Como Putin ‘enfrenta os EUA’

No meio de julho, em Helsinque (Finlândia), Putin se reuniu com Trump. O encontro terminou com uma coletiva de imprensa muito interessante, por mostrar abertamente uma vez mais todo o “antiamericanismo” do assim chamado “Líder Nacional” russo.

A propaganda pró-Putin insiste em tentar convencer a todos que a Rússia defende a Síria da “intervenção americana para derrubar um regime que não é do seu agrado”. Mas na verdade, durante a coletiva, Putin contou sobre sua colaboração com o imperialismo americano e que “os militares russos e americanos adquiriram uma experiência muito útil de interação e coordenação, construíram canais de ligação operativos…”. Ou seja, apesar de toda a teoria da conspiração propagandeada pelo regime de Putin, a verdade é que as relações com os militares americanos vão muito bem, obrigado.

A propaganda putinista diz que a Rússia “defende a integridade territorial da Síria”. Mas já na coletiva Putin declarou: “A situação nas Colinas de Golã deve ser encaminhada em total concordância com o Acordo de 1974 sobre a retirada das tropas sírias e israelenses. Isso permitirá trazer tranquilidade às Colinas de Golã…, trazer segurança ao estado de Israel. O Sr. Presidente (Trump) dedicou especial atenção a este tema hoje. Quero declarar que a Rússia está interessada em que as coisas assim se desenrolem e defenderemos exatamente esta posição. Desta forma será dado um passo em direção à construção de uma paz justa e sólida na base da resolução 338 do Conselho de Segurança da ONU”. O fato é que o acordo impulsionado por Putin reforça “a paz justa e sólida” na base da manutenção da ocupação das Colinas de Golã por Israel, que já dura décadas. Putin defende a “integridade territorial síria” somente quando recusa aos curdos o seu direito legal à sua autodeterminação nacional. Mas quando o que está em jogo é a ocupação israelense do território sírio, Putin (assim como Assad), logo se calam. E não por acaso. O imperialismo (com o apoio de Stalin), através da limpeza étnica nazisionista da Palestina de seu povo original de raiz árabe, fundou em 1947 o estado de Israel como um posto avançado seu, armado até os dentes contra a revolução e a luta antiimperialista dos povos do Oriente Médio. Israel é um elemento-chave para o controle imperialista da região, por isso para os imperialismos americano e europeu, Israel é “sagrado”, e todos estão obrigados a protegê-lo e respeitá-lo, o que fazem todas as forças políticas pró-imperialistas, incluindo Putin e Assad. O imperialismo americano, como bem notou Putin, de fato “dedica especial atenção” à garantia de segurança do seu posto avançado, e nosso “Líder Nacional” se solidariza totalmente com estas aspirações.

Na coletiva de imprensa Putin pôde ainda expressar seu “enfrentamento com os EUA” ao redor da questão da Coreia do Norte. Como sabido, para garantir seu monopólio sobre as armas nucleares, o imperialismo americano, atraves de Trump, implementou um bloqueio econômico total sobre a Coreia do Norte, para asfixiá-la e obrigá-la a renunciar ao seu programa nuclear. Putin anteriormente já havia demonstrado seu apoio ao imperialismo americano nesta questão, votando no Conselho de Segurança da ONU a favor da resolução americana sobre o bloqueio da Coreia do Norte. Agora, durante a coletiva, comentou de forma impressionante que: “É muito bom que estejam começando a se resolver os problemas em torno à Península Coreana. Muito disso foi possível graças ao envolvimento pessoal do Presidente Trump para regular a questão, construindo um diálogo no marco da colaboração, e não do confronto”. Comentários aqui são desnecessários.

Putin, assim como a União Europeia, intervém contra a atual pressão americana sobre o Irã. Mas assim como a UE, no caso da retirada de Trump do acordo nuclear com o Irã, Putin “defende” o Irã de forma muito peculiar. Na coletiva ele declarou que: “Afirmo que, graças ao acordo nuclear com o Irã, este se tornou o país mais controlado do mundo pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica)”. Ou seja, Putin vê como uma grande conquista o controle do imperialismo sobre o Irã.

Claro que Putin não deixou de tratar da economia, expressando seu desejo apaixonado de atrair à Rússia “investidores estrangeiros”. Ele declarou: “Especial atenção dedicamos à economia. Há sem dúvida interesse na colaboração da parte das comunidades de negócios dos dois países. A delegação de homens de negócios americana foi uma das maiores a participar do Fórum Econômico de São Petersburgo em maio, com mais de 500 representantes da comunidade de negócios dos EUA. Para cooperar pelo desenvolvimento do comércio e investimentos mútuos, eu e o Presidente Trump definimos a criação de uma comissão de alto nível, que reúna os capitães dos negócios americanos e russos”. De fato, declara-se nada menos que um comitê conjunto dos oligarcas russos e magnatas financeiros americanos para tratar da Rússia. Essa ideia está em total consonância com o processo de colonização da Rússia pelo capital ocidental, levada adiante por Putin. E o “Líder Nacional” ainda completou: “Há pouco tempo visitou a Rússia uma delegação de congressistas americanos, o que foi encarado quase que como um acontecimento histórico. Pois deve se tornar algo corriqueiro, ordinário”. Ou seja, todo este processo de colonização deve tornar-se “corriqueiro e ordinário”.

A isso se resume todo o “antiamericanismo” de Putin. Apesar de todas as contradições (que, diga-se de passagem, Putin e Trump não conseguiram resolver no encontro), não se pode falar de nenhum “enfrentamento entre Putin e os EUA” nem sobre a “defesa” de alguém ou de algo do imperialismo americano. Nem dentro da Rússia, nem na arena mundial. Putin busca somente uma melhor colocação dentro do sistema de saque imperialista global. Saque em primeiro lugar do próprio país pela união dos oligarcas russos e o capital internacional, com o apoio do fiel defensor deste saque, o regime oligárquico-KGB* de Putin. Com seus atos, Putin não se cansa de desmascarar a sua própria propaganda de “enfrentamento com os EUA”. E mais e mais energia ele tem que gastar para empurrar goela abaixo dos trabalhadores esta falsa propaganda, alimentando o chauvinismo contra a Ucrânia e outros povos, para poder disfarçar seus pacotes de maldades contra o povo, como o aumento da idade para aposentadoria, entrega dos recursos naturais do país, entrega do país ao capital internacional, guerras criminosas contra as revoluções na Ucrânia e na Síria. Os trabalhadores não devem ter nenhuma confiança neste governo pró-imperialista, oligárquico e da KGB*.

*No original FSB, o atual nome da antiga KGB, de cujas fileiras veio o próprio Putin.