Carta aberta à Esquerda Socialista e Democrática

Vocês estão fazendo seu Encontro Nacional para fundar um novo partido, e assim consumando a ruptura de um movimento que poderia ter sido unitário. Vocês decidiram romper e excluir de suas discussões o PSTU e os outros setores que defendem que o novo partido seja revolucionário.

As conseqüências desse ato autoritário foram sentidas nestes meses, nos atos de lançamento de seu partido, ao reunir em todo o país menos de um quarto dos ativistas do que poderíamos ter feito juntos. A força da unidade levaria a um movimento muito maior do que nós podemos reunir em separado.

Não acreditamos que seja possível reverter essa ruptura, definida por vocês. A história dirá quem tem razão.

Um novo partido para quê?

O objetivo central desta carta aberta, no entanto, é ver como se pode tentar lutar juntos, no que houver de acordo entre nós. No programa que vocês estão votando, existe uma parte que fala de “uma ampla unidade de forças políticas e organizações sociais. Queremos dialogar, especialmente, com os que ainda permanecem no PT, com o PSTU, com o PCB, com os companheiros da Consulta Popular”. Estamos de acordo com isto, e pensamos que, mesmo com muitas diferenças entre nós, é muito importante que tenhamos a mais ampla unidade de ação nas lutas contra o governo.

A prática de vocês, no entanto, é oposta a essa, tendo se pautado pelo mais absoluto sectarismo em relação ao PSTU, impedindo que haja uma luta unitária contra o governo.

Em todo o país, a Conlutas é uma realidade englobando algumas centenas de sindicatos, a direção do ANDES e da UNAFISCO. A maioria de vocês boicotou os Encontros Estaduais, devido à presença do PSTU na Conlutas. Da mesma maneira estão tentando evitar a realização do ato unificado no dia 16 de junho, em Brasília. Este tipo de atitude só fortalece a CUT e o governo e enfraquece a luta dos trabalhadores. Não falamos que são todos vocês, porque, felizmente, um setor de seu partido tem uma atitude construtiva, lado a lado conosco, na construção da Conlutas e do dia 16 de junho.

Agora, a mesma postura sectária se repetiu em relação ao encontro de juventude, que reuniu no Rio de Janeiro 1500 jovens para lutar contra a reforma universitária. As correntes envolvidas em seu partido boicotaram o encontro, ajudando objetivamente a UNE e o governo. O argumento é o mesmo: aí está o PSTU.

Agora já não se trata do sectarismo em relação a uma opção partidária, mas de um boicote a uma luta do movimento. É como se recusar a apoiar uma greve por discordar de um setor que está envolvido na luta.

Ainda é hora de reverter esta situação. Vocês podem e devem se integrar à preparação conjunta do ato do dia 16, assim como na construção da Conlutas. Podem ter certeza que serão bem recebidos.

E nas eleições, o que vocês vão fazer?

Existe um outro tema, com o mesmo conteúdo. Nas eleições de 2004, a oposição de direita vai buscar capitalizar o desgaste do governo. Em seu programa, vocês dizem que “o resgate da independência política dos trabalhadores e excluídos (que foi um traço distintivo do PT como projeto original da esquerda brasileira) é imprescindível”. No entanto, Heloísa Helena já declarou seu apoio nas eleições deste ano a Regis Cavalcante do PPS em Maceió, um partido burguês, do ministro Ciro Gomes. O que isso tem a ver com independência política dos trabalhadores? Que resolução sobre as próximas eleições vocês vão tomar em seu Encontro Nacional?

Apesar das diferenças entre nós, vocês sabem que somos o partido que apresentará as principais, e talvez as únicas, candidaturas de oposição de esquerda ao governo, socialistas, com um programa contra a Alca e o FMI. E contra as reformas neoliberais. Chamamos vocês a apoiarem nossas candidaturas, e a discutirmos, juntos, um programa para as eleições.

Um novo partido reformista e eleitoral

Pode ser que nem consigamos ter unidade em torno destas questões mínimas. Neste caso, pode ser que as diferenças que temos sejam ainda maiores do que pensávamos. As discussões entre nós podem ser sintetizadas em dois temas:

A primeira é que vocês, essencialmente, estão formando um partido para apresentar a candidatura de Heloísa Helena às eleições de 2006. Participar de eleições não é um erro ou um desvio, na medida em que as massas acreditem nelas. Ter uma estratégia partidária ao redor das eleições, no entanto, é próprio de um partido reformista. Não é por acaso que o programa que estão aprovando não fala em revolução socialista.
Nós defendemos um movimento unitário amplo, que ao final das discussões, definisse um partido revolucionário. Vocês optaram por um partido reformista, que abarca também alguns setores revolucionários. Vocês estão convencidos que podem reeditar a experiência do PT, um partido reformista eleitoral, com um programa mais a esquerda que o atual governo.

Quem defende um partido democrático?

A segunda diferença entre nós tem a ver com o funcionamento do partido. Para um partido revolucionário, seria necessário o centralismo democrático, com democracia ampla para a discussão, e centralização da ação. Em uma greve, não podemos atirar um para cada lado, e menos ainda se nos preparamos para uma revolução.

Vocês são contrários ao centralismo democrático, e tem razões para isso: não têm como objetivo uma revolução e tampouco um partido organizado para isso.

Na história da esquerda, não existe somente o centralismo burocrático stalinista, mas também o centralismo burocrático social-democrata. Este último é o funcionamento do PT, que vocês estão assumindo: todos podem agir como quiserem nas lutas, existem tendências permanentes, mas são os parlamentares que decidem a posição do partido porque, como figuras públicas, tem acesso à mídia. Como os parlamentares não podem ser centralizados pela base, através das resoluções de congressos (isso seria o centralismo democrático do PSTU, repudiado por vocês), eles fazem o que querem em nome do partido, independente da opinião da base.

É por isso que o programa que vocês estão aprovando foi apresentado apenas um mês antes do Encontro, e não foi discutido amplamente pela base. Como serão os parlamentares que decidirão tudo no dia a dia, isso não é necessário.

Nós achamos que, mesmo com estas diferenças de fundo, é necessário que consigamos lutar juntos contra o governo, tanto nas lutas diretas como nas eleições deste ano. O chamado está feito. Agora vocês tem a palavra.

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