Da revolução negra aos tempos atuais

A revolução negra tornou o Haiti um país independente, um exemplo que logo as grandes potências trataram de isolar, buscando asfixiá-lo em termos econômicos.
As contradições internas também enfraqueceram o novo Estado. Uma nova classe dominante foi constituída pela cúpula do exército, com os generais tomando grandes propriedades rurais. O Haiti se dividiu em duas partes, com Cristophe, no norte, e Pétion, no sul.

Em 1825, para romper o bloqueio econômico, o Haiti se submeteu às condições impostas pela França, concordando em pagar 150 milhões de francos pelas “perdas” decorrentes da independência. Anos depois, a soma foi reduzida para 90 milhões de francos, que foram pagos até o ano de 1947, consumindo 80% do orçamento nacional. Em valores atuais, a “dívida” corresponderia a cerca de US$ 21 bilhões, o que na prática acabou com a independência do país.

Os EUA invadiram o Haiti em 1915, lá permanecendo por cerca de vinte anos. Como demonstração de seus “modernos” métodos, o novo imperialismo crucificou Peralte, o principal líder da resistência à invasão. E ainda roubou todo o ouro do Banco Central.

Em 1957, Papa Doc – fiel aliado dos EUA – chegou ao poder, dando início a uma das mais violentas ditaduras da América Latina. Em 1971, com sua morte, o poder foi transmitido para seu filho, Baby Doc, até este ser derrubado por uma revolução em 1986.

Vitória da frente popular
Outros governos militares seguiram no poder depois da queda de Baby Doc, até que finalmente foram convocadas eleições em dezembro de 1990. Nelas o padre Jean-Bertrand Aristide, adepto da Teologia da Libertação, foi eleito com 67% dos votos. O candidato preferido pela burguesia e pelo imperialismo, Marc Bazin, conseguiu apenas 14%.

As primeiras eleições relativamente livres no Haiti, após dezenas de anos, levaram ao poder um governo de colaboração de classes, também chamado de “frente popular”.
Sete meses depois o novo governo foi deposto por um golpe militar de direita dirigido pelo general Cedras, que matou 5 mil adeptos de Aristide.

O novo regime militar começou a enfrentar crises e uma crescente resistência popular. Neste momento ocorreu uma reviravolta que marcou todo o restante da história haitiana: através do governo Clinton, o imperialismo fez um acordo político com Aristide, invadiu o país pela segunda vez em 1994 e depôs a ditadura.
Aristide fez a aliança com Clinton para impor ele mesmo um plano neoliberal no país. Com eleições convocadas, o candidato de Aristide, René Préval (o mesmo que hoje preside o país), foi eleito com 87% dos votos. Em 2000, ele foi sucedido pelo próprio Aristide, vitorioso com 92% dos votos, na primeira sucessão civil da história haitiana.

Nos dois mandatos, Préval e Aristide cumpriram seu acordo com o imperialismo e impuseram a privatização das estatais e a eliminação das tarifas de importação. O próprio Aristide apresentou na Cúpula de Monterrey, em 2003, o plano que criou as 18 zonas francas.

Uma contradição típica da história haitiana: um governo de frente popular, imposto por uma invasão do imperialismo, aplicando um plano neoliberal duríssimo. O resultado foi uma enorme desilusão. Com Aristide, a grande esperança do povo haitiano foi por água abaixo. A insatisfação tomou conta e começaram ocorrer mobilizações contra o próprio presidente.

Os EUA sentiram que a frente popular já não lhe servia mais e não era mais capaz de conter o movimento de massas. Então começou a implementar um plano para derrubar Aristide.

No artigo Opção Zero no Haiti, Peter Hallvard demonstra que paramilitares liderados por Jean Tatoune e Guy Philippe foram financiados pelos EUA, numa manobra semelhante à dos contras na Nicarágua. Assim, foi criado o “argumento” para a invasão: gangues armadas pelo próprio imperialismo.

Aristide ficou preso entre dois fogos: a crescente insatisfação popular com seu plano econômico e a pressão militar da ultra-direita.
Em abril de 2003, já em desespero, o ex-padre tentou um golpe de efeito político, cobrando da França a dívida de US$ 21 bilhões das indenizações pagas entre 1825 e 1947. Mas nem isso lhe devolveu o apoio das massas.

A nova invasão
Em fevereiro de 2004, o Conselho de Segurança da ONU legalizou mais uma invasão do Haiti, agora para tirar do poder o mesmo Aristide, que tinha sido colocado também por uma invasão dez anos antes.

Durante a primeira semana da invasão, as tropas operaram em regiões antes controladas por Aristide, matando seus seguidores. Hallvard informa que o novo primeiro-ministro, Gerhard Latortoue, cumprimentou publicamente Jean Tatoune, um dos chefes dos grupos da ultradireita.

A ONU impôs um novo governo e chamou tropas de ocupação, agora compostas e dirigidas por países latino-americanos. O governo Lula aceitou a liderança da tropa de ocupação – atendendo a um pedido expresso de Bush –, formada por exércitos do Brasil, Argentina, Bolívia e Chile.

Os “defensores da democracia” demoraram dois anos para convocar novas eleições, com medo de que os adeptos de Aristide voltassem a ganhar. Somente em fevereiro de 2006 o povo haitiano pôde votar novamente. Uma fraude gigantesca foi montada pelo governo Bush e as tropas de ocupação.

Os candidatos eram Préval (mais uma vez representando Aristide) e dois representantes da direita. Foram filmadas caixas e mais caixas de votos para Préval sendo lançadas no lixo. Segundo a Folha de S. Paulo, a empresa Boucar Pest Control, contratada pelas tropas da ONU, admitiu ter levado urnas com milhares de votos de Préval para um depósito de lixo. Mesmo assim, o candidato da burguesia que teve mais votos não ultrapassou 12%.

O conselho eleitoral do país não se animava a definir os resultados, mesmo com a evidente vitória de Préval. Milhares de pessoas saíram às ruas do país contra a fraude. Para evitar uma nova rebelião, o governo recuou e aceitou a vitória do ex-presidente. O povo festejou com grandes manifestações.

Mais uma vez, quando chamado para votar, nas poucas vezes em que isso foi possível, o povo haitiano buscou derrotar os candidatos que identificava com o imperialismo. No entanto, novamente foi traído. Uma vez empossado, Préval passou a cumprir o papel de um governo fantoche a serviço da ocupação militar. Aceita o papel de um presidente que não manda em nada, em um país ocupado por tropas estrangeiras e dirigido pela embaixada brasileira, a serviço de Washington.

Símbolo da revolução há duzentos anos, o Haiti hoje demonstra a falência da colaboração de classes na América Latina. Tropas de governos de “esquerda” e “populistas” (Lula, Néstor Kirchner, Evo Morales e Michelle Bachelet) sustentam a ocupação colonial do país.

O Haiti volta a ser uma colônia, pelas mãos de Préval e de seus semelhantes no continente.
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