Capitalismo encurrala povos indígenas

Aldeia indígena incrustada na cidade de São Paulo é exemplo de resistência cultural`CriançaA história do povo guarani traduz a resistência de uma população que, apesar das adversidades, mantém suas tradições. Povos objeto das Reduções Jesuíticas, cuja catequização preservou apenas o uso da língua nativa; povos perseguidos pelas expedições paulistas que se concentravam na captura de trabalhadores para prover a lavoura, os “negros da terra”; povos cuja presença foi “apagada” da história do país. Esses povos conseguiram manter sua diversidade cultural, a despeito de serem submetidos às complexas mudanças implementadas pela desorganização territorial imposta pelos colonizadores.

A presença guarani abrangia, no século XVI, do Chaco até o Atlântico, do Sul até o Rio da Prata, que hoje inclui os estados brasileiros de RS, SC, PR, SP, MS, além de países vizinhos como o Paraguai.

Atualmente, existem 53 aldeias guaranis na região costeira do Sul e do Sudeste do Brasil. Entre eles estão os M‘bya e os Nhandeva. A maioria das áreas guaranis do litoral brasileiro ainda não se encontra regularizada e sofre pressões de mandatos judiciais que preservam os interesses de terceiros. O texto constitucional, em seu artigo 231, confere “aos povos indígenas os direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas cabendo à União sua proteção e demarcação”.

O fato de os limites territoriais em definição sofrerem influências da população envolvente impele grupos e famílias a se reordenarem e buscarem outros locais para fixação; sem matas e terras apropriadas para o cultivo, as atividades de subsistência são praticamente impossíveis. A preservação de pequenas áreas sem recursos naturais traz conseqüências para sua sobrevivência física e cultural.

Falam as lideranças

Visitamos a aldeia guarani do Jaraguá (setor 2), na cidade de São Paulo, e entrevistamos suas lideranças. Segundo José Fernandes, pajé da aldeia, a FUNAI já fez o relatório e a análise para a demarcação, mas diz não saber os motivos pelos quais a área ainda não foi demarcada. “Há outras terras guaranis nessa situação, não é só a nossa”, diz, citando duas aldeias da região metropolitana.

Outra liderança, o Alísio, comenta: “Antigamente havia mato, caça, terras para as crianças brincarem e alimento suficiente. Nós, hoje, vivemos nesta situação e é muito triste. As lembranças são desagradáveis. O único trabalho possível como não temos estudo suficiente para trabalhar ‘lá fora’, é o artesanato. A nossa religião vem dos antepassados. A terra foi dada por Deus, ninguém é dono da terra. Nós não queremos ir para outro lugar. Nossa aldeia mantém contatos freqüentes com as lideranças de nove aldeias de SP. O principal problema no estado é a demarcação”.

Observamos em nossa visita à aldeia que é ponto de honra para a comunidade a preservação de sua cultura. Todas a crianças falam a língua guarani e as festas religiosas mantêm as mesmas características das dos seus antepassados.

* Colaborou Fausto Barreira Filho, da redação

Post author Elizabete Mascarenhas*, de São Paulo
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