Carta à coordenação da Frente de Esquerda

O conjunto da Frente de Esquerda deve estar contente pelo crescimento de Heloísa Helena nas pesquisas e o início da campanha, com os atos e caminhadas em todo o país. É o momento de fortalecer nossa unidade, de somar forças para que este crescimento prossiga.

Exatamente por isso, nos causou enorme estranheza a entrevista concedida por César Benjamin, candidato a vice de nossa Frente, na Folha de S.Paulo. Nela, César é apresentado como “coordenador do programa de governo” de Heloísa Helena e responsável pela preparação das “propostas para o país”.

Respeitamos o companheiro César como intelectual e como nosso candidato a vice, mas não foi feita nenhuma discussão na coordenação da Frente de Esquerda (que inclui a representação do PSOL, do PSTU e do PCB) sobre o fato de que ele estaria preparando o programa de governo.

Ao contrário, foi feita uma elaboração conjunta de um manifesto da Frente de Esquerda, que acabamos de definir, e que, pelo acordo que fizemos, deve ser trazido a público pelos três partidos nesta semana.

Desta forma, não reconhecemos nenhum programa que esteja sendo elaborado unilateralmente por César Benjamin, ou por um dos partidos da Frente. E achamos um grave erro que isso tenha sido anunciado na mídia sem nenhuma consulta a
seus partidos.

Como nós não temos o mesmo acesso à imprensa que o candidato a vice, a mensagem que se passou à população é que as propostas de César são as da Frente. E isso é inadmissível.

Esta já seria uma questão muito grave, caso expressasse apenas um problema de relacionamento entre nós. No entanto, se agrava qualitativamente porque, o ocorrido na entrevista, César anunciou, como propostas de governo de Heloísa, posições opostas às definidas em comum por PSOL, PSTU e PCB, e expressas no manifesto da Frente de Esquerda.

Em relação à dívida externa, na entrevista somente a auditoria é proposta. No manifesto, defendemos, além da auditoria, a suspensão dos pagamentos da dívida. César também propõe a duplicação do salário mínimo em oito a dez anos, enquanto no manifesto defendemos sua duplicação imediata.

Na entrevista, César afirma ainda não saber o que fazer com a Vale do Rio Doce, porque não pode prometer reestatizá-la. No manifesto, propomos a reestatização das empresas privatizadas, a começar pela Vale.

Essas posições, a nosso ver, enfraquecem a candidatura de Heloísa Helena, justo quando ela começa a ganhar mais força, na medida em que fazem com que os movimentos sociais (que defendem estas bandeiras há muito tempo) não se reconheçam neste programa. A mesma coisa acontece com a posição de César contra as cotas para negros. O movimento negro combativo não pode concordar com essa posição completamente equivocada.

Não reconhecemos este “programa” anunciado por César Benjamin, nem a metodologia unilateral com a qual ele está sendo construído. Diante disto, solicitamos uma reunião da coordenação da Frente para discutir o tema.

Post author Eduardo Almeida, pela Direção Nacional do PSTU
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