Cordel anti-homofóbico já nasce polêmico

No dia 29 de agosto, diversos ativistas da Conlutas e militantes compareceram ao Bar Odara, no Largo do Arouche, para participar do lançamento de mais um cordel escrito por Nando Poeta e Varneci Nascimento. Nando é um companheiro bastante querido por todos nós e, principalmente, por aqueles que apreciam a importância de encontrar formas poéticas para falar sobre as coisas e o mundo pelos quais lutamos. O que, no caso dele, sempre vem acompanhado com um delicioso sotaque nordestino, feito sob medida para desfiar as riquezas do cordel.

Em São Paulo, diga-se de passagem, já se tornou quase uma tradição acompanhar um sarau organizado pelo companheiro em torno de datas importantes para os que lutam pelo socialismo. Foi assim no 8 de Março e no 1° de Maio. Também já é uma grata satisfação conhecer sempre novos amigos cordelistas e poetas, com os quais Nando mantém um criativo diálogo.

Fruto desde diálogo, o cordel que foi lançado no dia 29 foi escrito com um outro talentoso cordelista, Varneci Nascimento, que compartilha com Nando o interesse pelos temas históricos em seus 200 cordéis já publicados.

Cabe ressaltar que, de certa forma, a data, a escolha do local e o próprio tema também foram fruto de um tipo de parceira fundamental para todos aqueles que sonham com um mundo melhor: a unidade e solidariedade entre todos os oprimidos pela discriminação e explorados pelo sistema.

Dia 29 foi o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Por isso, nada melhor do que escolher o Odara, um bar atualmente administrado por lésbicas, no Largo do Arouche, um ponto histórico da comunidade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros, GLBT, de São Paulo, para lançar o cordel Homossexualidade: história e luta.

Celebração da poesia e da luta
O evento foi modesto, mas tão animado quanto importante. Cerca de três dezenas de companheiros e companheiras, de vários setores – como trabalhadores dos Correios, estudantes, professores e ativistas do movimento – circulavam pelo mezanino reservado no Odara.

O lançamento foi breve, mas serviu como digna homenagem não só à luta das mulheres lésbicas como para todos os GLBT que lutam contra a discriminação e o preconceito, cotidianamente.

Apesar de não ser muito comum no jornalismo, mas até mesmo porque esta matéria terá de tocar em temas referentes à imprensa, vou sair de minha “persona” de jornalista para narrar em primeira pessoa parte do lançamento, já que tive o prazer de ter sido convidado, também para cumprir este papel.

Falando em nome da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, e como um dos orgulhosos fundadores de nossa Secretaria GLBT, saudei, em primeiro lugar, a iniciativa dos companheiros. Não só por terem tido a ideia de conceber o cordel, mas também pelo cuidado que tiveram em consultar ativistas e militantes GLBTs, preocupados em não incorrer em algum equívoco.

Também foi destacada a importância de usar uma arte tão popular e capaz de atingir a tantos como veículo para se fazer este debate. Como também, a enorme importância de termos, a partir daquele dia, um cordel lindo e politicamente forte contando aspectos de nossa vida, nossa história e nossa luta.

Um belo poema de luta, que também é ótimo exemplo da solidariedade necessária entre os explorados e oprimidos, entre os professores héteros, ali presentes com suas famílias, companheiros e amigos, colocando sua arte a serviço de seus amigos e companheiros homossexuais.

Antes de lerem parte da obra para selar o lançamento, Varneci e Nando falaram um pouco sobre o processo que deu origem ao cordel. Destacaram a importância desta troca de ideias, não só entre os dois, mas com os demais interlocutores que tiveram para poderem compor algo que respeitasse o ponto de vista dos homossexuais e do movimento e, obviamente, falaram sobre cordel, lendo suas primeiras estrofes:

Queremos nesse assunto
Mergulhar profundamente
Pra mostrar uma estatística
Que muda diariamente,
A horrenda homofobia
Crescendo mundialmente.

Por isso, nesse cordel
Vamos por em evidência:
Que quem curte o mesmo sexo,
Ou pra isso tem tendência,
Foi sempre desrespeitado
E vítima da violência.

Na repercussão não faltou homofobia
Em sua fala, Varneci também destacou algo que o estava incomodando desde que concedera uma entrevista na tarde de sábado, para um blog do site Terra. Varneci lembrou que “a importância de fazermos cordéis como este pode ser exemplificada por algo que aconteceu comigo naquela entrevista. O repórter perguntou se eu e Nando éramos gays, eu disse que não e expliquei o por que tínhamos escrito o cordel e, inclusive, como eu tinha consultado gays e lésbicas e tudo mais. Sabe o que saiu publicado? Depois de fazer um comentário supostamente malicioso sobre a pergunta ‘inevitável´, o autor do blog afirma que eu me ‘esquivei´ da resposta. Isto é uma demonstração do preconceito que ainda paira na sociedade e influencia até a edição e distorção de coisas que dissemos”.

A matéria, aliás, não limitou suas distorções a esta insinuação maliciosa e desnecessária, por parte de alguém que não entende que a solidariedade pode ser construída. Sua abordagem deve ter estimulado a série de comentários homofóbicos ainda menos sutis que surgiram no blog. Visite e, certamente, você vai querer comentar.

Para ser ter uma ideia do real, atual e assustador nível com a que praga da homofobia se alastra, basta citar que, nas quase 20 mensagens já postadas, o termo “aberração” apareceu algumas vezes. Um dos signatários afirma: “sim deve ser bom ser gay (…) como também deve ser muito bom ser viciado em crack (…) os gays lutam pelo direito de acabar com a ética, caráter e a família (…) sim matar pessoas também dever ser muito bom (…)”.

Felizmente, também surgiram comentários elogiosos sobre o trabalho dos dois cordelistas. Os aplausos no lançamento repercutiram numa simpática mensagem enviada por Luiz Mott, um dos mais antigos dirigentes no movimento GLBT brasileiro, cujos dados são mencionados em parte do texto e em vários cumprimentos deixados na página.

Certamente, os elogios são justos. Iniciativas como as de Nando e Varneci são provas de que a arte, quando é independente (principalmente da ideologia dominante e sua mediocridade) é uma aliada para todas as lutas.