Caranguejos pensantes

Há dez anos, surgiam os primeiros discos de jovens pernambucanos que, marcados por experiências musicais que iam do punk-rock ao samba-reggae, passando pelo jazz e oOs discos Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, do Mundo Livre S/A, no segundo semestre de 1994, foram resultado de algo que, há anos se desenvolvia na noite do Recife Antigo, boêmio bairro da capital pernambucana, em conversas e experiências de jovens que, desde os anos 1980, procuravam novos rumos para a música.

Vindos de diferentes tradições – Chico era freqüentador de bailes funk e apaixonado por James Brown, enquanto Fred Zero Quatro, do Mundo Livre, curtia mesclas de samba, rhythm’n’blues e baião feitas por Jorge Ben e o punk – os dois principais expoentes do mangue beat tinham em comum a vontade de agregar a isso os sons e ritmos populares, como o coco de roda, o maracatu, a ciranda e o frevo.

A cultura e a realidade pernambucanas, particularmente da capital, sempre estiveram no centro das preocupações e da criação dos mangueboys. Atuando na contracorrente de artistas que buscavam o sucesso na “globalização” de ritmos e sons, os “caranguejos com cérebro”, como Chico Science os denominou certa vez, buscaram a universalização de sua música através de um mergulho profundo naquilo que havia de mais enraizado em sua cultura local, arrancando modernidade da tradição, fazendo brotar o novo da ousada mescla entre o antigo e o moderno, o regional e o internacional.

Caranguejos continuam a pensar

Passados dez anos da trágica morte de Chico Science em 1997, a influência do mangue beat continua fortemente presente. Ao lado de veteranos como Otto, Nação Zumbi e DJ Dolores, há uma safra, com gente tão diversa como o excelente Mestre Ambrósio, o irreverente Textículos de Mary, o Ataque Suicida, o Querosene Jacaré e o fantástico Cordel do Fogo Encantado.

A influência do movimento foi além da música. Filmes como Baile Perfumado e Amarelo Manga trazem as mesmas ousadias dos que procuraram enfiar uma parabólica na lama recifense para sintonizar e remixar a cultura nacional.

*Colaboraram Walter Oliveira e Francisco Gomes. A entrevista com Fred Zero Quatro foi feita por Elaine Vilar e Tárcio Teixeira.

Post author Wilson H. da Silva*, da redação
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