Darwin e a dialética da natureza

O ano de 2009 tem um significado especial para a comunidade científica. Há exatos 200 anos, nascia o homem que revolucionaria a biologia propondo uma origem para a vida que se chocava com a Igreja Católica. Seu nome era Charles Robert Darwin, cientista inglês que há 150 anos publicou A origem das espécies, obra que lançou a Teoria da Evolução e derrubou as explicações místicas ou religiosas de que as espécies teriam sido criadas por um ser superior e permanecido imutáveis.

Na Teoria da Evolução, Darwin diz que cada ser vivo é produto de uma evolução e não de uma criação divina. Para o cientista, estava claro que as espécies sobreviviam de acordo com uma seleção natural. Isto é, as espécies melhor adaptadas a um determinado ambiente teriam mais chances de sobreviver e passariam suas características biológicas para seus descendentes.

Assim, cada ser vivo no planeta, seja um inseto, seja um mamífero complexo, deriva, segundo ele, de um ancestral comum. Darwin nunca disse que o homem evoluiu de um macaco, como tentam insinuar alguns para desmoralizar a Teoria da Evolução, mas que os dois tinham um parente em comum no passado.

Para desbravar os caminhos da evolução, foram anos de estudos e pesquisas intensas. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beagle, navio da marinha britânica, onde passou cinco anos em expedições. A missão era cartografar a costa oeste da América do Sul.

No início de 1832, Darwin passou pelo Brasil, onde ficou horrorizado com as crueldades cometidas contra os escravos. “Até hoje quando ouço um grito à distância, revivo com enorme intensidade o que senti quando, ao passar perto de uma casa em Pernambuco, ouvi gemidos terríveis, certamente vindos de um escravo sendo torturado e, tal qual uma criança, não pude fazer nada”, escreveu o naturalista mais tarde.

Em 1839, publicou o Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo. Mas foi só em 1859 que publicou as primeiras conclusões de suas pesquisas na obra que é considerada um marco. A reação da Igreja na ocasião foi devastadora. As idéias de Darwin desafiavam a teoria oficial de que a Terra tinha apenas 6 mil anos e de que os fósseis de dinossauros eram de criaturas que não conseguiram escapar do dilúvio na Arca de Noé.

Antes de Darwin, muitos outros que se atreveram a questionar de alguma maneira o criacionismo foram duramente castigados. Isso porque questionar a criação significava – e significa até hoje – abalar as bases da dominação da Igreja.

As hipóteses de Darwin foram baseadas na mais minuciosa observação e podiam ser comprovadas material e objetivamente. O atual desenvolvimento da genética é a máxima confirmação de que o evolucionismo é mais do que uma teoria, é a própria dinâmica da natureza.

Marx e Engels não tardaram em reconhecer e explorar o materialismo radical de A Origem das Espécies. Em 1869, Marx escreve a Engels sobre a obra: “embora escrito no rústico estilo inglês, este é o livro que contém a base, em história natural, para nossa tese”. Engels, no prefácio à edição inglesa do Manifesto Comunista (1888), compara o socialismo científico teorizado por ele e Marx à teoria darwinista: “em minha opinião, será para a história o que foi para a biologia a teoria de Darwin”. Marx chegou a dedicar ao inglês o segundo volume de O Capital. Cauteloso, Darwin rejeitou a oferta, pois não queria se envolver em mais polêmicas do que já tinha criado.

Engels observou a capacidade da Teoria da Evolução de perceber o desenvolvimento dialético da natureza como processo em constante movimento, contraditório, com mudança e transformação: “a natureza é a pedra de toque da dialética e as ciências maternas da natureza dão-nos para esta prova um conjunto abundante de dados extraordinariamente enriquecido a cada dia que passa, provando assim que a natureza se move, em última análise, nos caminhos da dialética e não nos da metafísica, que a natureza não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma história efetiva. Antes de mais, é preciso citar Darwin, que vibrou o mais rude golpe à concepção metafísica da natureza, ao demonstrar que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais e, por conseqüência, o homem, também é o produto de um processo de evolução de milhões de anos” (Engels. Do socialismo utópico ao socialismo científico).

O novo traje do criacionismo
De tempos em tempos o criacionismo volta à carga com seu arsenal para desqualificar Darwin. No entanto, a era de George W. Bush propiciou bastante força para esse movimento que obteve forte lobby político e apoio da direita religiosa. Incrivelmente, hoje o debate sobre o ensino da teoria da criação nas escolas volta à tona, principalmente nos Estados Unidos, onde em mais de 20 estados se ensina o criacionismo como uma suposta ciência.

É uma comprovação impressionante da decadência do imperialismo. No país mais poderoso do planeta, onde existem as universidades mais avançadas, tenta-se impor um retrocesso ideológico tão grande que questiona bases mínimas da ciência moderna. E são exatamente esses os que olham com superioridade para tribos atrasadas africanas que atribuem poderes divinos ao sol.

No Brasil, Rosinha Garotinho, ex-governadora do Rio de Janeiro e evangélica da igreja presbiteriana, defendeu o ensino do criacionismo nas escolas estaduais junto às aulas de biologia.

Atualmente, o criacionismo é chamado de Design Inteligente. Seus defensores argumentam que elementos tão complexos da natureza (como o olho ou cérebro humano) não poderiam ser explicados pela evolução, mas sim por uma inteligência superior. Tal explicação, porém, não resiste a qualquer sério debate científico.

Por trás do criacionismo, não há nenhuma suposta explicação científica, mas sim ideologia com profundas bases sociais, como assinalou o biólogo Stephen Jay Gould. Para ele o criacionismo é, de fato, “uma máscara subsidiária de todo um programa político que quer proibir o aborto e apagar as conquistas sociais e políticas da mulher”.

Post author Luciana Candido e Jeferson Choma, da redação
Publication Date