Crônica de uma revolução negra

A imagem que se tem dos haitianos no Brasil é a da miséria em que este povo vive. Esta é apenas uma parte da verdade. A outra só pode ser entendida se conhecermos a história do Haiti: este também é um povo rebelde e altivo, com um histórico exemplar de lutas e vitórias em seu passado.

Mais ainda, ao conhecermos sua história e ver a miséria atual, pode-se esperar uma nova rebelião, agora contra a dominação imperialista garantida pelas tropas brasileiras.

Os escravos na colônia
Os haitianos constituem o povo negro que conseguiu realizar a primeira e única revolução dos escravos vitoriosa da história. No decorrer dos séculos houve muitas rebeliões de escravos. Na Antiguidade, a mais conhecida foi a liderada por Spartacus, em 74 a.C., contra o Império Romano. Como tantas outras, inclusive no período pós-1500, a revolta de Spartacus foi derrotada.

Contudo, no Haiti, na história foi diferente. Os escravos não só foram vitoriosos, como derrotaram os exércitos das principais potências coloniais da época, como Inglaterra, Espanha e França.

A colônia de Santo Domingo foi entregue à França pela Espanha pelo tratado de Ryswick, de 1695. A ilha chegou a ser a principal colônia de todo o mundo com a produção de açúcar, mercadoria mais cobiçada da época. A renda alimentava a burguesia mercantil de Marselha, Nantes e Bordéus, a base social dos girondinos (ala direita da burguesia na Revolução Francesa).

A produção era garantida com 500 mil africanos escravizados. Cerca de 30 mil brancos exploravam os negros com métodos brutais, trabalho duríssimo, tortura sistemática e muitas vezes a morte perante qualquer falha. A expectativa de vida dos escravos, depois de chegar à ilha, era de três anos em média.

O exército negro de Toussaint Louverture
A revolução dos escravos acompanhou passo a passo os momentos da Revolução Francesa. Em 1789, as massas francesas tomaram a Bastilha, abalando profundamente a monarquia, e a crise se instalou entre as classes dominantes de Santo Domingo.
Em 1791, teve início a revolta dos escravos, com um primeiro ensaio organizado por Bouckman. Enquanto isso, entre 1792 e 1794, na França, a revolução atingia seu auge, com a tomada do poder pelos jacobinos (ala esquerda da burguesia, dirigida por Robespierre), que, dentre outras coisas, decretaram o fim da escravidão.
Este período coincidiu com o ascenso da revolução dos escravos, dirigido por sua maior liderança, Toussaint Louverture, que articulou um poderoso exército negro e impôs seguidas derrotas às tropas coloniais.

Nesse processo, Toussaint se utilizou de uma aliança com os espanhóis que lhe forneciam armas contra a dominação francesa. Com o fim da escravidão, ele assumiu a bandeira francesa e se tornou o primeiro comandante negro das forças em Santo Domingo que, contudo, continuava sendo uma colônia francesa.
Nos sete anos seguintes, Toussaint expulsou os exércitos espanhóis e ingleses e se transformou, de fato, no único governo local, decretando uma nova constituição, em 1801. Mesmo sem estabelecer a independência, ela não mantinha nenhum poder real francês acima dele.

Enquanto isso, na França, a revolução entrava em um longo período de refluxo e reação, que culminou com a chegada de Napoleão Bonaparte ao poder. O plano de Napoleão era restabelecer a escravidão em Santo Domingo e, para isso, uma nova expedição com 47 mil soldados foi enviada à ilha, comandada por seu cunhado, Leclerc.

Nesse momento, os exércitos de Napoleão tinham um papel progressivo na Europa ao combaterem a reação feudal. Já suas investidas militares contra Santo Domingo eram o oposto, com conteúdo claramente contra-revolucionário.

Os negros derrotam Napoleão Bonaparte
O exército de Toussaint detinha o poder em Santo Domingo e estava gestando uma nova classe dominante negra, com seus generais se apossando de terras. Além disso, por mais que tivesse informações sobre os preparativos de Napoleão, Toussaint permaneceu preso aos limites de sua formação, sobre a qual os ideais da revolução francesa pesavam.

Em suma, o dirigente negro não podia acreditar que Napoleão quisesse decretar a volta da escravidão e a retomada da ilha. Isso possibilitou que os franceses tivessem vitórias fulminantes ao desembarcarem na ilha.

Mas, quando sofreu as primeiras derrotas, Toussaint reorganizou seu exército e, em batalhas memoráveis, levou os franceses a pesadas perdas, aumentadas pela febre amarela que também ajudou a causar baixas nas tropas coloniais.
Quando já podia passar à ofensiva e expulsar as tropas de Napoleão, Toussaint mais uma vez mostrou seus limites: fez um acordo com o exército quase derrotado de Leclerc, que concordou agradecido.

Louverture queria mostrar a Napoleão suas “boas intenções”, mas acabou sendo preso e levado à França, onde foi deixado para morrer de frio nas masmorras de uma prisão nos Alpes.

Em 1804, uma nova rebelião negra comandada por Dessaline, um dos generais de Toussaint, massacrou os franceses e decretou a independência da ilha, que passou a se chamar Haiti.

O todo poderoso exército de Napoleão havia sido derrotado pelos negros haitianos. Era a primeira revolução negra da história, a primeira revolução anticolonial na América Latina.

C.L.R. James, o autor de “Os jacobinos negros” (o livro mais importante sobre a história do Haiti, do qual retiramos estes extratos), observa que os escravos haitianos estavam concentrados em grandes plantações, que produziam para o mercado capitalista. Exatamente por isso puderam organizar suas rebeliões como o proletariado moderno e conseguir suas vitórias. Isto ocorreu quase setenta anos antes da Comuna de Paris e mais de um século antes da Revolução Russa.

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