Ato em homenagem a Convergência Socialista emociona

Ativistas e ex-presos políticos se reúnem em São Paulo para rememorar repressão e exigir reparaçãoA emoção tomou conta do ato público em homenagem aos militantes da Convergência Socialista (CS) que foram perseguidos e presos pela ditadura militar. A atividade, que contou com mais de 250 pessoas, teve o apoio do deputado estadual Carlos Gianazzi do PSOL de São Paulo.

O ato, que lotou o Auditório Paulo Kobayashi, da Assembleia Legislativa de São Paulo, na noite do dia 17 de novembro, teve um duplo caráter. “Além de ser uma homenagem aos militantes perseguidos e uma comemoração aos 10 anos da constituição da Comissão de Anistia, foi também uma reivindicação pela reparação das vítimas da ditadura”, explicou Bernardo Cerdeira, ex-editor do jornal Convergência Socialista e ex-preso político. Bernardo lembrou que a antiga organização fez parte da história da luta contra o regime de exceção. “A Convergência Socialista foi parte da luta contra a ditadura. Tivemos 55 processados na Lei de Segurança Nacional, dezenas de presos e centenas de militantes demitidos em greve e por organizar sindicatos”, disse.

As homenagens foram dirigidas aos militantes presos, torturados e demitidos por perseguições que fizeram parte das organizações Liga Operária, Convergência Socialista e Alicerce da Juventude Socialista. Em setembro, a “Comissão de Ex-Presos e Perseguidos da CS” apresentou à Comissão de Anistia uma lista de 75 militantes que têm pedidos de anistia protocolados junto à comissão. Eles pedem o reconhecimento do grupo da CS e um julgamento em bloco.

“Defender que a verdade venha à tona, que se possa reconstituir a memória das vítimas desta perseguição, que haja Justiça e punição aos torturadores e assassinos, não é um exercício de nostalgia. É uma iniciativa para que isso nunca mais volte a acontecer em nossa história para que não haja torturas nem criminalização dos movimentos sociais”, disse.

Bernardo também dirigiu uma critica contundente ao governo do PT que até hoje se recusa a abrir todos os arquivos secretos da ditadura. “Só pode haver memória e verdade se há abertura total de todos os arquivos dos governos militares. Basta de segredos de Estado”, concluiu sob aplausos.

História
Mas o momento de maior emoção no ato foi quando os presos políticos da CS foram chamados para frente da mesa. Lá estavam os ex-presos políticos da antiga Liga Operária e da CS e do Alicerce que sofreram torturas e perseguições sob o regime militar

Na história desta repressão destacam-se duas operações movidas pelos órgãos de segurança. A primeira, em maio de 1977, contra a Liga Operária, que resultou em prisões e torturas dos militantes políticos. A segunda foi em agosto de 1978, quando a repressão colocou em prática a “Operação Lótus” e prendeu a direção da CS, além de três militantes estrangeiros, entre eles Nahuel Moreno. Toda história é contada em um documentário sobre as perseguições dos militantes da CS. O documentário foi exibido durante o ato e emocionou muitos ativistas.

Em sua fala, Agmar Oliveira, vice-presidente da Comissão Nacional de Anistia, explicou que os trabalhos desenvolvidos pela comissão nestes 10 anos correm o risco de paralisia. Por isso alertou: “É necessário uma pressão maior sobre a Comissão da Anistia e sobre o Ministério da Justiça para que sejam julgados os 6 mil processos que ainda precisam ser julgados” . O advogado ainda completou: “Não é demérito nenhum ser anistiado. O Estado brasileiro tem uma dívida com aqueles que lutaram e foram torturados ou assassinados”, disse.

Emoção
Márcia Basseto Paes, presa em 1977 por distribuir panfletos do 1° de maio, emocionou o plenário ao relatar sua experiência no cárcere ao lado de Zé Maria de Almeida e Celso Bambrila. Incomunicáveis, os presos corriam risco de morte nas mãos da polícia, que até então não reconhecia as prisões. Foi quando um grupo de operários foi a uma assembleia de estudantes na USP para denunciar as prisões. O fato levou o movimento estudantil às ruas, produzindo as maiores mobilizações contra a ditadura desde 1968. “Os companheiros tiveram muita coragem para ir à USP pedir liberdades democráticas e a nossa libertação. E isso não era fácil naquela época. Eu tenho certeza que se não fosse isso a gente não estaria mais aqui”, disse. Ela arrancou aplausos do plenário quando denunciou o papel do ex-senador Romeu Tuma, como um dos chefes da repressão durante a ditadura. “Tuma foi um torturador sim!”, disse sob aplausos.

“Um pequeno núcleo internacional, chamado Fração Bolchevique é que nos trouxe essa formação [marxista], que seguiu seu curso no PSTU, e que tem seu núcleo revolucionário marxista. Isso é mais importante legado da Convergência”, falou Romildo Raposo, ex-militante da Liga.

José Welmovick, dirigente da Liga e da CS, explicou que os velhos aparatos de repressão continuam em funcionamento no país. Lembrou que s mazelas criadas pela ditadura se mantém no Brasil de hoje, quando assistimos assassinatos de lutadores sociais, criminalização dos movimentos, tortura e impunidades. “Pra lutar contra ditadura não basta derrubar os generais. A única forma de garantir plenas liberdades e construir uma sociedade livre é lutar pelo socialismo”, afirmou.

Finalizando o ato e com a voz embargada, Zé Maria de Almeida contou emocionada sua trágica experiência com a tortura e o cárcere. No total, Zé Maria foi preso três vezes pela ditadura. O dirigente criticou o governo por “blindar” os torturados do regime militar com a Comissão da Verdade. “Nós temos uma dívida com aqueles que não estão mais entre nós. Devemos isso para aqueles que morreram na luta. A presidente Dilma foi torturada, mas seu governo impede a punição e o esclarecimento dos crimes da ditadura”, criticou.

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