Barbárie policial provocou 30 mortes

A chacina em Nova Iguaçu e Queimados é um terrível exemplo das conseqüências da impunidade e da total perda de controle sobre o sistema policial, cujos membros são os principais suspeitos pelos assassinatosNa noite de quinta-feira, 31 de março, trinta pessoas foram mortas nas ruas de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. Dentre os mortos, sete tinham menos de 18 anos e a enorme maioria era formada por trabalhadores negros.

O número de mortos transformou a chacina da Baixada no maior da história do Rio de Janeiro, superando as 21 pessoas mortas em Vigário Geral, em 1993, em um episódio símbolo da impunidade no país. Dos 52 policiais denunciados pelo Ministério Público, 28 foram inocentados; 10 nem chegaram a ser denunciados pela “justiça”, por falta de provas; seis morreram antes do julgamento (que começou quase 10 anos depois da chacina); um está foragido até hoje e apenas sete foram condenados.

Os dois episódios, além de terem grupos de extermínios formados por policiais em sua origem, também se aproximam pela crueldade. No caso mais recente, a barbárie começou por volta da 21 horas, em Nova Iguaçu, onde foram mortas 18 pessoas, incluindo dois ciclistas que passavam pela Rodovia Dutra, dois travestis, dois irmãos que conversavam na porta de casa e nove pessoas (quatro delas adolescentes) que estava no interior de um bar. Na seqüência, o grupo, que estava num carro e numa motocicleta, seguiu para Queimados, onde ocorreram 12 outros assassinatos a esmo.

As evidências do envolvimento de policias são várias — particularmente o uso de pistolas .40, que são exclusiva da polícia militar — e o massacre teria sido feito em represália à punição de vários policiais que foram autuados por “desvio de conduta”. Segundo fontes da própria polícia, a chacina deve estar diretamente ligada à prisão de um grupo de policiais que, na semana passada, foi acusado de executar duas pessoas, degolá-las e atirar uma das cabeças na porta de um batalhão da polícia.

No sábado, uma testemunha reconheceu o soldado da PM Fabiano Gonçalves, como um dos participantes da chacina. Fabiano foi detido juntamente com o PM José Augusto Moreira Felipe. Ambos são do 24º Batalhão de Queimados (Baixada Fluminense) e são conhecidos na região não só pela truculência que empregam contra a população, mas também por terem fama de matadores.

Uma região cercada por miséria e mortes
Nova Iguaçu e Queimados fazem parte de uma região em que todos os indicadores sociais são piores do que a média do estado do Rio. Enquanto a taxa de mortalidade infantil, por exemplo, no Rio de Janeiro é de 18,6 por mil, em Queimados era é de 28 por mil e em Nova Iguaçu é de 21 por mil. Já a renda per capita é uma das mais baixas do Estado, chegando a R$ 357 em Queimados e a R$ 421 em Nova Iguaçu, enquanto a média estadual é de R$ 997.

É nesse ambiente marcado pela miséria que os homicídios florescem. Particularmente na forma de chacinas. Segundo o sociólogo da USP José Cláudio Souza Alves — autor do livro “Dos Barões ao Extermínio: A História da Violência Na Baixada“ — a última chacina está longe de ser um fato isolado na região: “A violência na Baixada chama a atenção quando é no atacado, ou seja, com mais de 20 mortos. O varejo, que são oito mortes por dia em média, sequer é registrado pelos jornais“. (Folha de S. Paulo, 2/04/2005).

A altíssima taxa de homicídios é acompanhada pelo alto grau de impunidade. Segundo o sociólogo, nos oito municípios mais populosos da Baixada, que concentram 2,8 milhões de habitantes, apenas 7,8% dos homicídios são investigados. Uma situação diretamente relacionada com a proliferação de grupos de extermínio na região, compostos por ex-integrantes das Forças Armadas e policiais e financiada por empresários locais e traficantes.

Ainda segundo José Cláudio Souza, a existência destes grupos, que marca a história da Baixada desde a década de 60, tomou uma nova dinâmica nos últimos anos: “Os fatos novos são a chegada desde os anos 90 de membros da primeira geração dos grupos de extermínio ao poder das prefeituras locais e o tráfico de drogas, que passou a ser mais um forte financiador desses grupos”.