Casas, empregos e guerras

Novo presidente terá de governar esperanças por dias melhores na economia e pelo retorno das tropas do Iraque

Em seu discurso de vitória, Obama avisou aos norte-americanos que seriam necessários sacrifícios. Frear as demissões ou garantir novos postos de trabalho por meio das obras públicas será mais difícil de se realizar pela falta de dinheiro. Recursos públicos foram destinados num acordo para salvar a burguesia norte-americana. Suas promessas mais progressistas são o aumento dos impostos das famílias mais ricas (que Bush havia reduzido), e que não chega nem sequer ao imposto cobrado aos mais ricos pelo republicano Eisenhower nos anos 50, e a diminuição dos impostos para os que ganham baixos salários. O dinheiro que Bush enviou para estancar a quebra financeira, Obama terá de tirar dos trabalhadores, tanto dos de seu próprio país quanto dos do resto do mundo, como até agora fez a aspiradora de capitais que é a economia dos EUA.

O presidente eleito começou a mostrar suas verdadeiras intenções já antes das eleições. O plano de resgate de 700 bilhões de dólares aos bancos apresentado por Bush foi aprovado pelos dois candidatos. Esta enorme quantia será empregada como paliativo da quebra do sistema financeiro. Os protestos contra esta medida chegaram muito próximo de Wall Street, com o retrato de Karl Marx em meio aos cartazes de denúncia da quebra das carteiras. A mudança de última hora no plano de resgate proposto por Bush, que vai destinar fundos para ajudar os créditos não bancários e refinanciar as hipotecas que estão a ponto de vencer, contou com o apoio da própria equipe de Obama.

Estas medidas pretendem que os trabalhadores norte-americanos sigam pagando suas hipotecas e empréstimos. Preferem cobrar menos a cada mês a não cobrar nada e ainda se deparar com milhões de moradias que ninguém pode comprar. O dinheiro que podem destinar não é para garantir moradias aos 10 milhões que podem perder suas casas nos próximos dois anos. Além disso, estas medidas não vão devolver as casas para aqueles que já as perderam. Tampouco garante as casas daqueles que estão perdendo seus empregos.

Após sua vitória, Obama pediu a Bush que ajude urgentemente o setor automotivo, ameaçado de fechamento. Mas as medidas negociadas vão servir para a indústria adequar suas fábricas para que estas produzam modelos mais eficientes e adaptados ao ritmo menor de vendas. Ou seja, as novas fábricas precisarão de menos mão de obra. Obama quer garantir os benefícios das empresas, não os postos de trabalho que serão perdidos.

O conflito sobre dar apoio ou não ao setor automotivo mostra as divergências entre os setores imperialistas do atual governo e do próximo. Obama criticou a administração Bush por não se comprometer com medidas protecionistas na reunião do G20.

Obama considera necessário o protecionismo para salvar a indústria automotiva dos EUA. Na agricultura, através de acordos de comércio internacional, os EUA mantiveram ajudas milionárias, em forma de subsídios, aos seus fazendeiros. Obama poderá estender estas medidas a outros setores.
Além disso, é precioso recordar que Obama apóia os planos de saúde privados, dos quais recebeu 414 mil dólares para sua campanha eleitoral.

Antes das eleições, Obama tinha se oposto à guerra do Iraque e defendia a retirada das tropas do país árabe. No entanto, seu discurso foi se moderando durante a campanha, para acabar propondo a retirada das tropas de forma escalonada, durante 16 meses. Ainda propôs a manutenção de uma força de apoio de 60 mil soldados, para lutar contra o “terrorismo”. As tropas que seriam retiradas do Iraque seriam deslocadas para “ganhar” a guerra no Afeganistão, entrando inclusive no Paquistão. Pretende-se, assim, dobrar o número de soldados no Afeganistão, que segundo Obama serviria para “capturar ou matar a Bin Laden”. A verdade é que o plano aponta para um recrudescimento da agressão imperialista no Afeganistão. Obama também avisou que poderia atacar o Irã, que considera um perigo mundial, caso o país prossiga com o enriquecimento de urânio.

É simbólico também que Obama tenha escolhido como chefe de gabinete Rahm Emanuel, um sionista declarado, filho de um militante da organização Irgún, que realizou atentados sangrentos em 1946 contra a população palestina. Este personagem, conhecido no congresso como “Rahmbo” por suas maneiras de se dirigir à bancada democrata, é a constatação clara de que o governo Obama seguirá sendo um defensor do Estado de Israel, apesar das negociações entre emissários de Obama com o Hamas na Faixa de Gaza.

O fechamento da base militar de Guantánamo, onde estão presos sem julgamento centenas de presos da guerra iraquianos, foi uma exigência mundial a qual Obama se tinha somado. O presidente falou sobre o fechamento da prisão para transferir os 600 presos ao território dos EUA e julgá-los ali. Esse gesto, que não lhe dará grandes problemas, vai ser utilizado por Obama para aumentar seu prestígio perante o mundo. Algo semelhante a medida de Zapatero no princípio do seu primeiro mandato, retirando as tropas espanholas do Iraque.

Queremos assinalar o apoio que Obama vai receber de Zapatero na América Latina e no mundo árabe. A Espanha foi uma plataforma para a recolonização da América Latina. Os capitais europeus e norte-americanos puderam entrar com maior facilidade através das empresas espanholas. As conferências ibero-americanas, com o rei Juan Carlos à frente, nos últimos 25 anos se ocuparam de fazer com que os países do continente privatizassem todas as suas empresas rentáveis, bem como seus recursos naturais.
No Oriente Médio, Zapatero será o aliado para os EUA tentarem voltar à ofensiva. As tropas espanholas estão presentes com importantes contingentes tanto no Líbano como no Afeganistão. O discurso de Zapatero é de que as intervenções militares devem ser feitas com o respaldo de organismos internacionais, como a ONU, ou da comunidade internacional.

A ONU é a desculpa que o imperialismo utilizou para justificar agressões e ocupações, como na Bósnia, no Afeganistão e no Líbano. A chamada “comunidade internacional” é, na verdade, formada pelos países imperialistas e seus aliados dependentes.
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