Bush, Lula, etanol e algumas coisas mais

Que há de comum entre Bush e Lula, que os tornam tão “amigos”? Um, ex-metalúrgico, retirante nordestino, e o outro, filhinho de papai, ligado às grandes petroleiras?

Um estudo mais detalhado mostrará que ambos dirigem duas das maiores economias da América e que estas duas economias são dominadas pelas mesmas grandes corporações transnacionais.

Os interesses de Bush
A excessiva dependência dos EUA de uma só fonte energética (petróleo) para mover seu império e a disparada do preço do petróleo nos últimos anos, empurraram as grandes empresas petrolíferas americanas e, junto com elas, o governo americano a buscar novas fontes de energia e combustíveis e trabalhar em uma nova legislação para os biocombustíveis.

As empresas petroleiras se movimentam para abocanhar este novo ramo produtivo, que promete ser muito rentável.

Por isso, Bush, como garoto-propaganda das petroleiras, passou a favorecer o etanol, justificando, como tudo o mais, ser assunto de “segurança nacional” dos EUA.

Depois do Protocolo de Kyoto, se intensificaram as pressões para diminuir a utilização de combustíveis fósseis(petróleo, carvão e gás) que, com sua queima, provoca o “efeito estufa”, levando a um aquecimento geral do planeta.

Por isto, a Europa planeja usar 5,75% de álcool misturada à gasolina até 2010. Nos EUA, Bush já determinou usar 10% de álcool misturado à gasolina nos próximos anos e os EUA consumirão 132 bilhões de litros por ano até 2017. O Japão também utilizará mistura de até 10% de álcool à sua gasolina.

O imperialismo aposta no etanol porque não está disposto, neste momento, a mudar a matriz dos motores dos meios de transporte que têm como base os combustíveis líquidos.

Para se ter uma idéia do potencial do negócio, se o mundo reduzisse em 5% a utilização da gasolina, haveria uma demanda de 65 bilhões de litros de álcool por ano. A produçaõ mundial hoje não chega a 50 bilhões de litros.

Esta produção está longe de garantir as necessidades nos próximos 10 anos.

Brasil, líder mundial na produção de etanol
O Brasil tem o mais desenvolvido parque industrial do etanol, porque 40% do combustível consumido por veículos de passeio é álcool combustível. Esse mercado se consolidou pelo salto na produção de carros que usam gasolina e álcool, carros flex, que em 2003 representavam 0,3% do total de veículos no Brasil e em 2005 já representavam 49,5% dos carros fabricados no país. Se espera a venda de cerca de 1,5 milhão de carros flex por ano.

Nos EUA, usa-se somente 2,5% de álcool combustível e é extraído do milho (que, mesmo subsidiado pelo governo, tem custo de US$ 0,31 o litro), custo mais alto que o etanol extraído da cana-de-açucar brasileira (que tem um custo de US$ 0,22 por litro). A União Européia produz etanol com custo de US$ 0,45, o litro, extraído de cereiais.

Isto é o que leva, junto com uma tecnologia de ponta, a colocar o Brasil como líder mundial do setor.

Um dos elementos que dificulta a substituição da gasolina pelo etanol é que este produto exige grandes quantidades de terras agriculturáveis, coisa que não existe disponível no planeta, principalmente nos países imperialistas. Então, naturalmente, assim como as indústrias pesadas do aço e do alumínio, altamente poluidoras e destrutivas do meio ambiente, a indústria do etanol se dirige aos países pobres.

Para que a Europa possa utilizar 5,75% de etanol na sua frota de automóveis, exigirá 15 milhões de toneladas de etanol. Pelas previsões da União Européia, isso significaria a ocupação de 12 milhões de hectares, quase 10% de toda terra arável da Europa.

Brasil e Estados Unidos produzem 72% do etanol mundial. Porém, somente o Brasil, neste momento, reúne as condições, para um salto na produção de etanol a nível mundial. Por isso, a febre de compra das empresas brasileiras do setor sucroalcooleiro por parte de empresários estrangeiros.

Lula, gerente do novo modelo colonial das “plantations”
Um estudo do governo Lula propõe subsidiar a produção de etanol no Brasil para exportação. O Estudo trabalha para viabilizar a possibilidade do etanol brasileiro substituir 10% da gasolina no mercado mundial em 20 anos. Para isso, o Brasil terá que investir cerca de R$ 20 bilhões por ano e teria que multiplicar sua produção por 7 vezes, ocupando cerca de 45 milhões de hectares produzindo cana. Segundo a Embrapa, o Brasil tem 90 milhões de hectares agriculturáveis. Portanto, executado este plano do governo, se ocuparia quase a metade das terras agriculturáveis brasileiras somente com cana! É este estudo que está sendo aplicado, com o BNDES financiando o agronegócio da cana, enquanto a Petrobrás, através da Transpetro, prepara a infra-estrutura para exportação do etanol.

Refletindo esta orientação do governo, os empréstimos do BNDES para o setor sucroalcooleiro, passaram de R$ 580 milhões em 2004 para R$ 1,089 bilhão em 2005, alcançando R$ 2,018 bilhões em 2006. Em 2007, serão mais R$ 2,5 bilhões em empréstimos para o setor privado do etanol, a maior parte para construção de usinas de álcool, financiando inclusive, a desnacionalização do setor, como veremos abaixo.

Este modelo aplicado pelo governo gerará um verdadeiro monocultivo para exportação, levando em conta que uma parte importante já está ocupada pela soja. Inevitavelmente tal crescimento invadirá a Amazonia e o Pantanal matogrosseense, apesar da negativa do Lula, levando a destruição do ecossistesma, como já foi feito com o cerrado brasileiro.

Este modelo de crescimento expulsa o pequeno produtor do campo, destrói o meio ambiente e torna o Brasil totalmente dependente das oscilações do mercado mundial.

“Temos que garantir o suprimento do mercado brasileiro e do mercado internacional” [1], afirma Lula. Desta forma, o governo está atuando como organizador, propagandista, financiador e garoto-propaganda do setor mais dinâmico do agronegócio hoje.

Este modelo é uma versão reciclada das velhas “plantations”, onde as colônias produziam alimentos para as metrópoles, sob o regime da escravidão. Exportavam suas riquezas a preço irrisório e importavam mercadorias manufaturadas caríssimas. Esta é a versão moderna da velha colonização.

Nas palavras do ex-ministro da Agricultura do governo Lula e homem do agronegócio, Roberto Rodrigues “…é obvio que os países tropicais terão mais vantagens porque a energia de produto agrícola depende de sol, terra e água. O que leva a uma quarta vantagem: a criação de emprego, riqueza e renda nesses países que, em geral, são países em desenvolvimento, para fornecer um produto estratégico a países desenvolvidos” [2]. Durante toda sua gestão à frente do Ministério da Agricultura (seria melhor dizer do “agronegocio”, já que foi o que mais se desenvolveu no Brasil, durante sua gestão) ele já trabalhava com uma orientação de que “a agroenergia é o novo paradigma agrícola do mundo”. Agora este Senhor, ex-ministro do governo Lula e, atualmente, presidente do conselho do Agronegócio da FIESP, faz parte de uma comissão da OEA para tornar o etanol uma commoditie internacional, junto com Jeb Bush, irmão do presidente, igualmente homem das grandes petroleiras americanas.

É uma ironia da história em que um representante da classe operária vai ao governo para entregar a soberania do país aos grandes grupos transnacionais, grandes tradings do agronegócio e grandes bancos. Lula se converteu no garoto-propaganda destas grandes empresas e deste modelo submetropolitano colonial, porque foi ao altar com a “burguesia brasileira” e terminou a noite de núpcias com “as grandes corporações transnacionais”.

Capital estrangeiro assume controle do negócio
O setor do etanol nos EUA é controlado pelas grandes transnacionais do agronegócio. Somente uma delas, A Archer Daniels Midland (ADM) controla 22% do mercado. Nos EUA existem, hoje, 113 usinas de etanol e há mais 77 em construção.

No Brasil, existe uma febre de investimentos estrangeiros no setor sucroalcooleiro que está gerando uma profunda desnacionalização.

Junto com Bush vem uma matilha de empresários sedentos de controle desta “nova mina”. Os investidores estão despejando dinheiro em novas usinas de etanol e em plantações de cana-de-açúcar no Brasil para suprir as necessidades do mercado americano, japonês e europeu.

O Brasil tem 357 usinas de açúcar e álcool em operação, 43 em construção e outras 244 em fase de planejamento. Os investidores estrangeiros dominam 35% destes novos projetos, fora as aquisições e sociedades que estão se multiplicando neste momento.

Esta disputa pelo controle acionário das empresas sucro-alcooleiras brasileiras por investidores estrangeiros se demonstra agora na luta pelo controle do segundo maior grupo do Brasil, a companhia açucareira Vale do Rosário. O grupo é disputado pelo maior produtor de álcool do Brasil, o grupo Cosan, pelo Bradesco, pela Bunge, transnacional do agronegócio. Os investidores estrangeiros estão por trás do ex-ministro privatizador Antonio Kandir e do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

No Brasil esta industria sucro-alcooleira sempre foi um setor tradicionalmente de controle familiar. Isto agora esta mudando rapidamente: George Soros adquiriu recentemente uma usina de cana-deaçúcar e está planejando investir mais de US$ 700 milhões em produção de etanol no Brasil. A maior multinacional do agronegocio, a Cargill, comprou uma usina em 2006 e a Petrobrás está negociando com a Mitsui do Japão a compra e construção de usinas como parte de um pacote para fornecer alcool ao Japão.

Empresários americanos e alemães, com testas-de-ferro brasileiros, estão criando o maior grupo produtor e exportador de álcool combustível do país. O projeto prevê investimentos de US$ 8,4 bilhões na construção de 24 usinas de álcool, que exportarão toda sua produção por um período de 20 anos. Este Consórcio será encabeçado pela norte-americana Sempra Energy, uma das maiores empresas de gás natural dos EUA e pela alemã Manferrostal, do grande grupo Man, que atua em mais de 60 países. Utilizarão 700 mil hectares de terra no Tocantins, outros 800 mil hectares foram arrendados no Maranhão, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, se aproximando das áreas protegidas da Amazônia e do Pantanal mato-grossense. Caso atinja a produção pretendida pelo grupo, 5,7 bilhões de litros por ano, produziria 20% de todo o álcool produzido no Brasil em 2010.Os empresários brasileiros do grupo Etalnac, vão administrar as destilarias e entregar toda a produção de álcool para a Sempra, que exportará para os EUA e o Japão. A burguesia brasileira se torna “administradora” dos negócios imperialistas.

Por outro lado, o grupo francês Louis Dreyfus, um gigante do agronegócio mundial, comprou quatro usinas e uma destilaria do grupo Tavares de Melo, dobrando sua capacidade de processamento de 5,6 para 11,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Neste negócio, o Grupo Tavares de Melo arrendará suas terras para plantação de cana.

O grupo inglês Infinity Bio-Energia gastou US$ 700 milhões em aquisição de usinas no ES, MG, MS, SP e BA. A empresa tem planos ambiciosos: quer ser a segunda maior produtora de álcool e açúcar do Brasil

O grupo francês Agrenco fez uma parceria com o grupo japonês Marubeni Corporation para produção de biodiesel e etanol. “Escolhemos o Brasil por ser o único local do mundo que poderá ter sua produção ampliada duas ou três vezes em pouco tempo e sem danos à natureza” [3], disse o executivo da Agrenco, Antonio Iafelice. A Marubeni Corporation é um gigante japonês que atua em 72 países e faturou US$ 67 bilhões em 2006.

Neste ramo, se repetirá, em escala superior, o que aconteceu com a produção de soja no Mercosul, que foi totalmente dominado pelas grandes transnacionais do agronegócio como a Cargill, Bunge, Archer Daniels Midland, Louis Dreyfus, etc.

O Brasil como submetrópole
Na sua recente viagem ao Brasil, acompanhando seu presidente, Condoleezza Rice afirmou, para engrandecer ainda mais o ego de Lula, se isto fosse possível, que o Brasil é uma “potência regional prestes a se tornar uma potência mundial” [4].

Potência mundial pode esquecer, mas potência regional é bem o que os Estados Unidos transformaram o Brasil. Só não disse que esta “potência regional”, está totalmente sob controle das grandes empresas americanas.

O recente acordo entre EUA-Brasil sobre o etanol, mostra bem o papel de colônia que o Brasil está assumindo frente aos EUA. O acordo compreende a plantação de cana-de-açúcar e produção de álcool em países da América Central, que utilizariam tecnologia brasileira e toda produção seria exportada para os EUA. As repúblicas de banana se convertem em repúblicas de cana-de-açúcar.

Hoje o Brasil já utiliza países da região, como a Jamaica, por exemplo, para produzir álcool combustível para o mercado americano. Importam o combustível do Brasil, processam aí e exportam o produto para os EUA. Os países da América Central e do Caribe não pagam taxas para enviar seu etanol aos EUA e tem uma cota de até 7% do mercado americano.

As empresas brasileiras estão utilizando a região como plataforma de exportação do etanol, nesta subempreitada, em acordo com os EUA, que inclusive indicam os países “amigos” para o domínio colonial. Dentro de alguns anos, estes países, completamente colonizados pelos Estados Unidos, no modelo de “plantations”, garantirão por outras décadas as necessidades de combustíveis para mover parte da indústria dos EUA.

“Já que não saiu a Alça, vamos de álcool” [5], diz Brian Dean, que, junto com Jeb Bush e Roberto Rodrigues, dirigem a Comissão Interamericana de Etanol.

Junto com o pacote discutido, está um acordo de cooperação em pesquisa para aumentar a produtividade das lavouras utilizando sementes transgênicas, adequados para melhor produção do etanol. Ao lado do modelo da monocultura da cana, vem a Monsanto, empresa transnacional que domina a produção de sementes modificadas geneticamente.

Aqui fica claro o papel do Brasil: em relação aos EUA, Europa e Japão, uma mera colônia. Em relação aos países vizinhos, um capataz do império, um “gerente dos negócios estrangeiros”.

Como subproduto desta nova localização do Brasil na divisão internacional do trabalho, a pauta de exportações brasileiras está diminuindo o peso de produtos manufaturados e aumentando o peso dos produtos primários como minérios, alimentos, combustíveis, etc. Dos US$ 96,5 bilhões exportados pelo Brasil em 2004, 78% eram produtos de baixa ou média intensidade tecnológica, segundo o IEDI.

O governo Lula, junto com Itamaraty e o BNDES, jogou peso na expansão comercial com América do Sul, através do Mercosul, criando relações comerciais onde predomina exportações de manufaturados para a América Latina e fornecedora de matérias-primas para o mundo.

Esse duplo papel dá uma cara ao Brasil de submetrópole em relação aos países da América Latina e de colônia em relação ao mercado mundial.

Os engenhos de cana-de-açúcar no Brasil colonial, depois o café, mais recentemente a soja e o gado e agora novamente a cana-de-açúcar, projeta o Brasil como país colonial, voltando aos tempos das velhas “plantations”.

Agora como no tempo colonial, a parte “podre” ficará com o país (destruição do meio ambiente, superexploração do trabalhador, monocultura da cana, soja, etc.) e as riquezas produzidas vão para os países ricos, deixando um rastro de destruição no nosso país.

O mesmo passa com o minério de ferro, do qual o Brasil é o maior produtor e exportador, que está permitindo um salto da China como maior indústria do mundo, dominado por 48 mil empresas dos EUA radicadas aí, segundo estudo do Professor Ernesto Lozardo da FGV. Para nós ficarão os buracos das minas. Para as transnacionais, incluindo a Vale do Rio Doce, ficarão os exorbitantes lucros da dominação colonial.

O modelo do agronegócio emprega pouca gente porque é altamente mecanizado. É um modelo que expulsa o pequeno produtor do campo, agravando o problema social do inchamento das grandes cidades, além de aumentar a fome no país, pois levará à perda da soberania alimentar. Teremos que importar alimentos que poderiam ser produzidos a baixo custo no país.

Igual como nos tempos da colonização, as incursões “imperialistas” do Brasil, como a guerra que dizimou o Paraguai em 1865, foi uma subempreitada dirigida por Portugal a mando da Inglaterra.

Agora, as incursões das “empresas brasileiras” dominando o mercado latino-americano também estão a serviço das grandes empresas transnacionais que utilizam o Brasil como plataforma para dominar a América Latina. Até 1940, estas subempreitadas estavam a serviço do império britânico. Depois da segunda grande guerra, a serviço dos EUA, novo senhor do mundo, que escanteou a Argentina (grande sócia da dominação inglesa no nosso subcontinente) e apostou no Brasil como país-ponte para domínio de suas empresas, começando pelas automobilísticas. A ditadura militar direcionou este projeto, criando as condições da infra-estrutura para o domínio das grandes empresas estrangeiras, e os governos sucessivos continuaram a obra, concluindo agora com Lula, que é o melhor amigo de Bush, porque ambos estão trabalhando para as mesmas empresas e bancos, para o mesmo modelo capitalista colonial.

A burguesia “nacional” brasileira foi desnacionalizada, junto com a privatização das empresas, e terminou por converter-se em gerente dos negócios das transnacionais no Brasil. Já que não pode vencê-lo, junta-se a ele, como capataz e gerente dos negócios imperialistas.

Triste fim desta burguesia “brasileira”: segundo relatos da imprensa, na cerimônia realizada na Transpetro em Guarulhos (SP), Bush “foi cumprimentado aos gritos por executivos e empresários, que se acotovelavam para se aproximar ou tirar uma foto ao lado do presidente americano” [6].“Vejo vocês em meu rancho”, disse um satisfeito Bush. Este “rancho” é o local da próxima visita de Lula aos EUA, no final de março, onde se rematará o negócio do etanol y algunas cositas más.

Quadro: superexploração e morte
O que não se fala em nenhuma parte é que os responsáveis por este grande salto do agronegócio da cana foram seus trabalhadores superexplorados. Em 2005, morreram mais de 11 trabalhadores, em geral de paradas cardiorrespiratórias, tendo que cortar mais de 20 toneladas de cana por dia, com jornadas de 10 a 12 horas diárias, para aumentar seus parcos ganhos mensais entre R$ 300 e 400 reais.

NOTAS:
1.
Jornal O Estado de S. Paulo, 13 de março de 2007
2. Idem, 9 de novembro de 2005
3. Idem, 22 de fevereiro de 2007
4. Idem, 13 de março de 2007
5. Idem, 22 de fevereiro de 2007
6. Idem, 10 de março de 2007

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