Bolsonaro quer entregar sua aposentadoria ao mercado financeiro: o caso dessa tragédia no Chile

Manifestação no Chile pela volta da Previdência pública

O relato de um brasileiro radicado no Chile sobre os efeitos da privatização da Previdência pública que Bolsonaro quer impor no país

DIRETO DO CHILE

Muitos trabalhadores ainda acreditam que Bolsonaro pode ser um mal menor para governar nosso país. Apesar de todas as posições polêmicas do candidato, o descrédito total com os grandes partidos e candidatos faz com que muitos sejam levados a votar em Bolsonaro.

No entanto, muitos são levados a isso sem conhecer as propostas mais importantes do candidato. Uma das propostas econômicas que está no programa de Bolsonaro (e também foi defendida publicamente por seus assessores econômicos) diz respeito às aposentadorias. É uma proposta que afetará a maioria dos brasileiros e brasileiras caso ele seja eleito (os que dependem de seu trabalho pra sobreviver).

Bolsonaro, em seu programa econômico, não difere muito dos outros candidatos (Alckmin, Ciro Gomes e inclusive de Haddad – apesar de Haddad dizer que não atacará os direitos dos trabalhadores, ainda lembramos do “Não mexo nos direitos trabalhistas nem que a vaca tussa”,  de Dilma). Mas há uma proposta interessante e “inovadora” no programa de Bolsonaro (que também é defendida, de forma mais mascarada, por Ciro Gomes).

Em relação às aposentadorias, Bolsonaro e sua equipe propõem reformular o atual sistema da Previdência Social. O novo sistema proposto pelo candidato é o “sistema de capitalização individual”, também conhecido em vários outros países latino-americanos como sistema das AFPs – Administradoras dos Fundos de Pensão. A ideia é bastante simples. Em vez do atual sistema, onde todas as contribuições de trabalhadores, empregadores e Estado vão para um fundo social que é responsável pela garantia do pagamento das aposentadorias (dentre outros direitos) dos trabalhadores (INSS), Bolsonaro quer propor um sistema que tem como base a poupança individual. Ou seja, ir substituindo paulatinamente o INSS por contas de poupança individual. O trabalhador então terá uma espécie de poupança em uma administradora de fundos de pensão (AFP) que será devolvida ao final de sua vida laboral.

Acontece que esse sistema já existe em vários países. Um desses países é o Chile, onde vivo atualmente. Não conhecia o sistema antes de vir para cá. Depois de alguns meses aqui, me deparei com mobilizações gigantescas contra o atual sistema de aposentadoria e as AFPs. As manifestações duram até hoje – uma das maiores chegou a juntar 1 milhão de pessoas por todo o país (o Chile tem 17 milhões de pessoas, menos do que a Grande São Paulo, para se ter ideia da proporção).

Como funcionam as AFPs? É muito simples. O trabalhador, ao longo de sua vida laboral, vai depositando seu dinheiro em uma conta, que será administrada por uma empresa privada. Esse dinheiro será aplicado em investimentos no mercado financeiro. No Chile, o trabalhador não pode optar por não ter seu dinheiro numa AFP privada. O que sim pode optar é se quer colocar seu dinheiro em um fundo mais arriscado ou menos arriscado. Nos mais arriscados, o trabalhador pode ganhar mais dinheiro (é como o mercado de ações), mas também pode perder seu dinheiro. Nos menos arriscados, o risco de perder é menor, mas o de ganhar também. A aritmética de perdas e ganhos também é simples. Se o fundo valoriza, os donos das AFPs ficam com o lucro. Se o fundo desvaloriza, o trabalhador paga a conta com dinheiro de sua aposentadoria. Isso leva, com frequência, a que trabalhadores percam em poucos dias o que juntaram por anos. É o risco que se corre, certo?

Esse sistema começou a ser implantado durante a ditadura militar de Pinochet. Passados quase 40 anos, todos os chilenos e chilenas já se deram conta que o sistema foi uma tragédia e pedem para voltar ao antigo sistema (como o nosso INSS, no Brasil). Para se ter uma ideia, a média das aposentadorias dos trabalhadores chilenos é de 30% do salário que ganhavam antes de se aposentar. Em 2016, mais de 90% dos aposentados ganhavam o equivalente a até 800 reais (menos que o salário mínimo chileno). No entanto, os lucros das AFPs foram astronômicos nos últimos anos, o que as transformou em um dos setores econômicos mais lucrativos do mercado chileno. Curiosamente os militares, que implementaram essa reforma, não passaram para o sistema das AFPs, ficando no sistema antigo.

Bolsonaro, além de defender a tortura e a ditadura, ter posições racistas, machistas e lgbtfóbicas, também é um candidato que defende claramente os interesses de grandes empresários, banqueiros e da elite brasileira. Se for eleito, continuará governando para os ricos e poderosos e não para os trabalhadores. E vai entregar a sua aposentadoria para o mercado financeiro, nem que para isso tenha que usar a força, como Pinochet fez no Chile.

ENTENDA A MEDIDA
Entrevista com assessor econômico de Bolsonaro 

Programa de Bolsonaro

Notícias do Chile

https://www.biobiochile.cl/noticias/2016/01/19/fondos-a-y-b-de-las-afp-perdieron-practicamente-todo-lo-recaudado-en-2015.shtml

http://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2013/08/01/como-las-fuerzas-armadas-quedaron-fuera-del-sistema-de-afp-que-entrega-pensiones-miserables/

https://elpais.com/elpais/2018/01/10/planeta_futuro/1515599034_606672.html

https://capitalhumano.emol.com/1348/pension-vejez-chile/

http://www.pulso.cl/empresas-mercados/solo-4-los-afiliados-afp-50-65-anos-tienen-saldo-una-pension-500-mil/

http://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2016/07/18/a-quien-sirve-el-negocio-de-las-afp