Cidadãos: uni-vos?

Dirigentes do FSM substituem a luta de classes pelo discurso da cidadania, que iguala patrões e trabalhadores para ocultar a exploraçãoUma das estrelas do Fórum, onipresente na linguagem hegemônica, é o discurso da cidadania. Dezenas de intelectuais se esforçam em demonstrar que a generalização da cidadania é o horizonte possível. Essa idéia foi revolucionária nas grandes mobilizações burguesas que derrotaram o feudalismo entre os séculos 18 e 19. Naquele momento, tais idéias significavam a abolição dos privilégios da nobreza e do clero.

No período de decadência do capitalismo, essa ideologia tem um conteúdo reacionário, de igualar os cidadãos proprietários dos meios de produção e os cidadãos proletários.

Como afirma José Welmovicki no livro Cidadania ou classe: o movimento operário da década de 80 da Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann:“Os interesses da maioria explorada não são os mesmos da minoria exploradora. Os lucros de uns implicam na miséria dos outros. Omitir essa oposição em nome de uma pretensa igualdade entre todos a ser atingida dentro da sociedade atual desvia os explorados da busca da necessária unidade de classe para acabar com a exploração. E os deixa à mercê do canto de sereia por uma saída conjunta sem radicalismos”.

O Estado burguês democratizado?

Uma das teorias mais divulgadas no Fórum é sobre a autonomia das multinacionais e a perda de função dos Estados, apoiada por intelectuais como Susan George, Ignacio Ramonet e Tony Negri.

Segundo o informe oficial do Fórum de 2002: “Os conferencistas destacaram, ainda, que o capitalismo financeiro não precisa mais do Estado nacional e nem de suas instituições democráticas. Neste vazio político, as instituições econômicas e financeiras e de dinheiro, governarão o mundo em nome do capital, daí a política dar espaço para a tecnocracia atuar”. Concluíram também que: “A democracia exercida com eficácia desarma o capital. A autoridade do povo, e que dele emana, é o único instrumento eficaz na luta contra a globalização”. A partir daí, era defendida a política da democratização do Estado, tomando como exemplo o Orçamento Participativo.

Os reformistas, classicamente, diziam que o Estado burguês poderia ser mudado por dentro, ficando a serviço dos trabalhadores, sem necessidade de uma Revolução. Agora, avançam e dizem que as grandes empresas já não necessitariam do Estado. Para eles, “desde que com regimes democráticos”, o Estado seria uma contraposição ao capital.

O problema é que os defensores dessa teoria brigam com a realidade. O Estado norte-americano (com Bush reeleito em eleições “democráticas”), controlado pelas multinacionais massacra os iraquianos para controlar seu petróleo, e quer a Alca.

Por outro lado, as assembléias do Orçamento Participativo em Porto Alegre, por exemplo, só discutiam 10% do Orçamento da cidade, além de estarem submetidas às instâncias de poder tradicionais da democracia burguesa, como a Câmara e a Prefeitura.

Lula demonstra que toda essa ideologia não corresponde à realidade. Seu governo segue aplicando o plano neoliberal. Não houve nenhuma democratização do Estado, nem mesmo tentou-se um “Orçamento Participativo” nacional. Não foi o Estado burguês que foi modificado pelo PT, mas foi o partido que foi profundamente modificado pelas instituições, indo cada vez mais à direita. A derrota nas eleições é uma comprovação disso.

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