Congresso de cartas marcadas reafirma governismo da UNE

Luis Marinho, da CUT, e Gustavo Petta, da UNE, em marcha governista
Walter Campanato / Ag. Brasil

Entidade promove a defasa vergonhosa do governo do ‘mensalão´. Já a esquerda do PT e o P-SOL cumpriram um lamentável papelãoEntre os dias 29 de junho e 3 de julho aconteceu em Goiânia (GO) o 490 Congresso da UNE (Conune). O evento contou aproximadamente com 15 mil participantes, entre eles 4.603 delegados.

Para quem tinha alguma dúvida sobre os rumos da entidade, agora está mais do que claro: a UNE passou de vez, de malas e bagagens para o lado do governo do mensalão e de suas reformas neoliberais.

O clima de “golpismo da direita” contra um suposto governo de esquerda tomou conta de todo o Conune. O PCdoB/UJS, partido hegemônico na entidade, insistiu nessa tese infundada como uma única forma de desviar a atenção dos estudantes dos escândalos de corrupção da alta cúpula do governo. O surpreendente foi ver que até mesmo os setores da chamada “esquerda petista” como a Articulação de Esquerda (AE) e a Ação Popular Socialista (APS) engrossaram essa política. Afinal de contas, todas essas correntes fazem parte ou defendem o governo do mensalão.

Ato governista
Como se não bastasse, no dia 10 de julho, o congresso foi palco de uma manifestação encabeçada por UNE, CUT e MST contra o que chamavam de “desestabilização” do governo Lula. O ato, muito aquém do esperado, não conseguiu mobilizar os estudantes. Essa foi a terceira tentativa de mobilizar os estudantes em defesa do governo, após a fracassada tentativa de promover um dia de paralisação em defesa da reforma Universitária em abril e na também fracassada Caravana junto ao MEC e às reitorias. A UNE, apesar dos números inflados, dá mais esse vexame.

A burocratização, a falta de democracia e a despolitização do congresso não foram mais do que uma política acessória do PCdoB e do PT diante das posições de apoio à reforma Universitária, que vai privatizar as universidades públicas, salvar os empresários da educação e permitir a entrada de capital estrangeiro no Ensino Superior.

Apoio à reforma
O Congresso aprovou, por ampla maioria, a proposta privatizante de reforma Universitária do governo Lula. Como afirma o texto aprovado, “A segunda versão do Anteprojeto de reforma da educação do MEC, mesmo recuando em relação a pontos importantes (…) garante importantes conquistas para o ensino superior público em pontos como autonomia e financiamento”.

Na verdade, sabemos que a autonomia e o financiamento referem-se tão-somente à desobrigação do Estado de financiar a Educação e à busca de recursos junto à iniciativa privada. Ou seja, o que para a UNE são importantes conquistas, pode significar mais à frente o fim da gratuidade da universidade pública.

Lamentável papel da esquerda
Nos meses que antecederam o congresso, as correntes da esquerda da UNE, sobretudo o P-SOL, AE e APS, semearam ilusões entre os estudantes, alegando que era possível interromper o curso governista da UNE, colocando-a na luta contra a reforma. Centenas de delegados foram eleitos com base nessa promessa, tendo uma grande decepção. A realidade provou que o caminho traçado pela UNE não tem mais volta.
A votação para a nova diretoria da entidade desmentiu esse argumento, aumentando ainda mais o espaço da UJS e da direita e diminuindo drasticamente a influência da esquerda na UNE.

A chapa encabeçada pela UJS, que reuniu também Articulação e Tendência Marxista (PT), MR8 (PMDB) e o PSB obteve 2.496 dos votos. E muito atrás, ficou a “esquerda” petista, na chapa da AE e APS, com 517 votos. A Democracia Socialista (DS), do PT, que saiu junto com a corrente Movimento PT, ficou com 217. Só em quarto lugar aparece o P-SOL e seu mais novo aliado, o Partido Comunista Revolucionário (PCR), com apenas 217 votos.

Ataques à Conlute
A esquerda da UNE, além de legitimar esse congresso governista de cartas marcadas, votou uma resolução que ataca a Conlute. Os companheiros, principalmente do P-SOL, parecem não ter memória. Todas as lutas de 2004 contra a reforma, como as marchas à Brasília e a Plenária do dia 12 de setembro, foram tocadas em unidade com a Conlute.

Dessa forma, o P-SOL prefere ficar ao lado dos setores governistas e elegem a Conlute como seu principal inimigo, abrindo uma avenida para a aprovação da reforma Universitária.

Todos a Brasília dia 17 de agosto!
Permanecer nos marcos da UNE é gastar energia numa luta estéril e inglória. O PCdoB optou pela unidade com o governo em detrimento da luta dos estudantes. Diante desse cenário, dezenas de entidades e milhares de ativistas estão rompendo com a UNE. Trata-se de um processo histórico que tende a se aprofundar após o Conune. O congresso serviu ao menos para demonstrar a completa impossibilidade de se retomar a entidade para a luta. A UNE, que protagonizou a campanha “O Petróleo é Nosso” na década de 50 e lutou contra a ditadura militar, não existe mais.

Não temos tempo a perder. Temos agora um novo desafio pela frente. Dia 17 de agosto, a Conlute, a Conlutas e demais setores dos movimentos sociais farão uma grande marcha à Brasília contra a corrupção do governo Lula e suas reformas neoliberais. Nesse momento em que o governo vive a sua maior crise política, seria um crime não unificar os mais diferentes movimentos em torno dessa mobilização. Por isso, convocamos o P-SOL e a esquerda petista a engrossar esse ato para derrotar o governo do mensalão.