Como Lula mantém a farsa do ‘pai dos pobres´

As últimas pesquisas indicam que Lula pode ganhar as eleições de outubro no primeiro turno. Muitos se perguntam como é possível, após a enorme crise política do ano passado, Lula conseguir tal façanha. A maioria dos trabalhadores ainda pretende votar em Lula por acreditar que ele, apesar da corrupção, é melhor que Alckmin, do PSDB.
Na verdade, Lula e Alckmin defendem o mesmo programa, mas os trabalhadores ainda não enxergam isso. Esta falsa consciência está apoiada em três mentiras: a ilusão de que Lula governa para os pobres, o medo da “volta da direita” e o apoio de direções atreladas ao governo (como a CUT e a UNE), que se apresentam como “combativas”.

PRIMEIRA MENTIRA:
Lula ‘governa para os pobres’

Essa é talvez a principal mentira em que se apóia o governo. Os trabalhadores se iludem por dois motivos principais: a origem do presidente e as pequenas concessões, como o Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo.
É verdade que Lula foi um operário. Mas hoje governa para os grandes empresários e banqueiros, não para os trabalhadores. Só nos três primeiros anos de seu governo, os cinco maiores bancos aumentaram em 28,4% seus lucros, em comparação com os dois mandatos de FHC.

O Brasil se transformou em um verdadeiro paraíso para os bancos, que têm aqui um lucro ainda maior que nos EUA. De acordo com a consultoria Austin Asis, o lucro médio dos bancos no Brasil é superior a 26% ao ano, enquanto nos EUA varia entre 10% e 15%. Isso porque Lula oferece aos banqueiros a maior taxa de juros do mundo.
Para garantir o pagamento dos juros aos banqueiros, Lula impôs um arrocho recorde nas contas públicas, retirando dinheiro da saúde e educação. O governo deixou de gastar 19,4 bilhões de reais, só no mês de abril, para garantir a economia de 4,25% do PIB no final do ano, e cumprir com folga a meta estabelecida com o FMI. Nenhum outro governo impôs um arrocho tão duro na história do país.

O Bolsa Família, uma das “provas” da preocupação de Lula com os pobres, custou ao governo no ano passado R$ 5,5 bilhões. Com esta verba, pagou entre 15 e 95 reais por mês a 8,7 milhões de famílias, perto de 35 milhões de pessoas.
Vejam a farsa: a principal demonstração da preocupação de Lula com os pobres custou 5,5 bilhões de reais. Só em 2006, o governo vai entregar aos banqueiros 272 bilhões de reais em pagamento dos juros das dívidas, quase 50 vezes o que gastou com os pobres.

A grande explicação para o Bolsa Família é que este é um dos principais cabos eleitorais de Lula, como se demonstra em todas as pesquisas. Uma delas indica que 56% das pessoas que avaliam o governo Lula como ótimo ou bom receberam ou conhecem alguém que recebe o Bolsa Família.

Lula repete, assim, uma das manobras mais antigas do populismo, com programas sociais compensatórios para garantir o voto dos setores mais carentes e atrasados da população, enquanto mantém uma política econômica que enriquece ainda mais os muitos ricos.

A outra grande “concessão”, o reajuste do salário mínimo, não resiste a qualquer análise séria. Para o miserável reajuste de 13%, Lula vai gastar a mais 5,6 bilhões de reais em 2006. Para assegurar o mínimo de 1.536 reais, definido pelo Dieese, seriam necessários 132 bilhões de reais, menos da metade do que será entregue por Lula em 2006 aos banqueiros.

O pior está por vir. Estas “concessões” feitas por Lula têm o claro objetivo de garantir sua reeleição. Uma vez reeleito, virá o ataque mais violento contra os trabalhadores já visto no país, sem exagero.

A ditadura militar impôs o fim da estabilidade no emprego. A democracia dos ricos, depois da queda da ditadura, garantiu a implantação do neoliberalismo, com toda sua carga de desemprego e arrocho salarial. O governo Lula, já no primeiro ano de seu mandato, impôs a reforma da Previdência, a maior perda de direitos do funcionalismo público desde a ditadura.

Nada disso se compara ao que já está anunciado por Lula. Seu novo governo tentará impor a reforma trabalhista, que pode ser a maior perda de direitos da história para os trabalhadores.

O Super Simples, projeto de lei do governo que já está no Congresso, anuncia o que será esta reforma. No projeto, dedicado aos trabalhadores das micros e pequenas empresas, o direito às férias e ao 13° salário é retirado. Além disso, se a empresa estiver “em dificuldades”, pode deixar de pagar os salários com regularidade mensal.
Este plano deve ser estendido ao conjunto dos trabalhadores do país, caso Lula seja reeleito. Em entrevista à revista britânica The Economist, principal informativo do mundo financeiro internacional, Lula colocou a reforma sindical e trabalhista como um de seus principais objetivos para o próximo ano.

SEGUNDA MENTIRA:
‘É preciso evitar a volta da direita’

Esse é outro alicerce da propaganda do governo. O PT alimenta o temor em relação a uma possível vitória de Alckmin e do bloco PSDB-PFL. Os trabalhadores e a juventude possuem uma justa insatisfação com a direita tradicional, pela experiência com o governo FHC. Como Lula foi operário, monta-se a farsa do defensor dos pobres contra os ricos, ou da esquerda contra a direita.

Que direita se evitaria com a vitória de Lula? É verdade que PSDB e PFL não voltariam ao governo, mas… Será que eles são os únicos representantes da direita neste país?

A direita é a representação política das grandes empresas, em particular do setor dominante do capital, as multinacionais e os grandes bancos. É inegável que PSDB e PFL foram os representantes destes setores. Mas hoje não são os únicos, nem os mais importantes. Uma das grandes apostas (a principal no momento) dos bancos e das multinacionais nas eleições de outubro é a reeleição de Lula.
Para os que duvidam, existem duas provas inegáveis. A primeira é o apoio de Bush a Lula, o maior representante das multinacionais do mundo. Esse apoio se demonstrou na crise política de 2005, em que o governo dos EUA enviou ao país Condoleezza Rice e John Snow para evitar que a oposição burguesa avançasse para a proposta de impeachment.

O imperialismo apóia Lula por motivos sólidos. Já em 2004, atendendo a um pedido direto de Washington, o presidente enviou um contingente de 1.200 soldados para ocupar o Haiti, após a deposição do presidente Aristide. O Brasil iniciou sua participação na ocupação chefiando a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti. A ONU renovou a ocupação por mais seis meses em fevereiro, estendendo indefinidamente a missão no Haiti.

A segunda prova é o apoio dos banqueiros. O PT é o partido que mais recebe financiamento dos bancos (7,9 bilhões de reais em 2004), mais até que o PSDB (4,3 bilhões de reais).

O governo Lula tem entre seus principais integrantes representantes diretos da direita, como o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, funcionário do BankBoston. Ou ainda os ministros Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento e da Sadia) e Roberto Rodrigues (Agricultura e representante das grandes empresas agropecuárias de exportação).

Na sua base de apoio parlamentar, tem representantes ainda mais clássicos da direita no país, como o PP (que tem origem na Arena, antigo partido da ditadura militar) de Paulo Maluf e Delfim Netto.

O governo Lula é também um governo de direita, não de esquerda. Neste momento, com a crise do PSDB e do PFL, é a principal aposta da direita no país.
Por esse motivo, “evitar a direita” é uma boa proposta, mas significa não apoiar nem Lula, nem Alckmin.

TERCEIRA MENTIRA:
O apoio das direções governistas,que se apresentam como ‘combativas’

A atual conjuntura de relativa estabilidade econômica, por si só, não explica a ausência de grandes lutas unificadas contra o governo Lula. A calma das ruas tampouco é fruto da suposta cordialidade do povo brasileiro ou do fato de Lula ter sua origem na classe operária.

O que impede os trabalhadores e demais setores explorados de ir à luta contra o governo e sua política neoliberal é o apoio das direções da CUT e da UNE a Lula. Elas representam um verdadeiro dique que contém as mobilizações, impedindo as lutas e sua unificação. Essas direções se apresentam como “combativas”, se aproveitando do seu passado de lutas para conseguir bloquear todas as mobilizações que possam se chocar com o governo.

Se, antes da posse do governo do PT, a CUT já freava as lutas e as desviava para o terreno eleitoral, agora (com a central ocupando cargos no Estado) a entidade passou a viver em função de manter a estabilidade e o seu próprio status. Luiz Marinho, que foi presidente da CUT, hoje é ministro do Trabalho.

O dinheiro que o governo envia para a CUT e a UNE triplicou durante entre 2003 e 2005. Repasses e convênios garantiram à CUT nada menos que 31,5 milhões de reais dos cofres públicos nesse período. A UNE abocanhou mais de 2 milhões de reais, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira, que registra os gastos do Orçamento da União.

O governo Lula serve claramente às grandes empresas agropecuárias, e mantém paralisados os planos de reforma agrária. Não existe nenhum avanço neste terreno, em relação ao período de FHC. No entanto, infelizmente, o MST segue apoiando Lula e já se empenha em sua reeleição. Nos três primeiros anos de mandato de Lula, entidades ligadas ao MST receberam verbas públicas.

O atrelamento dessas direções atingiu tal ponto que, em agosto de 2005, no meio da crise política, a Conlutas fez o maior ato de protesto em Brasília contra o governo, com 12 mil manifestantes. CUT, UNE e MST marcaram uma manifestação, um dia antes, em defesa de Lula. O fiasco do ato chapa branca (que reuniu 5 mil pessoas) expressou o momento de decadência política destas organizações.

Hoje os metalúrgicos da General Motors e da Volkswagen se mobilizam contra os planos de demissões anunciados pelas fábricas, que receberam financiamentos do governo federal para bancar estes planos. Enquanto isso, a CUT anuncia a publicação de 360 mil revistas divulgando os supostos avanços do governo petista.

A ausência de grandes lutas contra o governo é causada por essas direções governistas do movimento de massas. A superação das mesmas é condição fundamental não apenas para que tais lutas avancem, mas principalmente para combater a política neoliberal do governo Lula.

Post author Eduardo Almeida e Diego Cruz, da redação
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