Bush visita Iraque para tentar salvar popularidade

No dia 13 de junho, o famigerado presidente norte-americano, George W. Bush, realizou uma visita surpresa ao Iraque para saudar o gabinete formado pelo seu marionete local, Nouri al-Maliki, vulgarmente conhecido como primeiro-ministro do país há três anos ocupado pelas tropas comandadas pelos Estados Unidos.

Capítulo à parte na história foi o teatral esquema de guerra montado para garantir a reunião. Enquanto embarcava para o Oriente Médio, toda a imprensa ianque recebia notas anunciando que Bush estaria descansando em sua residência presidencial em Camp Davis. Já Maliki, no Iraque, foi convocado para uma vídeo-conferência e só ficou sabendo que se encontraria cara-a-cara com o seu patrão cinco minutos antes da reunião. Os jornalistas norte-americanos também contribuíram com sua parcela na encenação: os poucos convidados a seguir no avião presidencial foram retirados de suas casas e de restaurantes e “convidados” sob a condição de que deixassem para trás seus celulares e não avisassem ninguém sobre a viagem.

A reunião foi pensada sob medida para tentar fazer com que Bush capitalizasse algum prestígio com o final da formação do gabinete iraquiano e, principalmente, com a divulgação do assassinato de um dos principais líderes do Al-Qaeda, Abu Musab al-Zarqawi. morto há uma semana. Uma intenção reforçada depois que uma pesquisa feita pelo Guallup, no início da semana, revelou que a aprovação de Bush subiu para 38%, 7 pontos percentuais a mais do que no mês anterior, quando o presidente atingiu o mais baixo índice de popularidade na história presidencial dos Estados Unidos.

Bush ordena e governo iraquiano acirra repressão
Posando para a imprensa, Bush não economizou palavras para elogiar o “novo governo” e os “avanços” no Iraque. Caracterizando o gabinete como “um impressionante grupo de homens e mulheres”, o presidente norte-americano afirmou estar certo de que o governo iraquiano “será bem sucedido”. Quando e como isso ocorrerá já é uma outra história.

Aliás, a única coisa que Bush deixou claro ao sempre sorridente Maliki é que pretende não só manter a ocupação como também a rédea-curta sob o “governo” iraquiano: “As decisões que você e o seu gabinete fizerem determinarão se o seu país será bem-sucedido, se pode governar a si mesmo, se pode se defender, se sustentar”. Ou seja, enquanto Maliki e seu grupo de marionetes continuarem a se curvar diante Bush, dando criminoso apoio às tropas de ocupação, eles continuarão a ter o “integral apoio dos Estados Unidos”, como ressaltou o presidente.

A disposição de Maliki e seu gabinete em atender às ordens de Bush ficou evidente com a gigantesca operação montada em Bagdá horas depois da saída do presidente norte-americano do país. Com o objetivo de “restaurar a segurança e a lei em áreas de alto risco da capital” e por fim à insurgência, foram mobilizados 26 mil soldados iraquianos, 23 mil agentes da polícia do Iraque e 7.200 soldados das forças de ocupação. Além disso, o governo impôs toque de recolher em Bagdá e em seus arredores entre as 21h e as 6h e proibiu o trânsito de veículos na capital às sextas-feiras, entre as 11h e as 15h, período no qual milhares de fiéis vão orar nas mesquitas.

Resistência à ocupação e à guerra persistem
Os planos de Bush e Maliki, contudo, continuam esbarrando na crescente resistência do povo iraquiano bem como na persistente oposição às ações de Bush e seus aliados no Iraque. No campo interno, basta lembrar que a visita surpresa de Bush foi precedida por uma série de ataques que resultaram em ferimentos em um oficial da polícia iraquiana. Um dia depois, na quarta, 14 de junho, com o esquema repressivo já em funcionamento, a explosão de um outro carro-bomba feriu outros cinco policiais.

Em seu próprio terreno, a vida de Bush também não anda fácil. Apesar da pequena recuperação de popularidade (se é que se possa dizer isso de alguém reprovado por quase 70% da população…), a oposição à guerra continua alta e crescente. Dados da mesma pesquisa do Instituto Guallup indicam que 51% dos entrevistados consideram as operações no Iraque um erro e um número ainda maior (55%) desaprova as políticas do presidente para importantes questões internas, como a fascistóide política que Bush pretende adotar em relação aos imigrantes.

Por trás destes números encontram-se outros que a administração Bush tem cada vez mais dificuldade em esconder: o de mortos e o referente aos gastos com a guerra. Dados divulgados pelo próprio Departamento de Defesa dos EUA, no início desta semana, revelaram que dentre os cerca de 2.500 militares ianques que foram mortos no Iraque, 1.822 foram vítimas de “ataques”, 195 morreram em “acidentes” ou “circunstâncias pouco claras” e nada menos do que 810 se suicidaram.

No mesmo momento em que estes números vinham à tona, a Câmara norte-americana aprovava a destinação de mais US$ 64 bilhões para as operações no Iraque, elevando o custo da guerra, em três anos de ocupação, para US$ 320 bilhões. Números pra lá de preocupantes para uma economia que está atravessando um período marcado pela turbulência e a incerteza.

Barbárie continua, no Iraque e em Guantánamo
Enquanto isto, novas denúncias dos desmandos e atrocidades cometidas pelos exércitos de ocupação continuam surgindo a todo momento.

Depois de uma série de vídeos revelados pela BBC de Londres mostrando massacres rotineiros contra civis iraquianos – sendo que em apenas um deles, em Haditha, em novembro de 2005, 24 civis foram chacinados -, um novo vídeo, chamado de Hadji Girl, apresentado pelas emissoras de TV na manhã do dia 14 mostrava um soldado norte-americano sendo ovacionado por seus colegas depois de apresentar uma música (“composição própria e inédita”) em que relatava como se sentiu a ver o sangue jorrando de uma mãe e seu filho alvejados por sua metralhadora. A letra da “música“ termina dizendo que ele ria “como um louco“ ao ver o sangue descendo por entre os olhos da criança. Ao final do vídeo, risos e palmas de uma platéia de marines.

As imagens aumentaram ainda mais a indignação mundial, principalmente depois da revelação do suicídio de três prisioneiros – dois da Arábia Saudita e um do Iêmen, com idades entre 21 e 30 anos – mantidos ilegalmente na “masmorra” de Guantánamo, onde cerca de 460 pessoas permanecem presas há quase quatro anos sem terem sido formalmente acusados, sem direito a advogados e, como está cada vez mais evidente, sob constantes maus-tratos e torturas.


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