Aumenta o cerco contra Oaxaca

Ativistas são obrigados a entregar rádio universitária, eixo do movimentoUma repressão brutal recai sobre as lutas dos trabalhadores e jovens de Oaxaca, no México. Nesta quinta-feira, dia 30, a Polícia Federal Preventiva (PFP) desmantelou a emblemática barricada Cinco Señores, um dos últimos bastiões da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) na cidade.

Respaldada pela polícia, a Secretaria de Obras Públicas removeu as trincheiras enquanto os operadores de Rádio Universidade tiveram que entregar a emissora, depois que foram cercados e muitos dos ativistas da APPO detidos. Desde o início dos protestos, a rádio estava operando sob controle do movimento e servia como um pólo aglutinador, convocando os protestos e atividades e divulgando a luta pela internet para todo o mundo. A rádio foi tomada e a direção da universidade constatou que todos os equipamentos estavam em perfeito estado.

Durante os enfrentamentos que se registraram no sábado passado no centro histórico de Oaxaca, onde a Polícia Federal Preventiva reprimiu duramente uma manifestação da APPO, foram presas 141 pessoas (34 mulheres e 107 homens). Outras 35 pessoas foram declaradas desaparecidas.

Na manhã do dia 1° de dezembro, agentes da Secretaria de Segurança Pública Federal armados com fuzis AR-15 impediram o acesso à entrada que conduz ao Centro de Readaptação Social El Rincón, prisão onde se encontram as 141 pessoas detidas. “Estão incomunicáveis e acreditamos que os estão torturando”, denunciou Jesús Juárez Cortés, do Fórum de Advogados de Nayarit, e Andrés del Campo, da Rede Mexicana pela Defesa dos Direitos Humanos.

Repressão visa destruir APPO
Uma brutal repressão está se abatendo contra a luta dos trabalhadores de Oaxaca e destruindo a APPO. Com cinco mil militares do exército disfarçados de policiais, apoiados por armas de todo tipo, jipes e helicópteros, a repressão está a ponto de interromper o grande movimento de massas que já dura mais de seis meses, quando uma greve do sindicato de professores e a ocupação do Zócalo – principal praça da cidade – por reajustes salariais transformaram-se numa insurreição popular.

Desde então o governo do estado, de Ulises Ruiz Ortiz, do PRI (Partido Revolucionário Institucional), tentou esmagar as mobilizações. Em resposta, milhares de trabalhadores, camponeses, estudantes e a população dos bairros pobres da cidade solidarizaram-se com os professores. A população organizou a APPO (Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca) que se transformou, de fato, em um poder paralelo e levantou a bandeira do “Fora Ulises”.

O governo federal de Vicente Fox entrou em ação e enviou a Polícia Federal Preventiva (PFP), criada com objetivo de reprimir conflitos sociais, para invadir a cidade no dia 27 de outubro.

O problema para a burguesia mexicana é que o processo em Oaxaca e a formação da APPO começaram a servir de exemplo em outras regiões do país, como forma de organizar-se para lutar. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Distrito Federal, onde várias organizações estão impulsionando a criação da APPF e também se discute a possibilidade de criar uma APPM (nacional).

Junto com isso, a posse do presidente Calderón mostrou um país dividido. Acusado de fraudes no processo eleitoral, o novo presidente teve de fazer sua cerimônia em um local isolado, com transmissão pela TV. E, para garantir o rito da transmissão da faixa presidencial no Congresso, os deputados do PRi tiveram de dormir três dias em torno do palanque. Ainda assim, a troca durou apenas quatro minutos, com direitos a socos e cadeiradas entre deputados, aos olhos de presidentes de outros países, como George W. Bush.

O temor que a luta em Oaxaca, combinado com a crise no poder central, contagie os trabalhadores mexicanos é o que motiva a violenta repressão desatada contra a população de Oaxaca. O PRI busca não só quebrar a luta popular, mas também destruir a APPO como uma referência e um modelo de organização popular.