início da assembléia, os dirigentes da CUT informaram que dispunham de apenas duas pessoas para fazer o credenciamento dos 216 professores que se encontravam na porta da CUT e que se posicionavam contra a criação da pretensa entidade sindical.

No rol da estratégia de obstrução, a CUT/Proifes impôs aos docentes que pretendiam participar da assembléia geral para dizer não à constituição do tal sindicato uma série de impedimentos e constrangimentos pessoais. Submeteu os docentes a filmagem para entrarem no prédio e tentar o credenciamento, realizado mediante preenchimento de formulários, exigiu a comprovação da docência em Ifes por meio de apresentação da identidade e contracheque, realizou revista dos professores e a apreensão de celulares, câmeras fotográficas, filmadoras e gravadores. Ou seja, o novo sindicato, além de dividir a categoria e enfraquecer o Movimento Docente, foi criado às escuras.

A assembléia começou pontualmente às 15 horas, quando apenas cinco docentes ligados ao Andes-SN haviam conseguido se credenciar. Exatamente sete minutos depois, os presentes já haviam votado e aprovado a criação do novo sindicato. Após 15 minutos, a assembléia já havia terminado.

De acordo com o 1º vice-presidente do Andes-SN, Antonio Lisboa, um dos que conseguiram entrar na assembléia, a mesa organizadora proibiu qualquer manifestação deles, que não tiveram sequer direito a fala ou informes. “Ninguém, além da mesa, fez uso da palavra; ninguém mostrou ou leu o conteúdo das procurações”, acrescentou.

Os professores impedidos de entrar representavam 36 seções sindicais do Andes-SN de todas as regiões do país. Para reafirmar sua vontade de representação pelo Sindicato Nacional, todos assinaram a ata da assembléia realizada ao ar livre. O documento relata todos os atos de obstrução da CUT/Proifes contra a livre participação dos docentes.

No final da tarde, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) prestou seu apoio ao Sindicato Nacional e pediu que o relato seja enviado ao seu gabinete. Ele se comprometeu a enviar o relatório ao Ministério do Trabalho e à CUT, pedindo esclarecimentos sobre o modo como a CUT/Proifes tentaram constituir esse sindicato.

Fundação do Andes-SN resultou de amplo debate da categoria
Os dirigentes do Andes-SN deixaram claro sua posição contra a unicidade sindical, mas criticaram a forma arbitrária e autoritária com que a CUT/Proifes pretendem criar essa nova entidade. Ciro lembrou que “a constituição do Andes-SN como o sindicato nacional de todos os professores das instituições de ensino superior do país resultou de amplo processo de discussão da base em todas as instituições de ensino superior”.

Ele ressaltou que a fundação do Sindicato Nacional se deu num congresso convocado e composto por delegações de todo o país, em local público e com amplo acesso da imprensa e de todos que pudessem testemunhar o evento. “O que aconteceu aqui hoje foi justamente o processo inverso. Querem criar um sindicato sem a participação da base que dizem representar. Esse procedimento é inaceitável e nós temos certeza de que a categoria saberá responder a essa provocação”, afirmou.

Apoios declarados
Entre os professores impedidos de participar da assembléia, vários ex-dirigentes do Sindicato Nacional estavam presentes e manifestaram seu descontentamento com a forma ilegítima como a CUT/Proifes criaram o novo sindicato. “Esse procedimento que eles adotaram obstruiu, impossibilitou a nossa participação”, afirmou Marina Barbosa, presidente da Aduff (Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense).

Roberto Leher, ex-presidente do Andes-SN, lembrou que “a história do Andes-SN se confunde com a construção da universidade pública brasileira”. Ele lembrou que os docentes, desde a ditadura empresarial militar nos anos 60, organizaram associações justamente para defender a autonomia universitária.

Leher também lembrou das lutas conjuntas com os demais servidores públicos para conquistar o direito à organização sindical, que veio com a Constituição de 88. “Após a promulgação da Constituição, levamos dois anos discutindo na base se iríamos criar o Sindicato Nacional, por meio de debates públicos e congressos”.

A estudante da USP, Camila Lisboa, representante da Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes (Conlute), também manifestou o apoio dos estudantes ao Andes. “Esse sindicato significa muito para a defesa da educação pública, na luta contra o ReUni, contra projeto do governo federal para as universidades, que ataca não só as universidades, mas também o movimento estudantil, o movimento docente e o movimento dos trabalhadores técnico-administrativos. Acreditamos que a organização unitária dos professores, funcionários e estudantes fortalecerá não só a luta em defesa da autonomia da universidade, mas uma luta em defesa da autonomia do movimento sindical e do movimento estudantil. Por isso, colocamos toda a solidariedade e vigor que mostramos nas ocupações das reitorias à disposição do Andes-SN, esse sindicato combativo que o movimento estudantil combativo reconhece como aliado para a luta em defesa da educação pública desse país”.

O presidente da Conlutas, José Maria de Almeida, também participou da assembléia realizada pelos docentes do Andes-SN, manifestando seu apoio ao que considera “o único e legítimo sindicato nacional da categoria”.

Ressentimento da CUT
Ao final da assembléia-relâmpago, o secretário de Relações Internacionais da CUT, João Felício, foi questionado pelos jornalistas sobre o motivo pelo qual não puderam fazer a cobertura da assembléia.

O cutista deixou transparecer todo ressentimento pelo fato de o Andes-SN ter se desfiliado da Central: “Se vocês saíram da CUT, o que querem aqui?”. E, na tentativa de justificar a forma antidemocrática como o novo sindicato foi criado, afirmou: “a CUT está agindo como sempre agiu”.

Cutistas apóiam Andes
José Vitório Zago, 1° tesoureiro do Andes-SN, lembrou que a ação da CUT/Proifes contra o Sindicato Nacional tem sido rechaçada até por entidades filiadas à central. “Entre as manifestações de apoio que recebemos na última semana, tivemos apoio de dois sindicatos cutistas, o Sintepes, que integra o Fórum das Seis, e do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro. Ambos aprovaram moções de apoio a nós. Outra entidade filiada à CUT, a Condsef, registrou na ata da última reunião de sua diretoria executiva um protesto contra a perseguição que o Andes vem sofrendo”.

Firmeza na luta
A diretoria do Sindicato Nacional conclama sua base a fortalecer a luta em defesa da universidade pública e da carreira docente. “A iniciativa para criação desse sindicato, apesar de ser uma ameaça à unidade do movimento docente, não anula a representatividade do Andes-SN. Nossa entidade continua firme e combativa, lutando pelo restabelecimento do seu registro sindical arbitrariamente suspenso pelo governo apoiado pela CUT. Sempre soubemos da represália que poderíamos sofrer ao permanecermos críticos e independentes do governo e ao nos desfiliarmos da CUT para construir um movimento verdadeiramente combativo, portanto, não nos sentimos abatidos, mas cada vez mais motivados à luta que temos defendido nos últimos 27 anos”, afirmou Ciro Correia.

Os rumos do Sindicato Nacional deverão ser discutidos no III Congresso Extraordinário, que será realizado este mês em Brasília, de 19 a 21 de setembro.