Protesto em frente ao Carrefour em Porto Alegre. Guillherme Gonçalvez/Fotos Públicas

Fogos nos racistas!

Boicote ao Carrefour!

Justiça para João Alberto!

Vidas negras importam!

As frases acima deram tom aos protestos nas últimas semanas nos movimentos espontâneos e nas redes sociais, após a morte por racismo de João Alberto em um supermercado do Carrefour em Porto Alegre. O espancamento e assassinato violento por dois seguranças brancos terceirizados da empresa Vector trazem à tona o debate não só do racismo violento – em plena véspera do dia da Consciência Negra – mas também, qual é a saída para o enfrentamento ao racismo.

A burguesia racista dona de multinacionais como o Carrefour quer calar a voz do movimento negro e impedir a radicalização das lutas. Para isso, tenta surfar na onda antirracista fazendo ações simbólicas que em nada resolvem as desigualdades e violências sofridas pelos negros e negras trabalhadores. E, infelizmente, assistimos ativistas e intelectuais que deveriam estar à frente das lutas se tornando aliados dos empresários e utilizando sua influência para limpar a imagem dessas empresas em nome de um suposto diálogo.

Na tentativa de se “retratar”, o Carrefour incluiu nos últimos dias em seu site uma atendente virtual negra, retirou o termo Black Friday substituindo pela expressão “ofertou”, divulgou que iria instalar um Comitê de diversidade e inclusão com membros do ativismo e intelectuais negros e que vai destinar R$ 25 milhões para um fundo de combate ao racismo.

O humorista Yuri Marçal também recebeu convite do Carrefour para uma publicidade e respondeu a empresa com um xingamento se negando a participar da ação.

 

Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales formaram um comitê que se propõe a pensar políticas antirracistas para a empresa. O fato é que não existe burguesia antirracista. Basta ver que os empresários sempre colocam seus lucros acima de defender a vida dos trabalhadores negros.

Vimos Silvio Almeida se defender dizendo que não foi contratado pela empresa e que seu objetivo é defender a família de João Alberto a ter uma indenização justa. Dentre as medidas o comitê propôs que as lojas ficassem fechadas até às 14h do dia 26 de novembro e, após um minuto de silêncio, iniciasse a reabertura das lojas. Restam algumas perguntas: Quanto vale uma vida negra? Existe indenização justa para quem perdeu um parente vítima da violência racista? 

A rebelião contra o racismo que toma o continente americano coloca a elite brasileira contra a parede. Eles têm medo de que se inicie uma revolução que coloque fim aos séculos de exploração a serviço de seus lucros. Por isso vemos a reação das multinacionais como o Carrefour tentar silenciar o movimento negro e impedir a radicalização das lutas.

Para atender às necessidades da elite racista, foram cooptados alguns intelectuais negros para esse comitê de “combate” ao racismo. Na prática, a única coisa que esse comitê combate é a luta contra o racismo. Ele nasce controlado e financiado pelos racistas e suas propostas não vão além de ações simbólicas. Utilizam o discurso de que o racismo é estrutural, mas não aceitam mexer nas estruturas da sociedade.

O principal sócio desta empresa no Brasil, o empresário Abílio Diniz disse: “racismo é execrável e devemos combatê-lo sempre”, porém o mesmo Abilio Diniz fez campanha e pressionou a Câmara para aprovação da reforma da Previdência e trabalhista. Foi indiciado na Operação Carne fraca por irregularidades relacionadas à venda de comida contaminada com salmonela e outras bactérias e ainda apoiou e financiou a campanha de Bolsonaro à presidência. É com esse burguês que o comitê diz que o movimento deve dialogar?

Devemos unir o conjunto dos trabalhadores contra a opressão racista de uma empresa criminosa que aumenta seus lucros à custa da exploração, opressão e humilhação de nosso povo. Não dá pra lutar contra o racismo sentando à mesa com os empresários racistas.

É importante destacar que este comitê ao assumir tal papel atua como amortecedor da luta de classe, impedindo a radicalização do movimento e isto terá consequências, a história mostrará. Defendemos a expropriação desta empresa como reparações à morte cruel e racista de João Alberto e todas as vítimas de racismo e violação de direitos do Carrefour.