Crise econômica e Social na Europa

Cremos que há, ou deveria haver, coisas que já estão mais ou menos claras e fixas na interpretação da crise, no entanto, e para não pegar desprevenidos aos incautos podemos fazer uma não tão rápida revisão dos fatos e teorias que justificam nossas opiniões, e que em nossas opiniões foram confirmadas pelos fatos.

Em primeiro lugar essa é uma crise clássica do capital. Em que sentido? No de que é a queda da taxa de lucro que leva a explosão da crise.

No entanto este postulado clássico do século XIX teve uma atualização que precisa ser entendida e explicada. Como já observava Marx em “Luta de Classe em França”, tanto no seu modo de fazer fortuna como nos seus prazeres, a aristocracia financeira não é mais do que o renascimento do lumpemproletariado na cúpula da sociedade burguesa. Depois disso, é preciso considerar o que disse Lenin da nova etapa que começou em 1914, a etapa das guerras e revoluções: “o século XX assinala, pois, o ponto de viragem do velho capitalismo para o novo, da dominação do capital em geral para a dominação do capital financeiro.” Em quase todo o livro, e em um capitulo inteiro dedicado ao tema “VIII – O Parasitismo e a Decomposição do Capitalismo” Lenin se dedica a mostrar que o capital financeiro dominou o mundo e que este capital é parasitário ou como mínimo improdutivo. O século XX viu a progressão do domínio do capital financeiro e seu afastamento contínuo do mundo da produção.

O sonho louco do lúmpen burguês é a de que valor se transforme em mais valor sem ser necessário adentrar no inferno da produção. Os loucos anos 90 pareceram dar ao capitalismo a certeza de que este sonho se realizaria, as possibilidades de ganhos pela via financeira, a expansão desmedida do capital fictício, o grau de parasitismo desse capital e sua aparente independência do mundo da produção geraram uma fenomenal euforia no capitalismo. A contraparte disso foi a necessidade de uma aumento espetacular da exploração dos trabalhadores de todo o mundo. A “desregulamentação” das leis trabalhistas, a abertura dos mercados, a diminuição do Estado e toda uma série de engenhosos engodos foram na verdade forma de aumentar a exploração dos trabalhadores, diminuir seus salário (diretos, indiretos e sociais), e assim arrancar dos trabalhadores, e entregar aos setores mais parasitários da burguesia, partes cada vez mais crescentes da renda mundial.

O parasitismo e a inutilidade da burguesia, que já destaca Lenin ao observar que : “há trinta anos, os empresários que competiam livremente entre, si realizavam 9/10 da atividade econômica que não pertence à esfera do trabalho físico dos ‘operários’. Na atualidade, são os funcionários que realizam os 9/10 desse trabalho intelectual na economia.” (ou seja que na verdade os grandes capitalista já não trabalhavam mais, eram parasitas sociais) foi aprofundado com a transformação de boa parte do Capital em parasitismo e jogatina em larga escala. A fuga do capital das atividades produtivas para as atividades financeiras e dai para as meramente especulativas e parasitárias foi uma constante no século XX.

Essa é uma sumária recapitulação com o objetivo exclusivo de rememorar nossas opiniões anteriores.

No entanto, cremos que sim há alguns fatos novos que valem a pena destacar e será sobre isso que versaremos no presente artigo.

Em primeiro lugar, a entrada em cena do movimento operário espanhol com sua greve geral fantástica Em segundo lugar a própria crise espanhola, que caminha resolutamente em direção à Grécia. E não menos importante a “resolução” da crise grega com seus bilhões de euros. Junto com tudo isso, a farra de 1 trilhão de euros dado aos grandes bancos europeus com o objetivo de “parar” a crise.

A Crise Grega, e os grandes Bancos europeus
No fim de dezembro, no que seria chamado de buffet livre aos bancos europeus, o BCE (Banco Central Europeu) liberou aos grandes bancos da zona do euro nada menos que 500 bilhões de euros para evita o que seria a “aproximação de um colapso financeiro”. A dinheirama fácil, com juros de 1%, foi distribuída a 523 bancos.
Pouco mais de dois meses depois a história se repetiu e outros 500 bilhões de euros aos quais recorreram 800 bancos. O trilhão de euros fornecido pelo BCE deixa mais ou menos claro quem de fato é que a UE quer salvar: os grandes bancos.

Este “tsunami monetário”, nas palavras de Dilma Roussef, gerado pelo BCE tenta responder à crise financeira profunda da Europa, em especial da zona euro. Nos bancos europeus circulam todo o tipo de ativos tóxicos, desde os da crise do subprime até bônus de dívida de países da periferia e ativos derivados desses bônus. Em resposta a esta situação foi decidido numa das conferências que os bancos que atuam dentro da União Europeia teriam que ter um capital “real” de no mínimo 9% do total até junho de 2012. No caso de tal não acontecer os bancos podem ser recapitalizados diretamente pelos Estados ou pelo fundo de resgate Europeu, ou seja, por dinheiro público.

Alguns poderiam dizer que é fundamental que os bancos tenham liquidez, dinheiro, para que possam emprestar e fazer a economia funcionar. Ledo engano. Pese toda essa verdadeira enxurrada de euros, os bancos simplesmente continuaram a conter os empréstimos. Por quê? Por que dava mais lucro pegar dinheiro a 1% e comprar títulos espanhóis e italianos que pagam entre 3 a 4%. Entre novembro e fevereiro os bancos espanhóis e italianos adicionaram aos seus cofres 270 bilhões de bônus destes países. O parasitismo do sistema bancário não conhece limites.

Essa é, no entanto apenas uma das faces do que está acontecendo no alto mundo das finanças europeias. O resgate grego, em sua segunda versão também merece alguma atenção.

A Grécia, que sofre uma espécie de lepra do mundo financeiro atual, conseguiu uma “ajuda” bilionária a sua combalida economia. Nada menos que um empréstimo de 130 bilhões de euros e um perdão forçado, das entidades privadas detentoras de bônus, de outros 100 bilhões de sua divida. No entanto, a “ajuda” não vem de graça. Longe disso. As exigências para os gregos são terríveis: um corte de 11 bilhões e 5 milhões de euros em seu orçamento. Destes, 6,3 bilhões sairão dos gastos sociais, 3,2 bilhões de salários de funcionários públicos e 2,1 bilhões dos subsídios assistenciais. A execução deste plano draconiano vai ser garantida pela presença de uma equipa de funcionários da Comissão Europeia, oficializando assim a perda de soberania Grega e a sua recolonização. Se for cumprido o esmagamento do que resta do estado social grego os 130 bilhões são liberados… para os bancos. Ou seja, o dinheiro que vem da União Europeia e FMI irá quase exclusivamente para os grandes bancos.

O perdão de 100 bilhões, outro aparente ótimo negocio para a Grécia foi, na verdade, um grande negócio para os credores. Os títulos gregos já se encontravam desvalorizados no mercado e eram absolutamente impagáveis em seus valores declarados, o seu ajuste na verdade deu nova vida a um monte de papel podre.

De toda forma, e depois de seu segundo “resgate” a Grécia segue em perigo, na opinião de Jean-Claude Juncker, presidente do eurogrupo, não se descarta que será necessário um terceiro resgate. A lógica é simples: corte de gastos, arrocho salarial e desemprego, dificultam ainda mais uma reanimação econômica e levam a que o país afunde ainda mais.

No final das contas, a principal preocupação do bloco europeu é garantir que não haja uma suspensão desordenada do pagamento da dívida grega. O que a burguesia financeira quer garantir é que ordenadamente se saqueie tudo o que é possível da Grécia, antes que a mesma abandone a moeda comum.

A intervenção alemã sob a bandeira do Euro
Apesar de a Grécia ser cada vez mais uma semi-colônia do capital financeiro alemão, isso não impede que a ajuda a Grécia gerasse dissabores na Alemanha, em especial para a nada simpática Ângela Merkel.

A chanceler alemã perdeu nada menos que 26 dos deputados da coalizão governante diante da polêmica ajuda a Grécia. Sob a bandeira de impedir uma quebra desordenada da Grécia (ou seja, se for ordenada pelo capital alemão tudo bem) a chefe de governo enfrentou serias resistência a seguir ajudando ao governo grego.

O problema é de fundo e bastante ambíguo. Uma quebradeira geral e “desordenada” da Grécia poderá arrastar todo o sistema bancário europeu, inclusive o alemão, e também o estadunidense. Salvar o sistema bancário é, portanto prioritário. Mas, como quando a discussão é sobre quem paga a conta sempre surge alguma divergência, os alemães começam a se perguntar se não estão gastando muito do próprio dinheiro para o salvamento do país helênico.

A estratégia de Merkel é clara, arrancar o máximo possível do país antes de lhe abandonar. Seus pares e opositores tem dúvida de se esse momento já não chegou.

Estado Espanhol: mais 200 bilhões para os bancos, menos 10 bilhões para a saúde e educação

O Estado Espanhol tem sido o último na mira dos mercados com os bônus da dívida a superar os 6%, demonstrando que a enxurrada de dinheiro do BCE não só não resolveu o problema como o fôlego que permitiu foi mais curto do que o que se esperava.
Apesar da gigante bolha imobiliária espanhola nenhum banco espanhol faliu na primeira onda da crise em 2008-2009. Nessa altura, à semelhança de outros, o governo Espanhol injetou bilhões de euros em bancos que se arriscavam a ir à falência. Essa fuga para frente permitiu que uma grande quantidade de papéis sem qualquer valor se mantivesse nos cofres bancários. Segundo o El País, em dezembro do ano passado, calculava-se que a banca espanhola estivesse recheada de 170 bilhões de euros de ativos tóxicos. Já no início deste ano o governo exigiu que a banca espanhola aumentasse o seu capital “real” em 50 bilhões de euros para alcançar o objetivo de 9% delineado pela comissão europeia. No entanto um estudo da UBS calculava que para chegar a esse objetivo a banca teria que obter 100 bilhões.

Mas a crise da banca não termina por aqui, apesar da crise imobiliária até agora os preços da habitação não tinham baixado muito. Com o aumento do desemprego prevê-se que muitos empréstimos deixem de ser pagos e que o valor das habitações despenque aumentando ainda mais a escassez de capital. E nem os 200 bilhões captados da mega-injeção de capital do BCE resolveram o problema, temendo-se agora que o Estado Espanhol vá mais uma vez recorrer a dinheiro público para salvar a burguesia financeira. Só que ao contrário de 2009, desta vez o próprio Estado está sobre-endividado pelo que poderá ter que recorrer ao fundo de resgate europeu.

Ainda que não haja nenhum interesse especial na quebra do Estado Espanhol, que é a quarta economia da zona euro, e as consequências de tal evento poderiam ser drásticas. Não é menos verdade que a burguesia alemã não vai poupar os trabalhadores deste Estado de arcar com os custos da crise. Associado a cortes nos direitos trabalhistas que tornam mais fácil e barato despedir, o governo Rajoy, a mando da UE, anunciou um corte de € 37 bilhões no seu orçamento, dos quais € 10 bilhões, quase 30%, serão na saúde e educação.

Quando os de baixo se movem
A última noticia sobre a situação grega, desde a perspectiva dos de baixo, é que um grupo de mais de 800 pessoas na cidade portuária de Volos criou uma moeda alternativa com o nome de TEM.

Aqui o importante, obviamente, não é a viabilidade ou não da moeda criada. O que sim importa é ver que esta surgindo por baixo, e de forma ainda desarticulada, iniciativas populares de poder que vão assumindo as funções do Estado.
Em outro ponto do país, em fevereiro, os trabalhadores de saúde em Kilkis, Grécia, ocuparam o hospital local e fizeram uma declaração dizendo que está agora totalmente sob controle dos trabalhadores.

Em outra frente de atuação centenas de funcionários públicos ocuparam diversos ministérios, em protesto contra os planos do governo de cortar, até 2015, entre 150 mil e 200 mil empregos públicos para reduzir o déficit das contas estatais.
Os empregados ocuparam em Atenas os ministérios de Agricultura, Saúde, Finanças, Cultura e Justiça, enquanto estudantes entraram no Ministério de Ensino para protestar contra as reformas educacionais.

Por outro lado, surgiu um movimento nacional “Não Vamos Pagar”, quando gregos se negaram a pagar pedágios e outras tarifas de acesso a bens públicos. A polícia e outros se negaram a forçá-los a pagar.

Junto com isso, ou precedendo a isso, uma onda de greves gerais e parciais na Grécia, tem, mais de uma vez, colocado claramente o problema de que quem governa o país definitivamente não esta em consonância com a maioria da população.
A Espanha, com a greve geral do 29 de março, não só entrou no cataclismático processo de mobilização que tem atingido a periferia europeia, como a classe operária entrou em grande estilo.

Dona de dados sociais parecidos com o grego, com um desemprego médio superior a 20% e que na juventude alcança a cifra absurda de 50%, e de uma tradição de lutas operárias impressionantes. Apenas para dar alguns dados do que significou a greve geral espanhola, a energia elétrica teve uma queda em 21% de seu consumo, porque as indústria simplesmente não funcionaram.

Por volta de 95% dos trabalhadores industriais aderiram à greve, houve marchas multitudinárias em várias partes do país. Em Madrid, 170 mil e em Barcelona 275 mil.
À cabeça dessas mega-mobilizações estiveram a CCOO e a UGT, e mais uma série de pequenos e médios sindicatos e centrais.O reformismo social democrata e estalinista ainda está na cabeça das mobilizações.

Indiscutivelmente a maioria daqueles que lutam neste momento na Europa ainda seguem à social-democracia, e agora sua ala esquerda anticapitalista, e o estalinismo.
Não por acaso, a Grécia, onde a situação é mais avançada, seja pela deterioração da situação econômica, seja pela radicalização das massas, o PC tem sido o grande dirigente das ações de rua e, uma plêiade de organizações “anticapitalistas” tem surgido na vaga do desmoronamento da social democracia grega que ajudou até agora a aplicar os planos de colonização.

Em Portugal as principais direções dos trabalhadores são a CGTP, o PCP (partido estalinista que controla a primeira), e o partido anticapitalista (cada vez mais social-democrata) Bloco de Esquerda. Pela via parlamentar ou diretamente pelos sindicatos e organizações de trabalhadores estas direções têm feito de tudo para travar as lutas contra o governo e a troika. No ano passado a única solução que deram aos jovens precários e trabalhadores que se manifestaram massivamente no 12 Março foi a ida às urnas no dia 5 de Junho e recusam-se permanentemente a fazer uma unidade de esquerda (junto com outros partidos e setores à esquerda do PS) que seja uma alternativa de governo para os trabalhadores.

Na Espanha CCOO e UGT são força burocráticas que, mal terminada as manifestações, deram uma trégua até 1° de maio para o governo começar a negociar.
É obvio que nenhuma destas forças políticas querem tomar o poder, mas é necessário que se exija dela que o façam.

Um governo dos PCs, PSs e anticapitalistas, sem patrões, apoiado nas mobilizações populares e seus organismos de massas, não apenas é possível na Europa da crise, senão que é necessário para levar adiante um programa de ruptura com a troika, em defesas das conquistas sociais dos trabalhadores e da população.