Comitê do Carrefour: Existe antirracismo aliado da Casa Grande?

Shirley Raposo

Fogos nos racistas!

Boicote ao Carrefour!

Justiça para João Alberto!

Vidas negras importam!

As frases acima deram tom aos protestos nas últimas semanas nos movimentos espontâneos e nas redes sociais, após a morte por racismo de João Alberto em um supermercado do Carrefour em Porto Alegre. O espancamento e assassinato violento por dois seguranças brancos terceirizados da empresa Vector trazem à tona o debate não só do racismo violento – em plena véspera do dia da Consciência Negra – mas também, qual é a saída para o enfrentamento ao racismo.

A burguesia racista dona de multinacionais como o Carrefour quer calar a voz do movimento negro e impedir a radicalização das lutas. Para isso, tenta surfar na onda antirracista fazendo ações simbólicas que em nada resolvem as desigualdades e violências sofridas pelos negros e negras trabalhadores. E, infelizmente, assistimos ativistas e intelectuais que deveriam estar à frente das lutas se tornando aliados dos empresários e utilizando sua influência para limpar a imagem dessas empresas em nome de um suposto diálogo.

Na tentativa de se “retratar”, o Carrefour incluiu nos últimos dias em seu site uma atendente virtual negra, retirou o termo Black Friday substituindo pela expressão “ofertou”, divulgou que iria instalar um Comitê de diversidade e inclusão com membros do ativismo e intelectuais negros e que vai destinar R$ 25 milhões para um fundo de combate ao racismo.

O humorista Yuri Marçal também recebeu convite do Carrefour para uma publicidade e respondeu a empresa com um xingamento se negando a participar da ação.

 

Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales formaram um comitê que se propõe a pensar políticas antirracistas para a empresa. O fato é que não existe burguesia antirracista. Basta ver que os empresários sempre colocam seus lucros acima de defender a vida dos trabalhadores negros.

Vimos Silvio Almeida se defender dizendo que não foi contratado pela empresa e que seu objetivo é defender a família de João Alberto a ter uma indenização justa. Dentre as medidas o comitê propôs que as lojas ficassem fechadas até às 14h do dia 26 de novembro e, após um minuto de silêncio, iniciasse a reabertura das lojas. Restam algumas perguntas: Quanto vale uma vida negra? Existe indenização justa para quem perdeu um parente vítima da violência racista? 

A rebelião contra o racismo que toma o continente americano coloca a elite brasileira contra a parede. Eles têm medo de que se inicie uma revolução que coloque fim aos séculos de exploração a serviço de seus lucros. Por isso vemos a reação das multinacionais como o Carrefour tentar silenciar o movimento negro e impedir a radicalização das lutas.

Para atender às necessidades da elite racista, foram cooptados alguns intelectuais negros para esse comitê de “combate” ao racismo. Na prática, a única coisa que esse comitê combate é a luta contra o racismo. Ele nasce controlado e financiado pelos racistas e suas propostas não vão além de ações simbólicas. Utilizam o discurso de que o racismo é estrutural, mas não aceitam mexer nas estruturas da sociedade.

O principal sócio desta empresa no Brasil, o empresário Abílio Diniz disse: “racismo é execrável e devemos combatê-lo sempre”, porém o mesmo Abilio Diniz fez campanha e pressionou a Câmara para aprovação da reforma da Previdência e trabalhista. Foi indiciado na Operação Carne fraca por irregularidades relacionadas à venda de comida contaminada com salmonela e outras bactérias e ainda apoiou e financiou a campanha de Bolsonaro à presidência. É com esse burguês que o comitê diz que o movimento deve dialogar?

Devemos unir o conjunto dos trabalhadores contra a opressão racista de uma empresa criminosa que aumenta seus lucros à custa da exploração, opressão e humilhação de nosso povo. Não dá pra lutar contra o racismo sentando à mesa com os empresários racistas.

É importante destacar que este comitê ao assumir tal papel atua como amortecedor da luta de classe, impedindo a radicalização do movimento e isto terá consequências, a história mostrará. Defendemos a expropriação desta empresa como reparações à morte cruel e racista de João Alberto e todas as vítimas de racismo e violação de direitos do Carrefour.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Rolar para cima
WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop