Barbalha, time cearense de futebol, cogita assinar contrato com o goleiro Bruno

Secretaria Estadual de Mulheres do PSTU Ceará

O Barbalha, clube que disputa a primeira divisão do Campeonato Cearense de Futebol e conquistou vaga para a Copa do Brasil após sair vitorioso na primeira fase do estadual de 2019, está discutindo a contratação do goleiro Bruno, condenado a 20 anos e 9 meses de prisão pelo assassinato cruel de Elisa Samudio em 2010 e pelo sequestro e cárcere privado do filho de ambos. O assassino conseguiu progressão de pena para o regime semiaberto em 2018, voltando à cadeia alguns meses depois por ter sido flagrado em um bar descumprindo a condicional. Mas novamente conseguiu progressão de pena em 2019 e foi solto em julho.

A liberação do goleiro é um escândalo. Milhões de pessoas estão presas no país sem ter passado ao menos por um julgamento, a sua maioria são negros e pobres que não podem pagar para ter um bom advogado, como o que tem o goleiro Bruno.

Por outro lado, vemos o aumento de casos de violência contra a mulher na sociedade e, os números de 2018, apontam 4.254 feminicídios no país. No primeiro semestre de 2019, no estado de São Paulo, houve um aumento no número de mulheres assassinadas em 44% em relação ao mesmo período do ano passado, sendo que 73% dos casos ocorreram dentro de casa. O Ceará, estado onde o goleiro deve jogar caso receba aval da justiça e assine o contrato com o time, é o segundo estado do país com maior número de feminicídios. Só em 2018 foram assassinadas 447 mulheres. Entre 2007 e 2017 o número de assassinatos de mulheres cresceu, no estado, assustadores 176,9%.

O presidente do Barbalha, para justificar a contratação do goleiro, falou em entrevista ao Globoesporte.com, que “a gente vive num País que existe ressocialização, não existe prisão perpétua. E assim, no meu ponto de vista, o que ele fez realmente é inaceitável. Ele está pagando, está prestando contas com Deus. Eu te garanto que existe gente pior que ele que nem foi preso ainda. Quem sou eu pra julgar ele? Eu estou pensando na questão do Barbalha, para promover o clube, por visibilidade”.

Para Fernanda Guimarães, da Secretaria Estadual de Mulheres do PSTU do Ceará, “nós defendemos a ressocialização dos presos, um direito que é negado à maioria dos negros pobres que lotam as cadeias. Mas a contratação do goleiro Bruno pelo Barbalha fortalece a sensação de impunidade nos casos de violência machista e dá um péssimo exemplo para os homens cearenses. A obrigação das mulheres e também dos homens da classe trabalhadora é repudiar essa iniciativa do clube que fortalece o machismo já tão impregnado em nossa sociedade. Nenhuma melhora técnica ou publicidade pode justificar que o time aceite em suas fileiras alguém que cometeu as atrocidades praticadas pelo goleiro”.

O capitalismo se alimenta do machismo. É possível ver isso nas diferenças salariais pagas a homens e mulheres que exercem a mesma função. Um fato curioso e trágico que demonstra que, nesse sistema, a vida das mulheres vale menos do que o dinheiro é que os “cabeças” do assalto ao Banco Central de Fortaleza, no Ceará, receberam penas superiores à pena aplicada ao goleiro, apesar de toda a crueldade do crime cometido por ele contra a mãe de seu filho e de, no caso do assalto ao banco, não ter havido nenhuma vítima.

É necessário romper com essa lógica de violência e impunidade. Ao contrário do que pretende o Barbalha, é preciso combater o machismo entre os homens com ações educativas e com punição severa e exemplar da violência cometida contra as mulheres, seja ela física, moral, sexual ou psicológica. Ao mesmo tempo é preciso dar condições às mulheres para reagir contra a violência, garantindo empregos formais, creches para os filhos, políticas públicas de distribuição de renda, acesso a moradia e apoio do governo para as que se tornarem vítimas, através da construção de casas abrigo e delegacias de defesa das mulheres.