Collor `paz e amor`

Ex-presidente volta ao Senado e tenta absolvição políticaQuando Fernando Collor de Mello deixou o governo de Alagoas para assumir a Presidência da República, em 1990, um pequeno e animado bloco de alagoanos desfilou, praguejando o refrão “Vai, mas vai de vez. O inferno é pouco. Para o que você fez”. Collor assumiu o Planalto e, dois anos depois, renunciou em meio a uma enxurrada de denúncias e a passeatas diárias do movimento Fora Collor.

Quinze anos depois, ele retorna como senador, enterrando a praga lançada nas ruas de Maceió. Assustadoramente, sua volta é um espetáculo que tenta anistiá-lo perante a opinião pública. Mais assustadoramente ainda, parece estar surtindo efeito e não tem provocado reações a altura da farsa. No dia 15 de março, fez um discurso de três horas no Senado, com a sua interpretação dos fatos que levaram à renúncia e a perda dos direitos políticos. Falou em “conspiradores” e criticou a “ligeireza e a forma precipitada” com que a CPI o julgou. Em forçosa comparação, lembrou governantes que tiveram seus mandatos interrompidos, Deodoro da Fonseca e Getúlio Vargas. Reiterou diversas vezes que o Supremo Tribunal Federal (STF), depois de analisar as provas enviadas, arquivou o processo.

Seu discurso recebeu apartes de 15 senadores. À exceção de Aloizio Mercadante (PT-SP), todos renderam elogios e congratulações. Romeu Tuma (PFL-SP), que foi diretor da Polícia Federal com Collor, derramou lágrimas, a senha para que este levasse a mão aos olhos, indicando emoção. O ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (PMDB-DF), cuja polícia assassinou o militante do PSTU Gildo Rocha, em 2000, compadeceu-se do calvário do ex-presidente. “Imagino V. Exª angustiado, durante quinze anos! Foram 15 anos de noites indormidas, sofrendo!”, afirmou. O senador Mão Santa (PMDB-PI) não se conteve: “V. Exª estar aí é um orgulho da democracia, do Nordeste, do nosso País.” E houve até quem se mostrasse arrependido por ter votado pelo impeachment, como Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). “Não estou com a consciência tranqüila”, admitiu.

Apesar de se apresentar como vítima, Collor de Mello procurou manter distância do estilo que marcou a sua campanha, em 1989, e a sua passagem pela Presidência. Deixou de lado as exaltações, as frases de efeito e grosserias, o punho erguido e as bravatas. Procurou um estilo ‘paz e amor’, como o que marcou Lula, em sua vitória em 2002.

Corrupção deixada de lado
Assim como não destilou ódio, ele evitou falar sobre as denúncias de corrupção. Ignorou a relação com PC Farias, seu tesoureiro de campanha e responsável pelo esquema junto aos empresários. Collor protege-se na decisão do STF das centenas de denúncias que marcaram o ano de 1992, desde que seu irmão concedeu a bombástica entrevista à revista Veja. Nenhuma palavra foi dita sobre a Operação Uruguai, a reforma da Casa da Dinda ou os dólares no exterior.

Boa parte das provas contra ele teria desaparecido com PC Farias, que coordenava o esquema e freqüentava o centro do poder em Brasília, compartilhando da intimidade de empresários e magnatas da comunicação. PC e sua namorada, Suzane Marcolino, foram encontrados mortos em 1996, em Alagoas. Um crime providencial, tido como suicídio. Segundo o senador Pedro Simon, a morte teria levado consigo 70% das informações sobre a corrupção no governo Collor.

Collor não teve que devolver um único tostão aos cofres públicos. Tampouco seus 15 anos “de sofrimento” afetaram seu patrimônio ou suas relações políticas em Alagoas. Em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral, constam quatro veículos de luxo, uma lancha, diversos imóveis, ações e empresas. Ao todo, Collor possui um patrimônio declarado de R$ 4.623.219,80. O ex-caçador de marajás possui mais de quatro milhões de reais.

Sua campanha também não refletiu o exílio do qual se queixa. Para se eleger pelo PRTB, com votos de 550 mil dos 1,85 milhão de eleitores de Alagoas, gastou R$ 384 mil. Uma parte veio de seu bolso, mas há amigos leais. A Usina Caeté, do empresário Nivaldo Jatobá, doou 100 mil reais. Em uma consulta simples no site da Previdência, a usina aparece na lista de devedores da dívida ativa do INSS, em 11 processos. Ao todo, o INSS pede que a empresa pague R$ 69.056.796, quase 70 milhões de reais.

É antiga a relação de Collor com os usineiros de Alagoas, usineiros que Lula agora diz estarem se transformando em “heróis mundiais”. Ao assumir o governo de Alagoas, Collor chegou a ensaiar discursos contra os usineiros, que teriam impressionado até mesmo os dirigentes do PCdoB local, que integrava o governo. No entanto, foi só espetáculo para virar manchetes nos jornais de sua família. No apagar das luzes de seu governo, Collor fez acordo com os usineiros, isentando-os de todos os impostos estaduais. O acordo incluiu ainda empresas coligadas, de distribuidoras e lojas de roupa.

Absolvição petista
Apesar do aparte de Mercadante no Senado, para se dizer “orgulhoso de ter participado da CPI”, o governo petista se uniu ao coro dos que absolvem Collor. Uma semana após o discurso, Lula recebeu a bancada de senadores do PTB em uma conversa no Palácio do Planalto. Ao contrário dos demais, que entraram pela garagem, Collor fez questão de entrar pela porta da frente do Palácio. Lula recebeu-o com um abraço e conversou sobre a disposição dos móveis do gabinete, como velhos amigos. Ao final, Lula declarou que Collor “pode dar uma grande contribuição ao país”. Já este afirmou que nunca foi inimigo do petista.

`Lula,O episódio surpreende até quem pensava já ter visto de tudo nesse governo. Mas não é para tanto. A corrupção manteve-se no governo após o impeachment, com novos nomes e personagens. Seguiu no governo Fernando Henrique, com a compra de votos da reeleição, entre outros escândalos, e no governo petista, com o esquema do mensalão. Daí se entende a frase do senador Artur Virgílio, ao transmitir as boas-vindas em nome do PSDB. Para o líder tucano, Collor “pagou um preço muito alto por seus erros, em um país onde ninguém paga“.

Virgílio resumiu o pensamento de todos os picaretas que fazem parte do Congresso. Em uma instituição com parlamentares representando os interesses dos poderosos, a corrupção é indissociável e Collor pagou um preço que nenhum deles havia pago até então. E fazem tudo para que não venham a pagar.

A estrutura de corrupção permaneceu. Na lógica dos partidos que chegam ao Planalto, ela é necessária para garantir sua permanência no poder. Os objetivos são incrivelmente parecidos, até mesmo nos prazos. No livro “Notícias do Planalto”, o jornalista Mário Sergio Conti revela que PC Farias acreditava que Collor e seu grupo dominariam o Brasil por 20 anos. Em 1998, Sérgio Motta, o “Serjão”, profetizou o mesmo sobre o PSDB. Nesta semana, na posse dos novos ministros, foi a vez de Lula repetir a “profecia”.

Se a estratégia é manter-se como gerentes do Estado e lucrar com isso, nada mais natural que a corrupção seja mantida. Foi essa a mudança que o PT fez, ao se transformar em um partido da ordem. Para permanecer no poder, costura amplas alianças e reparte ministérios, de acordo com o orçamento de cada um deles.

Esquecendo o passado, o PT luta para manter a hegemonia e a governabilidade que fizeram tanta falta a Collor de Mello. O senador, em seu discurso, conseguiu um lampejo de humildade e apontou o que teria sido um erro. “Um dos grandes equívocos que, sem dúvida, cometi como Presidente da República foi o de ter tido com o Congresso Nacional uma relação não adequada.” Nesse aspecto, o PT parece ter aprendido a lição. Para satisfazer o apetite dos 500 picaretas, não hesitou em liberar verbas, acordos e o mensalão. Agora, em seu segundo mandato, Lula irá “considerar” ainda mais os parlamentares. Seu novo ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, do mesmo PTB de Collor e Roberto Jefferson, é uma “unanimidade” no Congresso. Segundo Lula, “ele chega a tomar café com deputado. Ele almoça com deputado. Ele ainda se dá ao luxo de jantar com deputado. E, se vacilar, ele faz a sobremesa com os senadores“. Mares Guia já anunciou maior agilidade na liberação das emendas e disparou: “Combinou, vai receber”.

Na tentativa de conquistar o Congresso, Lula não tem mais limites. Visitou Antonio Carlos Magalhaes no hospital em que este esteve internado. O coronel ACM se recuperou, voltou ao Senado, e promoveu uma sessão tão teatral quanto a do discurso de Collor, recebendo elogios de seus colegas e, claro, agradecendo a visita do presidente.

Assim, Lula vai repetindo a cartilha para governar. Collor apelava aos “descamisados” e Lula apóia-se em programas sociais compensatórios, como o Bolsa Família. Mas ele conta ainda com algo que, nem de longe, Collor poderia dispor. Lula dirige um governo de frente popular, com o apoio das maiores entidades e sindicatos. Sua origem popular e sua trajetória sindical fazem com que ele seja visto por parte da população como um dos seus. Essa trajetória foi o que fez com que, em 1989, Roberto Marinho, o patriarca das Organizações Globo, referindo-se a ele, declarasse: “Sem um nome que reúna o centro, poderemos acabar propiciando a vitória de um candidato que não seja do nosso meio”. Marinho temia de Lula sua trajetória operária e apoiou Collor. Agora é justamente essa parcela o grande trunfo do governo petista para atacar os trabalhadores, como no exemplo das reformas trabalhista e previdenciária.

A absolvição de Collor pelo STF nada significa, pois o Supremo jamais condenou um só político. Quinze anos depois do Fora Collor, é preciso impedir essa tentativa de recontar a história. Não o absolvemos. É necessário evitar farsas, sejam as antigas ou as travestidas de novidades.