Crônica de um acidente anunciado

Acidentes na Bosch expõe que empresas não garantem a segurança e a saúde do trabalhador para lucrarem.No dia 18 de maio aconteceu um terrível acidente na Bosch de Campinas. Na seção 38, linha de montagem de rotores, um trabalhador teve sua mão esmagada e perfurada por uma furadeira de balanceamento (máquina similar a uma prensa de chapas de aço). Foi uma cena horrível: a mão dele ficou presa de tal modo que, para ser retirada, a máquina teve que ser desmontada. O companheiro foi levado às pressas para o hospital, correndo sérios riscos de perder os movimentos dos dedos.

Para a empresa este foi apenas mais acidente de trabalho onde, em geral, o trabalhador é culpado pela mutilação do seu próprio corpo. A rigor, gerentes e supervisores creditam os acidentes de trabalho à falta de atenção, ao desleixo e à má utilização das máquinas-ferramentas pelo próprio trabalhador.

Mas na Bosch a coisa não foi bem assim: a existência de um pequeno grupo de cipeiros de luta e independentes da empresa fez toda a diferença. Neste mesmo dia, três prensas foram interditadas. Com estas passava para 35 o número de prensas interditadas pela Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) devido à ausência de dispositivos de segurança.

Com a interdição de todas estas máquinas vários produtos, como alternadores, motores de partida, motores de limpador de pára-brisa e de ar condicionado deixaram de ser fabricados. Nunca na história da Bosch havia acontecido algo semelhante.
A interdição das prensas começou antes do acidente na seção 38. No início de maio, um dos cipeiros recebeu uma chamada denunciando um acidente na Seção 113. O ferramental de uma prensa por pouco não esmagou as mãos de uma operária. Por sorte, ela tirou as mãos antes que a prensa despencasse. O susto foi tão grande que a companheira quase desmaiou. Poucas semanas depois, não houve tempo de o outro operário tirar a mão antes do acidente.

Bosch não cumpre Nota Técnica do Ministério do Trabalho
A Nota Técnica Nº 16 do Ministério do Trabalho, de março de 2005, estabelece os mecanismos de segurança para prensas e máquinas similares. Afirma que uma prensa ou similar para funcionar deve ser enclausurada com proteções fixas ou móveis e possuir, pelo menos, comando bi-manual, válvula de segurança, botão de parada de emergência, cortina de luz e comandos elétricos de segurança. Isto é fundamental para que a máquina só seja acionada quando o trabalhador tirar as mãos da zona de prensagem. Na falta destes mecanismos, o risco de acidente é inevitável.
O grupo de cipeiros de luta que interditou as 35 prensas na Bosch avalia que todas as prensas e similares, num total de mais de 1.000 máquinas, carecem de mecanismos de segurança. Ou seja: praticamente todos os operários que manipulam estes equipamentos nos três turnos estão correndo sérios riscos de mutilação. Isto num quadro em que 30% dos trabalhadores têm algum problema de saúde relacionado ao trabalho. A lista é imensa: lesões por esforço repetitivo, surdez, dermatite crônica, hérnia de disco, depressão e uma grande quantidade de mutilados.

Como se não bastasse o descumprimento da Nota Técnica Nº 16 desde 2005, a Bosch propõe descaradamente regularizar as 500 prensas com todos os mecanismos de segurança até… 2013! Mas isto não é tudo: há uma forte pressão da empresa e de toda Patronal para que não se renove a cláusula 68 da Convenção Coletiva. A cláusula 68 garante a estabilidade no emprego aos trabalhadores acidentados e lesionados. Com o seu fim ficaria mais fácil “descartar” um lesionado e pôr um temporário no lugar.

Para os patrões, a segurança no trabalho é um simples assessório
Antes de garantir a segurança do operário no trabalho, o patrão se pergunta: quanto isto vai me custar? Estas medidas vão afetar o ritmo da produção? As duas perguntas são feitas por um simples motivo: garantir a segurança e a saúde do trabalhador custa dinheiro e pode obrigar a empresa a diminuir as metas de produtividade. Este é exatamente o caso da Bosch: ela até hoje não cumpre a Norma Técnica Nº 16 porque isto vai significar aumento nos custos de produção e diminuição dos ritmos infernais de trabalho.

Por outro lado, quando o motor de uma prensa falha, imediatamente meia dúzia de técnicos é acionada para garantir a retomada da produção. Para a empresa o que importa é o motor da prensa funcionando, produzindo, garantindo o lucro; e uma prensa pode funcionar perfeitamente sem alguns equipamentos de segurança obrigatórios, como a cortina de luz. Para os patrões, a segurança no trabalho é um simples acessório.

Cipeiros de Luta propõe construir grupo de fábrica
O caso da Bosch demonstra que, para a burguesia, a integridade física e a vida do trabalhador não passam de um detalhe insignificante. Por outro lado, a ação de um pequeno grupo de cipeiros comprova outra coisa: que só a luta dos trabalhadores pode garantir o direito à segurança e a saúde no trabalho.

O grupo que fez todas estas ações na Bosch é formado por militantes da Conlutas, da Alternativa Sindical Socialista (ASS) e ativistas independentes eleitos para a Cipa. A partir da ação destes cipeiros de luta, a Conlutas propõe construir um grupo de fábrica na Bosch que tenha um boletim e reuniões periódicas. A perspectiva é unificar os ativistas neste organismo de frente única. A melhor forma de fortalecer o sindicato pela base é impulsionar a formação destes grupos dentro de cada fábrica.

Linha do tempo
2009: Grupo de cipeiros encaminha a gerência duas fichas de recomendação, uma em maio e outra em novembro, denunciando a falta de dispositivos de segurança nas prensas e máquinas similares. A empresa nada fez.

Abril de 2010: Os mesmos cipeiros paralisaram o transporte interno da fábrica, porque os Milk Run (carrinhos que abastecem as células de produção) não possuíam trava de segurança.

Maio de 2010: Por exigência dos cipeiros, o fiscal do Ministério do Trabalho foi acionado pelo sindicato, interditando 17 prensas em dois dias. Em quinze dias, 32 prensas irregulares foram interditadas. No dia 18, após acidente na seção 38, mais três prensas são interditadas.

Post author Raildo Diniz Neves, operário metalúrgico, cipeiro da Bosch Campinas*
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