Bolchevismo e stalinismo: um velho debate. Parte II

Publicamos a seguir a segunda parte do artigo. A primeira pode ser lida na edição n° 315 do Opinião

Löwy também coloca a identificação entre stalinismo e bolchevismo sob outro ângulo. Concordando que o stalinismo surgiu pelas razões objetivas apontadas por Trotsky e que não é, nem de longe, herdeiro do bolchevismo, Löwy pergunta se os bolcheviques, com suas medidas autoritárias, “facilitaram ou contribuíram”, mesmo involuntariamente, para o nascimento do stalinismo.

É importante responder a essa questão, porque quando assinalamos os aspectos objetivos que determinaram a ascensão do stalinismo não pretendemos minimizar os erros dos bolcheviques e muito menos de Trotsky. É verdade que, especialmente, este último cometeu erros importantes ao propor a incorporação dos sindicatos ao aparelho do Estado e a militarização do trabalho. Eram propostas feitas no contexto do desmoronamento econômico do país, após a guerra civil, e com o objetivo de reerguê-lo, mas, se aplicadas, enfraqueceriam a capacidade dos trabalhadores de se defenderem do seu próprio Estado e da possibilidade de burocratização.

Essas propostas foram combatidas por Lenin e rejeitadas pela maioria do Partido Bolchevique. Ou seja, o que se poderia caracterizar como propostas “autoritárias” de Trotsky não foram implementadas pelo partido durante esse período.

Mas, justamente para não esconder esses erros, é preciso que sejamos mais específicos. É preciso colocar a questão de modo mais concreto, tomando, por exemplo, a medida mais discutida: a proibição dos partidos e das frações internas do Partido Bolchevique. Teria este sido um erro que facilitou o caminho para o stalinismo?

Isolamento
Na verdade, há uma pergunta que precede a anterior: o que teria acontecido à revolução russa e à URSS caso os bolcheviques não tivessem tomado essa medida e permitissem que mencheviques e socialistas-revolucionários sabotassem a defesa da revolução? Não é difícil chegar à conclusão de que o resultado da guerra civil teria sido o esmagamento do Estado operário. Mas, mesmo supondo a hipótese absurda de que a ação da quinta-coluna dos partidos traidores não tivesse produzido nenhum efeito, nem assim a ascensão do stalinismo teria sido evitada.

Deveriam os bolcheviques deixar de tomar esse tipo de medidas para não “facilitar” a ascensão de uma burocracia? Trata-se de uma discussão totalmente abstrata do ponto de vista do desfecho de um processo revolucionário. Se o Estado operário fosse destruído pelos exércitos brancos e imperialistas, ou se permitisse que agentes da contra-revolução manipulassem a insatisfação social provocada pela fome, crise econômica e guerra, a revolução seria esmagada. O novo regime político resultante não seria uma ditadura burocrática mas, certamente, uma ditadura burguesa de tipo fascista ou semi-fascista.

As medidas tomadas pelos bolcheviques eram indispensáveis para a defesa da revolução, nas circunstâncias concretas de isolamento do Estado soviético e do atraso do país. Mais de uma vez seus líderes explicaram que, em circunstâncias distintas tais medidas não teriam existido ou teriam tido vida curta. Nos anos 30, Trotsky voltou a defender a necessidade da proibição dos partidos soviéticos no momento em que essa decisão foi tomada, mas assinalou tanto as razões objetivas que levaram a essa e outras resoluções, como seus perigos inerentes: “Quanto à proibição dos demais partidos soviéticos, esta não é produto de uma ‘teoria’ bolchevique, mas sim uma medida de defesa da ditadura de um país atrasado e devastado, rodeado de inimigos. Os bolcheviques compreenderam claramente, desde o princípio, que esta medida, complementada posteriormente com a proibição de frações no próprio partido governante, assinalava um enorme perigo. No entanto, o perigo não radicava na doutrina, nem na tática, mas sim na debilidade material da ditadura e nas dificuldades internas e internacionais. Se a revolução tivesse triunfado tão somente na Alemanha, teria desaparecido por completo a necessidade de proibir os partidos soviéticos. É absolutamente indiscutível que a dominação do partido único serviu como ponto de partida jurídico para o sistema totalitário stalinista. Mas a causa deste processo não está no bolchevismo, nem na proibição dos demais partidos como medida transitória de guerra, mas sim nas derrotas do proletariado na Europa e na Ásia”.

Sobre o mesmo tema, Trotsky assinala as hipóteses, esboçadas por ele e Lenin, de alternativas políticas para os anarquistas, mostrando qual seria a postura dos bolcheviques em circunstâncias diferentes das impostas pela guerra e pela destruição econômica: “Durante o período heróico da revolução, os bolcheviques lutaram ombro a ombro com os anarquistas autenticamente revolucionários. Muitos passaram para as fileiras do partido. Mais de uma vez, Lenin e o autor destas linhas discutiram a possibilidade de conceder aos anarquistas determinados territórios, onde, com o consentimento da população local, pudessem realizar a experiência de abolir o Estado. Mas a guerra civil, o bloqueio e a fome não permitiram dar lugar para tais planos”.

Marxismo de hoje
Os bolcheviques tomaram todas as medidas para defender a revolução russa com os olhos postos no desenrolar da luta de classes internacional, especialmente a revolução na Alemanha. Ou seja, esperando que a revolução internacional tirasse a Rússia do isolamento e permitisse a volta de um regime soviético “normal” e não de exceção. Nunca pensaram que seria desejável ou mesmo possível qualquer tipo de desenvolvimento “socialista” num só país.

Mais do que isso, seu prognóstico era que sem uma vitória mais ou menos rápida do proletariado nos países capitalistas adiantados, a revolução russa não sobreviveria. Lenin definiu, assim, o papel da classe operária no poder: “Tendo conquistado o poder, o proletariado russo tinha inteira chance de mantê-lo e impulsionar a Rússia através da vitoriosa revolução no Ocidente”. No II Congresso dos Sovietes, por ocasião da tomada do poder, Trotsky se expressou no mesmo sentido: “Se o povo europeu não se insurgir e derrotar o imperialismo, nós deveremos ser esmagados, isto é indubitável. Ou a Revolução Russa consegue fazer eclodir a luta no Ocidente, ou então os capitalistas do mundo inteiro sufocarão a nossa revolução”.

Os bolcheviques defendiam o poder soviético, esperando que a revolução internacional permitisse a correção de problemas, inclusive a burocratização, trazidos pelo isolamento, o atraso e a guerra civil.

Portanto, a pergunta de Löwy tem resposta. Os erros dos bolcheviques, tanto os reais como os supostos, não facilitaram nem contribuíram para o processo de burocratização. Este dependeu do desenvolvimento objetivo da luta de classes, nacional e, principalmente, internacional. O papel subjetivo do partido, decisivo numa crise revolucionária para dirigir a classe operária à tomada do poder, torna-se apenas um elemento a mais na realidade objetiva imediata, incapaz de determinar o curso dos acontecimentos quando a maré da luta de classes se converte em derrotas do proletariado e em refluxo do movimento revolucionário das massas.

A conclusão anterior nos traz a outra: tanto no período de ascenso revolucionário como na resistência ao stalinismo, o bolchevismo demonstrou ser o marxismo desta época de crises, guerras e revoluções. As palavras de Trotsky continuam válidas: “O marxismo encontrou sua expressão histórica mais elevada no bolchevismo. Sob a bandeira bolchevique se realizou a primeira vitória do proletariado e se instaurou o primeiro Estado operário.”

Noventa anos se passaram desde a Revolução Russa. Nove décadas marcadas por enormes vitórias e derrotas. Hoje, a vanguarda do proletariado tem pela frente o desafio de recolher a bandeira bolchevique e lutar para avançar de novo, além dos portões abertos pela Revolução de Outubro. A revolução socialista mundial, razão de ser do bolchevismo e da III Internacional, continua a ser a grande tarefa. Por isso, o bolchevismo continua a ser o marxismo do nosso tempo.

Post author Bernardo Cerdeira, da LIT
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