Essa é dedicada para a garotada que cresceu como fã da “saga” de Harry Potter (que, sabemos, são milhões e milhões), na expectativa de que eles e elas sigam o exemplo dos protagonistas dos filmes e não a lamentavelmente escrota e transfóbica postura da autora dos livros, J.K. Rowling, publicada nas redes sociais no início da semana.

Em uma carta aberta publicada no dia 9 de junho no site do “The Trevor Project” (dedicado à prevenção do suicídio de LGBTs), o ator Daniel Radcliffe assumiu uma postura bastante digna se desculpando pela dor que os comentários causaram particularmente para aqueles e aquelas que têm os livros como referência.

Algo, diga-se de passagem, bastante coerente com a forma como ele lida com o tema tanto na sua vida pública quanto artística. Além de apoiar o Trevor Project há anos e fazer campanha em defesa do “casamento” entre LGBTs, o ator colocou sua reputação “em risco” (para os hipócritas preconceituosos de plantão) quando interpretou, com direito a uma ardente cena de sexo, o fantástico escritor beatnik e militante gay Allen Ginsberg.

No texto, Radcliffe é bastante direto: “(…) As mulheres trans são mulheres. Qualquer declaração em contrário apaga a identidade e a dignidade das pessoas trans e vai contra todos os conselhos dados por associações profissionais de saúde que têm muito mais conhecimento sobre esse assunto do que Jo ou eu. Segundo o Projeto Trevor, 78% dos/as transgêneros e jovens não-binários [pessoas cuja identidade de gênero não se encaixam nos padrões ‘masculino’ ou ‘feminino’] relataram ter sido objeto de discriminação devido à sua identidade de gênero. É claro que precisamos fazer mais para apoiar pessoas trans e não-binárias, não invalidar suas identidades e não causar mais danos.

Postura semelhante que, vale lembrar, também expressa pelos dois outros protagonistas dos filmes durante a semana. Emma Watson (a Hermione) usou o Twitter para mandar seu recado: “Pessoas trans são o que dizem ser e merecem viver suas vidas sem serem constantemente questionadas ou informadas de que não são quem dizem ser. Quero que minhas seguidoras trans saibam que eu e tantas outras pessoas ao redor do mundo consideramos, respeitamos e amamos vocês por quem são”, escreveu a atriz de Hermione.

Já Rupert Grint (o Ron) deu uma declaração ao jornal “The Times”, afirmando: “Eu apoio firmemente a comunidade trans ao redor do mundo e compartilho dos sentimentos expressados pelos meus colegas. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. Todos deveríamos poder viver com amor e sem julgamentos”.

As declarações foram uma resposta a uma série de barbaridades expressas pela autora bilionária. Os ataques começaram na forma de “piada”, como é lamentavelmente comum quando falamos de LGBTfobia, racismo, machismo e outras formas de discriminação.

“Indignada” com o fato de que uma reportagem publicada, em 6 de junho, no portal Devex com o título “Criando um mundo mais igualitário pós-Covid-19 para pessoas que menstruam” (para se referir às mulheres cis, ou seja, que se identificam com seu “sexo biológico”), J.K. Rowling disparou: “Pessoas que menstruam. Eu tenho certeza que existe uma palavra para isso. Alguém me ajude. Wumben? Wimpund? Woomud?”, em referência a “mulheres”, que em inglês é escrito “women”.

Em outra postagem, a autora desenvolveu ainda mais sua “tese”, defendendo, de forma ainda mais esdrúxula: “Se sexo não é real, não existe atração entre pessoas do mesmo sexo. Se sexo não é real, a realidade vivida por mulheres ao redor do mundo é apagada

A inquestionável transfobia que se esconde por trás da piada-desgraça inclusive não é novidade. Em dezembro passado, Rowling já havia saído a público em defesa de uma mulher que, merecidamente, foi demitida depois de usar as redes sociais para destilar transfobia.

E como prova de que a emenda sempre pode ser pior que o soneto, no dia 10 de junho, depois de ser bombardeada pelos próprios fãs em função da sua última declaração, Rowling (dizendo ter se dedicado ao estudo e à consulta a “especialistas” e pessoas trans) utilizou a vergonhosa e deslavada defesa de que tem uma “maravilhosa amiga que se identifica como transexual” e, se não bastasse, tentou posar de feminista e vítima de misoginia.

Dentro de sua lógica bisonha, ela teve o desplante de afirmar que banheiros e vestiários são inseguros depois de abertos à comunidade trans, fazendo uma defesa indefensável: “Então, eu quero que as mulheres trans fiquem seguras. Ao mesmo tempo, não quero fazer garotas e mulheres menos seguras. Quando você abre as portas para um homem que acredita ser ou se sente como mulher – e eu tenho dito, certificados de confirmação de gênero podem ser concedidos sem cirurgia ou hormônios – você está abrindo a porta para qualquer homem. Esta é a simples verdade”.

Ah! Com um detalhe tão nefasto quanto… A autora, com certeza mais preocupada com possíveis prejuízos financeiros do que com os danos causados à comunidade trans, dedicou boa parte de sua “justificativa” para declarar que já foi vítima de violência doméstica e abuso sexual (fato lamentável, mas que, de forma alguma, pode ser usado pra mascarar a transfobia).

No resto do texto (cujo título já diz tudo: “cinco motivos de preocupação” com a comunidade trans), Rowling ainda se apresenta como uma ex-professora preocupada em “defender a educação” e “proteger as crianças” diante das/dos trans e defendeu a “liberdade de expressão”, mesmo que para Donald Trump. Coisas que, sinceramente, sequer merecem comentários.

Diante de tudo isto, só espero que J.K. Rowling doravante receba o título de “a autora cujo nome não merece ser dito”. Algo, inclusive, que já tem um precedente. No dia 11, uma rede de escolas do Reino Unido decidiu que irá renomear a unidade batizada em homenagem à autora.