Bravo, bravíssimo, Bibi!

Wilson Honório da Silva

Bibi Ferreira saiu de cena no dia 13 de fevereiro. Tinha 96 anos e uma história mergulhada nas Artes, particularmente no teatro e na música. Filha de um dos mais importantes atores de nossa história, Procópio Ferreira, e da bailarina argentina Aída Izquierdo, Bibi praticamente cresceu nos palcos (tendo feito seu primeiro “papel” quando tinha apenas 24 dias) e, no decorrer de sua longa e produtiva vida, foi pioneira e símbolo de excelência em praticamente tudo o que fez seja como apresentadora de TV, atriz, cantora ou diretora de peças, musicais e shows.

Uma vida dedicada às artes
Em 1936, Bibi participou do filme “Cidade Mulher”, de Humberto Mauro, produzido e estrelado por outra mulher pioneira nas artes: a atriz e diretora Carmen Santos. No teatro, Bibi iniciou sua carreira profissional em 1941, tornando-se uma das primeiras mulheres a montar sua própria companhia teatral, a Companhia de Comédias Bibi Ferreira, ao lado de outras gigantes da dramaturgia brasileira, como Cacilda Becker, Maria Della Costa e Henriette Morineau.

No início dos anos 1950, transferiu-se para Portugal, onde atuou nos chamados “teatros de revista” (musicais recheados de sátira social e política) e, também, como diretora. De volta ao Brasil, em 1960, Bibi tornou-se uma das primeiras apresentadoras da TV Excelsior. A emissora foi fechada pela Ditadura Militar, em 1964, e Bibi voltou a exercer a mesma função na TV Tupi, a partir de 1968.

No mesmo período, a atriz passou a investir naquilo que era uma das suas maiores paixões, os musicais, estrelando o espetáculo “Minha querida dama”, ao lado de Paulo Autran.

Além disso, Bibi também era uma excelente diretora de espetáculos. No tumultuado e sombrio início dos anos 1970, Bibi dirigiu “Brasileiro, profissão esperança”, de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho, um retrato nostálgico da boêmia carioca nos anos 1950, que, em suas duas versões, foi estrelada por cantoras que marcaram nossa história: Maria Bethânia e Clara Nunes.

Lutar quando é fácil ceder…
Em 1972, Bibi deu início a uma parceria com Chico Buarque e o poeta, dramaturgo e diretor português Ruy Guerra, numa montagem histórica de “O homem da La Mancha”, uma adaptação de Dom Quixote (escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes, em 1605), traduzida por Paulo Pontes e Flávio Rangel, que, diga-se de passagem, havia escrito, em 1965, um dos mais contundentes espetáculos contra a ditadura: a peça “Liberdade, liberdade”.

Bibi interpretava Dulcinéia, o foco da paixão alucinada do “cavaleiro andante”, compartilhando o palco Paulo Autran e o genial Grande Otelo (que fez o Sancho Pança, na montagem carioca). Montada em meio à violenta repressão e à sensação de desalento que pairavam sobre o país, a peça de Chico e Guerra soava como um grito de resistência e esperança, em músicas que se tornaram pérolas da MPB, como “Sonho Impossível”: “Sonhar / Mais um sonho impossível / Lutar / Quando é fácil ceder / Vencer / O inimigo invencível / Negar / Quando a regra é vender (…) / E assim, seja lá como for / Vai ter fim a infinita aflição / E o mundo vai ver uma flor / Brotar do impossível chão”.

Contudo, foi em 1975 que Bibi realizou aquele que ela própria considerava seu melhor e mais importante trabalho: “Gota D´Água”, também de Chico e Paulo Pontes. Ao transpor a tragédia grega (escrita por Eurípides em 431 a.C.) para uma favela carioca, a peça é um marco na história do teatro brasileiro e a interpretação de Bibi é literalmente espetacular.

Ela interpretava Joana/Medéia, uma mulher que, pressionada pelo mundo em que vivia, acaba matando seus próprios filhos. E quem teve a oportunidade de assistir o espetáculo, com certeza jamais esqueceu o “monólogo do veneno”, no qual Joana arma sua vingança, declarando que ninguém mais comandará seu destino.

 

Assim como “Gota D´Água”, seu trabalho seguinte, “Deus lhe Pague”, montado em 1976 (com a participação de Walmor Chagas, Marília Pêra e Marco Nanini), é um espetáculo exemplar das tensões que pulsavam durante o chamado período da “abertura”, que os ditadores queriam que fosse “lenta, gradual e segura”.

O texto de Joracy Camargo, que conta a história de um mendigo que se torna milionário pedindo esmolas, foi montado pela primeira vez em 1932 (pelo pai de Bibi) e é considerado um dos primeiros espetáculos que tinha no seu centro pesadas críticas à sociedade brasileira. E, em meados dos anos 1970, não era preciso muito esforço para traçar paralelos entre a Ditadura Vargas (instaurada em 1934, com o surgimento do Estado Novo) e o contexto em que a remontagem foi feita.

Mulher, diva e pioneira
Bibi era uma cantora excepcional e brindou seu público com interpretações memoráveis (em peças ou shows) de grandes divas da canção mundial. Em 1983, levou aos palcos “Piaf – a vida de uma estrela”, incorporando de forma impressionante a personalidade, a voz, os gestos e jeito de cantar da intensa cantora francesa, o que fez com que Bibi ganhasse os principais prêmios do teatro brasileiro: o Molière, o Mambembe, o Pirandello e os da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e do Governado do Estado.

Em 2001, foi a vez de “Bibi vive Amália” no qual, mais uma vez, a atriz tomou o palco como que “possuída” pela fadista portuguesa.

Além de seu pioneirismo nas Artes, Bibi foi, em muitos sentidos, uma mulher à frente de seu tempo. Em uma época em que as mulheres tinham que seguir o padrão “bela, recatada e do lar” e a separação ou desquite poderiam levar as mulheres à completa exclusão social, Bibi comandou sua vida da forma que bem entendia. Casou-se, no mínimo, seis vezes e sempre fez questão de preservar sua independência, bem como (diferentemente de tantos outros artistas) conduziu sua vida pessoal com tremenda discrição.

Sua ousadia e garra podem ser exemplificadas pelo fato de ter sido uma das primeiras mulheres a montar sua própria companhia teatral (em 1944, quando tinha apenas 22 anos), levando aos palcos uma peça protagonizada somente por mulheres. Como também por ter sido uma das primeiras a assumir, nos anos 1970, o papel de diretora teatral, algo que, até então, era quase que uma exclusividade masculina.

Fecham-se as cortinas
A popularidade de Bibi pode ser demonstrada pelo fato de que ela é uma das poucas brasileiras que virou enredo de Escola de Samba quando ainda estava viva. Em 2003, sua vida e obra tomaram a Sapucaí com “A Viradouro Canta e Conta Bibi: homenagem ao teatro brasileiro”.

Nos últimos anos, Bibi viveu um tanto reclusa, mas merece destaque o vigor que ela demonstrou até o fim de sua vida. Sua última atuação no teatro foi 2007, em “Às favas com os escrúpulos”, e, no ano passado, aos 95 anos a atriz e cantora fez uma turnê pelo Brasil com o show “Bibi – por toda minha vida”, interpretando clássicos da música popular brasileira.

Uma de suas últimas aparições públicas, também em 2018, causou enorme emoção quando, na platéia do musical “Bibi: uma vida em musical”, acompanhou a atriz Amanda Costa (que interpretava sua vida) em uma das músicas de Edith Piaf.

Sua disposição para continuar em cena e sua generosidade para com o público também ficaram registradas em sua última postagem em uma rede social: “Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada!”.

Foi assim que Bibi “fechou as cortinas”, mas, certamente, sua obra é daquelas que, de fato, pode ser considerada “imortal” na medida em que continuará como referência para todos e todas que fazem da Arte o seu ofício. E, por isso, somos nós que agradecemos. Bravo, bravíssimo, Bibi!

“Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada!”,