Barack Obama: um “novo rosto” para “o velho” imperialismo

A vitória do senador Barack Obama nas internas do Partido Democrata é um fato inédito na história dos Estados Unidos: pela primeira vez, haverá um candidato negro nas eleições presidenciais, representando um dos dois grandes partidos. Mais ainda, as pesquisas indicam que ele tem muitas possibilidades de derrotar seu adversário republicano, John McCain.

O fato de que um jovem político negro, filho de um imigrante africano muçulmano, possa se transformar no primeiro presidente negro do país seria algo absolutamente impensável anos atrás e só poderia acontecer em alguma série de TV, como “24 Horas”. É lógico, então, que cause um grande impacto nos EUA e em todo o mundo. Além da enorme confusão que provoca – como veremos nesta edição do Correio Internacional – entre algumas correntes de esquerda.

Trata-se de uma mudança real – parcial, mas importante – do sistema de poder político da principal potência imperialista mundial? Ou, pelo contrário, é só uma necessária adaptação formal desse sistema (um “novo rosto”) para poder enfrentar – em melhores condições – as graves dificuldades do imperialismo norte-americano no mundo e em seu próprio país?

A LIT-QI afirma claramente que se trata da segunda alternativa. Para demonstrá-lo, devemos analisar, por um lado, as características centrais desse sistema que criou uma figura como a de Barack Obama e, por outro, as condições que fizeram necessário seu possível acesso à presidência do país.

O sistema bipartidário
O sistema político-eleitoral norte-americano baseia-se na existência de dois grandes partidos burgueses – republicano e democrata – que, segundo as circunstâncias, se alternam entre a presidência e a oposição parlamentar.

Ambos os partidos apresentam diferenças políticas e têm bases eleitorais diferentes. Os republicanos expressam tradicionalmente posições mais reacionárias e se apóiam na classe média das cidades medianas e pequenas e nas classes médias acomodadas das grandes cidades. Os democratas, por sua vez, expressavam posições mais “liberais” (no sentido norte-americano da palavra) e seu apoio eleitoral surge dos trabalhadores e da classe média “liberal” das grandes cidades, além de integrar tradicionalmente minorias – negros e latinos – e outros setores discriminados. Por seu peso histórico nas direções sindicais, os democratas sempre desempenharam o papel de impedir uma alternativa independente da classe operária no terreno eleitoral. No entanto, é necessário lembrar que, nos últimos anos, essas diferenças políticas têm desaparecido cada vez mais e existe uma forte direita democrata sem grandes diferenças com os republicanos.

Não resta dúvida de que republicanos e democratas são partidos da burguesia imperialista, até a medula. Algo que se demonstra, em primeiro lugar, pelas fabulosas quantidades de dinheiro com que as grandes empresas contribuem para financiar ambos partidos e seus candidatos. Neste sistema, nenhum político tem possibilidade real de chegar a cargos importantes se não conta com um forte apoio financeiro das empresas em troca de compromissos com esses patrocinadores. Analisamos esses dados em outro artigo desta edição. Eles permitem adivinhar quais setores dessa burguesia estão mais unidos a cada partido: os republicanos são apoiados majoritariamente pelas petrolíferas, químicas, automotoras, construção e agronegócio, enquanto os democratas são fortes no setor de finanças/seguro/bens raízes, educação e saúde.

Em segundo lugar, a relação com a burguesia demonstra-se na política desses partidos quando governam. Muitos têm a idéia de que os republicanos são mais ligados às armas e os democratas mais pacifistas. A realidade desmente isso: muitas intervenções militares e guerras do imperialismo norte-americano foram iniciadas por presidentes democratas. Por exemplo, foi John Kennedy quem começou a intervenção no Vietnã, no início da década de 1960, e quem impulsionou a invasão da Baía dos Porcos, contra Cuba; Harry Truman ordenou o lançamento da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, em 1946. A atual guerra do Iraque, mesmo tendo sido política de George W. Bush, contou com o apoio parlamentar democrata. Na hora de defender os interesses imperialistas no mundo, ambos os partidos terminam unificando sua política.
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