Congresso da Conlutas mostra que marxismo continua mais vivo do que nunca

Valério Arcary fala aos participantes do congresso
Kit Gaion

“A atualidade do marxismo e da revolução socialista”, este foi o tema do painel que lotou o plenário do I Congresso da Conlutas na noite de 4 de julho. Mesmo após um dia de intensos debates, milhares de delegados e ativistas assistiram ao debate que reuniu o teórico marxista suíço Charles-André Udry, o sociólogo da Unicamp Ricardo Antunes e Valério Arcary, dirigente do PSTU e professor do Cefet.

Valério Arcary
O historiador Valério Arcary reafirmou a importância do manifesto comunista, elaborado há 160 anos. “Provavelmente, foi o livro que mais influenciou o destino da humanidade”, disse. Segundo ele, “as idéias expressas estavam hoje fervilhando nos grupos de discussão”. A primeira seria a constatação de que a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores. “Não há força maior que a classe operária organizada”, afirmou. Ele relembra o sacrifício dos militantes mortos na ditadura militar do Brasil, mas salienta que o fim da ditadura foi obra dos trabalhadores. “Seus sacrifícios não foram em vão e nos enchem o coração de orgulho, mas quem destruiu a ditadura foi a classe operária”, afirmou.

A segunda idéia é de que nada pode ser conquistado sem luta. Já que é a ganância pela acumulação a todo custo que orienta o capitalismo, os trabalhadores têm de lutar contra ele. Ao mesmo tempo, a luta pelas reivindicações imediata é limitada. “O manifesto já dizia, não há saída para a classe trabalhadora se ele não lutar pelo poder”, afirma. “A luta por salário é efêmera, ilusória, ou se luta pelo socialismo, ou os trabalhadores sucumbirão”.

Terceira idéia: a luta dos trabalhadores é internacional. Na Europa, ocorre um processo de américa-latinização da classe trabalhadora. Já na América Latina, querem impor um grau de exploração similar à China. Por último, Arcary cita a busca pela unidade, expressa na última frase do manifesto: “trabalhadores de todos os países: uni-vos”. Tal unidade, salienta, deve ser construída com democracia e tolerância.

Poucos dias depois do anúncio da ruptura do MTL/MES com a Conlutas, Arcary citou a importância de se saber atuar em minoria em nome da unidade. “Democracia também significa saber ser minoria, e um dos principais problemas nossos é justamente esse, como encontrar o caminho da unidade”. Como exemplo, ele cita o próprio Marx, que nunca teve medo de atuar em minoria.

Por fim, Arcary lembrou também dos 70 anos da IV Internacional. Num dos discursos mais emocionantes do congresso, Arcary relembrou os principais fatos que marcaram a corrente fundada por Trotsky. “Nenhuma corrente foi tão perseguida quanto os trotskistas”, disse. “Isso não impediu, no entanto, sua atuação na grande greve da Renault em 1948, na teses de Pulacayo durante a revolução boliviana, foram também trotskystas que combateram nas ruas de Paris e Praga durante o maio de 68”, lembrou, sob os efusivos aplausos do plenário.

“Peço perdão àqueles que não pertencem a essa tradição, mas entendam nosso orgulho: foram 70 anos de perseguição e luta”, disse emocionado, fazendo explodir o plenário numa grande onda vermelha. “Me parece, me parece, que o socialismo cresce, na luta!”, gritaram em coro os ativistas no plenário.

Atualidade do marxismo
Um dos poucos mandelistas que ainda permanecem no marco da esquerda revolucionária, Udry lembrou que Marx já havia previsto o fenômeno da mundialização do capitalismo. “A burguesia apresenta a mundialização capitalista como algo eterno. Mas nós achamos o contrário, ela nos indica a possibilidade, não a certeza, do fim do capitalismo”, afirmou o teórico.

Udry explica que a mundialização do capital é possível por vários fatores. O controle sobre a força de trabalho é um deles. “Isso é, utilizar o desemprego, organizar a repressão de muitas maneiras diferentes”, explica. Outro mecanismo para impor esse processo de mundialização é a cooptação das lideranças sindicais tradicionais, “como ocorre com a CUT no Brasil, na Gmetal da Alemanha e o conjunto das organizações históricas tradicionais da classe trabalhadora”.

Para o teórico, a concentração econômica, que se desdobra também em concentração do poder político e social, permite ditar a política econômica aos governos. Para que todos esses fatores funcionem a favor do capital é necessário, aponta Udry, que “um regime político imponha a ordem”. Ele explica que, por isso, os salários de juízes no Brasil são maiores que os dos países desenvolvidos. “Militares, juízes, polícia, são expressão do despotismo da ditadura burguesa”, explica.

A fim de enfrentar a mundialização do capital e seus efeitos, Udry coloca a necessidade de atacar a propriedade privada. “Marx escreveu o manifesto pouco antes da insurreição popular na França em 1848 e nele colocou em xeque a propriedade privada. A esquerda hoje pouco fala sobre a propriedade privada”, reclamou. Ele afirma ainda que se formou um tripé entre direções sindicais cooptadas, governo e os patrões. “É preciso colocar na ordem do dia a reapropriação social da riqueza”, afirma.

O teórico suíço falou, ainda, sobre a importância de dar um caráter internacionalista à contra o capital, unindo trabalhadores formais e informais. “O que querem os trabalhadores informais? Vender mercadorias, na sua maioria, importada da China, onde os trabalhadores são superexplorados. Precisava era de uma Conlutas na China”, afirmou, sendo intensamente aplaudido pelo plenário. Ele aponta também a necessidade de se internacionalizar experiências como a Intersindical e a Conlutas.

“Isso depende de convicções individuais, pela batalha pelo futuro da humanidade e do planeta, um futuro comunista”, finalizou sob os aplausos do plenário, que cantava: “Brasil, Colômbia, América Central, a luta socialista é internacional”.

Organizar também os setores informais
O sociólogo Ricardo Antunes, apoiador da Conlutas desde o início de sua organização, iniciou sua fala apontando o fato de a Coordenação Nacional de Lutas ser uma das poucas entidades que fazem um debate desse tipo. “Prova de que já começou diferente”, salienta.

Antunes denunciou a lógica destrutiva do capitalismo. Um sistema de produção que “destrói a natureza e a humanidade, cujo último período está levando a guerras e a exploração a um grau semelhante ao da revolução industrial no século XVIII. Que sentido tem trabalhar 10, 12, 14 horas por dia para fabricar bombas?”, pergunta.

Ao mesmo tempo, porém, que o grau de ataques cresce, a luta dos trabalhadores também ressurge em todo o mundo. “Os anos 80 foram a década da letargia, os 90 do desencanto, mas o século XXI começa com um signo rebelde”, declara, lembrando das mobilizações presentes no Fórum Social Mundial, Seattle, Gênova, e a explosão das lutas sociais na América Latina. E a volta do protagonismo da classe operária.

“Quiseram nos convencer de que a classe trabalhadora terminou. Hoje todos os livros que diziam isso foram para a lata do lixo”, afirma o sociólogo. Ele salientou a lógica das empresas de estimular a concorrência entre a classe, jogando trabalhadores uns contra os outros.

Diante disso, segundo Antunes, torna-se necessário o resgate do sentimento classista. Algo que a CUT já abandonou. “Não havia uma greve que a CUT não estivesse dirigindo ou apoiando. Hoje ocorre exatamente o contrário”, afirma. Antunes coloca a necessidade, então, de se organizar os trabalhadores do setor formal e informal e também a construção de uma alternativa independente e de luta. “A fundação da Conlutas foi um acerto, mas é preciso agora realizar um chamado à Intersindical, o segundo pólo de organização dos trabalhadores, a fim de construir uma central de luta”.

Estrategicamente, Antunes coloca a importância da luta contra o trabalho assalariado e a propriedade privada, salientando também que só é possível travar uma luta ecológica sendo anticapitalista. “Tenham a coragem de travar uma luta contra a propriedade privada”, conclamou. “Aqui estão os que, no século XXI, lutam pela humanidade”.