Venezuela: uma via militar para o socialismo?

No passado, a social-democracia e o stalinismo defenderam uma via parlamentar para o socialismo. Segundo essa tese, seria possível chegar ao socialismo simplesmente vencendo eleições, evitando assim a necessidade de uma revolução socialista. A história comprovou que isso era somente uma ideologia para justificar a adaptação aos parlamentos burgueses.

Agora existe uma nova versão para evitar a revolução. As Forças Armadas venezuelanas, com Chávez à frente, e não o parlamento, seriam o passaporte para a mudança socialista.

As Forças Armadas são a principal instituição do Estado venezuelano e o último recurso para defender a propriedade capitalista. Basta olhar para a história e ver os inúmeros casos de golpes militares que impediram os trabalhadores de tomar o poder. Sem destruir as Forças Armadas burguesas, não há nenhuma possibilidade de liquidar o capitalismo e iniciar a construção do socialismo.

Jamais em toda a história foi possível construir o socialismo mantendo intactas as Forças Armadas.

Todas as revoluções ocorridas até hoje destruíram esse pilar do Estado burguês, inclusive em Cuba, a única revolução vitoriosa em nosso continente.

O que Chávez faz hoje é fortalecer as Forças Armadas venezuelanas. Por isso, anistiou os oficiais que encabeçaram o golpe contra ele (em 2002), aumentou os salários dos militares e comprou novas armas.

A ideologia da via militar para o socialismo é tão absurda e nefasta como a antiga “via parlamentar”. As Forças Armadas venezuelanas não são um passaporte para o socialismo, mas uma garantia para Chávez, não só contra o imperialismo, mas contra qualquer rebelião popular que lhe escape ao controle.

Bonapartismo militar versus poder dos trabalhadores
Para o marxismo, avançar para o socialismo é dar dois passos históricos: socializar a economia e criar o poder para os trabalhadores. O caminho para a nova sociedade pressupõe um novo tipo de Estado, com novas instituições, como os conselhos populares. Houve um primeiro ensaio histórico desse novo Estado com a Comuna de Paris (1871) e depois nos primeiros anos da Revolução Russa, antes da burocratização stalinista.

Através desses organismos, os trabalhadores podem decidir os rumos da economia e da sociedade. Elegem seus representantes, que podem ser destituídos a qualquer momento. Para construir esse novo poder é preciso destruir o atual aparato do Estado burguês. Chávez, entretanto, nunca se propôs a destruí-lo. Suas reformas no regime serviram para que ele atacasse os partidos burgueses tradicionais, como a Ação Democrática, mas não mudaram o caráter burguês do Estado.

Chávez não só preserva a democracia burguesa, como suas reformas estão ampliando as características cada vez mais autoritárias e bonapartistas do regime. A manutenção e o fortalecimento das Forças Armadas são parte desse plano.

Mais uma vez, o chavismo repete as experiências do nacionalismo burguês na América Latina, cujos regimes eram chamados de “bonapartismo sui generis”, como os de Velasco Alvarado no Peru e Perón na Argentina. Esses regimes autoritários se diferenciavam das ditaduras militares de direita por terem choques com o imperialismo e por vezes se apoiarem no movimento de massas. Entretanto, sempre serviram aos objetivos limitados da burguesia e sempre levaram à capitulação ao imperialismo.
Post author da redação
Publication Date