Carnaval sem holofotes

A epopéia começa em junho, é hora de começar a pensar no enredo. Mesmo estando no Grupo de Acesso longe dos holofotes da grande mídia, longe da badalação das figuras políticas é necessário correr atrás de patrocínio. Exatamente por esse motivo é necessário pensar bem nessa questão na hora de escolher o enredo. Mas pensar muito bem mesmo, pois nos grupos de acesso não há subvenções milionárias. Se a escola não está na Sapucaí então não há nem mesmo estrutura decente para os desfiles existe que dirá para a preparação do carnaval. Nesses grupos não tem Cidade do Samba. Não tem flash do Globo Cidade, nem mesmo pra denunciar a precária situação que as escolas enfrentam durante a preparação do carnaval.

O samba será divulgado a duras penas, portanto, é importante pensar em como os compositores irão compreender a mensagem do enredo. É necessário muito cuidado na escolha do samba, afinal de contas 52 escolas do carnaval carioca não tem vinheta divulgando seus sambas na televisão. Varias serão as forças a interferir nesse processo de escolha: bicheiros, policiais, traficantes, bicheiros, políticos, os “escritórios” podem injetar algum dinheiro na escola em troca de algum prestigio futuro na disputa em escolas maiores, pessoas influentes na comunidade podem emprestar prestigio e exercer pressão por algum samba de gosto duvidoso em troca de pequenos favores. Mas essa é só mais uma etapa que pode ser vencida. A escola pode abraçar um samba nota 10 e tudo termina em festa. Na hora de divulgar só se pode contar com a rádio comunitária e algumas emissoras AM. È bom lembrar que pra não concorrer com as disputas das grandes escolas o samba só é escolhido faltando um mês pro carnaval. È hora de faturar também algum dinheiro mais para começar os trabalhos no barracão.

Com o samba escolhido e o dinheiro arrecadado na disputa já dá pra tocar o barracão(onde se preparam as alegorias) e o ateliê(onde são confeccionadas as fantasias). Em ambos é necessário explorar a criatividade e o aproveitamento de materiais baratos ao máximo. O pior é que sempre falta dinheiro pra alguma coisa, nessa hora é necessário correr atrás de um mecenas e estes raramente aparecem. No barracão a solidariedade das coirmãs(outras escolas) aparece, ainda que algumas vezes ocultando algum interesse. O importante é que lá estão as esculturas usadas pelas escolas maiores em outros carnavais e que agora serão recicladas e adequadas ao enredo da melhor maneira possível. No ateliê conseguir comprar os materiais para realizar as fantasias idealizadas pelo carnavalesco é uma importante barreira a ser superada. Depois disso um lindo mutirão toma conta do ateliê. Costureiras e outros componentes todos voluntários perdem muitas noites de sono para concluir aquilo que é o sonho de toda comunidade: ouvir o grito de “é campeã!”. E o mutirão vai se acirrando conforme o carnaval se aproxima, sai do ateliê e chega até as quadras onde muito mais pessoas que trabalharam a semana inteira se aglutinam aos voluntários do ateliê.

Enquanto isso nos ensaios o “bicho pega” poucos freqüentam, mas esses poucos cantam com toda força e ficam a te o ultimo repicar na bateria. Os ensaios têm cara de confratenização afinal todos se conhecem e sempre que possível a mesa é farta. Porém, como a quadra não é coberto tomara que a chuva não apareça senão só na semana que vem.
Olhando os ensaios fica difícil imaginar que aquela escola que recebe pouco mais q 50 pessoas em sua quadra toda semana desfilará com mais de mil componentes.

Eis que chega o dia, na Intendente Magalhães, bem longe do centro da cidade o lugar onde tudo vale a pena. Quando soar a sirene e o puxador der seu grito de guerra e começar a cantar o refrão a comunidade entoara sua resposta aos que duvidaram, aos que ironizaram, aos que ridicularizaram, aos que discriminaram, aos que abandoram. A resposta a todos estes com muito samba no pé.

‘O que será?´

Eu queria saber agora
O que será
Vou perguntar
A menininha do Gantuá
Pode ser um grande Herói
Índios, africanos ou magia
Ou será um tema da velha Bahia?
Já ouvi dizer que é Debret
Ou antigos carnavais
Mas se for candomblé
Eu peço axé
Aos meus orixás
Depois no barracão
Suor, amor e fantasias
Alas, figurinos e passistas
Harmonia e ritmistas
Até o raiar do dia
E as lágrimas de alegria e dissabor
Modificam o rosto do poeta
No meio de um cenário multicor
Está na hora, é carnaval
O artista descreveu
Um enredo original

(O que será? Samba-enredo da União da Ilha em 1979 os autores são Didi e Aroldo Melodia)