Ataque de Dilma aos bancos privados é propaganda enganosa

Na véspera do 1º de Maio, Dilma fez uma declaração “bombástica”: disse que era inadmissível que os bancos privados cobrem juros altíssimos para emprestar dinheiro à população.

Esquece-se de dizer que seu próprio governo é que determina que os juros aqui sejam os mais altos do planeta. E isto se deve à característica do capitalismo brasileiro, com alta dose de “rentismo”, isto é, um modelo onde os capitalistas ganham boa parte dos seus lucros através da especulação financeira.

Desculpa para incriminar alguém pela crise que começa a rondar
O crescimento do PIB caiu de 7,5%, no último ano do governo Lula, para 2,7%, no primeiro ano de Dilma. Com medo de que a desaceleração da economia brasileira se transforme em recessão, o governo Dilma expande as vendas a crédito, para desenvolver o mercado interno.

Além desse cenário econômico, uma queda nos próximos três anos tem um efeito político: ameaça a reeleição em 2014. Por isso, o governo escolhe os banqueiros e os juros para bater, pois são mal vistos pela população. De acordo com o CNI/IBOPE, Dilma contava com aprovação de 77% da população, porém, apenas 33% apoiava sua orientação para a taxa de juros.

De fato, os banqueiros estão levando a maior parte da renda, porém fazem isso em colaboração estreita do governo. O governo é o principal incentivador dos parasitas, através da remuneração da dívida pública, que já ultrapassa os R$ 3 trilhões, ou 78% do Produto Interno Bruto, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida. Por ano, os juros da dívida pública rendem cerca de R$ 700 bilhões.

Ora, os juros altos ocorrem porque o próprio governo paga juros altos a quem empresta dinheiro a ele, sem risco. E utiliza este mecanismo para atrair o capital especulativo mundial. Nos países ricos, a especulação rende menos de 1%, enquanto aqui, rende 9%. Este é o motivo do “tsunami financeiro” a que se refere a presidente.

Depois de quatro cortes pelo Banco Central, a taxa básica de juros saiu de 12,5% para 9% ao ano, ainda uma das mais altas do mundo. Esta redução não se refletiu nos empréstimos ao consumidor nos bancos privados. E nem se refletirá, pois os bancos privados querem se prevenir de uma possível recessão e têm um porto seguro na dívida pública.

Ora, se os bancos privados nacionais e estrangeiros recebem do governo juros altíssimos, porque reduziriam os juros para emprestar à população se é mais arriscado do que emprestar dinheiro ao governo?

Parasitas
De fato, os banqueiros são os grandes ganhadores. Captam dinheiro pagando 10% de juros ao ano e emprestam a 38% ao ano. Portanto, levam 27% na operação. Esta diferença, entre os juros que pagam para captar o dinheiro e os juros que emprestam, chama-se spread. Veja no gráfico acima.

Esta operação mostra que o único sentido do banqueiro é especular com dinheiro alheio. Dilma tem toda a razão em atacar estes especuladores e parasitas. O único porém é que a ela não diz que é a principal colaboradora destes senhores.

O spread no Brasil alcança 27,8% em 2012. Um terço de todo estes juros vai diretamente para o lucro dos banqueiros. Outro terço é resultado da inadimplência (devedor que não paga sua dívida). Isto significa que dois terços destes juros cobrados vão para compor os lucros dos bancos, incluindo os bancos estatais.
Tanto os bancos privados quanto os públicos cobram juros exorbitantes para a população, enquanto praticamente doam dinheiros aos grandes empresários nacionais e multinacionais.

Uma simples conta mostra como os empresários são favorecidos: uma pessoa que tenha uma dívida de R$ 2,2 mil no cartão de crédito e vá renegociar com o banco teria que pagar R$ 6,3 mil em três anos, quase três vezes o valor da dívida. Se pagasse o mesmo juro que cobra o BNDES das grandes empresas multinacionais pagaria apenas R$ 2,5 mil.

A demonstração de que o governo federal não quer enfrentar os banqueiros é que com duas medidas poderia baixar os juros e reduzir os lucros dos bancos: a primeira é reduzir a dívida pública, suspendendo seu pagamento, e a outra seria, nos bancos públicos, reduzir os juros de todas as dívidas, velhas e novas.

Outra demonstração é que, mesmo depois da redução de juros nos bancos públicos, ainda se paga 172% de juros ao ano no cheque especial do Banco do Brasil. O próprio Banco Central já estipulou que não baixará os juros para menos de 9% ao ano, ainda assim se mantendo como uma das mais altas do mundo. As taxas de juros nos países ricos seguem próximas a zero.

Dilma não vai a fundo neste enfrentamento porque o sistema capitalista brasileiro, desde FHC, está ancorado em juros altos para atrair capital internacional e remunerar os bancos. Tanto Lula quanto Dilma mantiveram este sistema e agora pagam o preço por se recusar a enfrentar capitalistas e banqueiros. Ao contrário, se tornaram os maiores aliados dos banqueiros tanto que, em 2010, o Bradesco “doou” R$ 18,9 milhões para a campanha de Dilma.

Nenhum governo está disposto a enfrentar essa ciranda financeira nem o capital especulativo, porque são parte do sistema e se alimentam política e financeiramente dela. Os governantes ganham dividendos eleitorais com a “inclusão” dos pobres que estão parcelando suas compras, mesmo se endividando acima da sua capacidade.

Qual a saída?
Na sociedade capitalista e imperialista, quem domina os bancos, domina também a economia e o País. Os bancos dominam as finanças, o comércio e a indústria. Quanto mais tempo permitiremos que o sistema financeiro e especuladores parasitem o corpo econômico, maior será a profundidade da crise e maiores as dificuldades para sair dela.

A única saída para acabar pela raiz com este problema que está afundando o Brasil é nacionalizando e estatizando o sistema financeiro, sem indenização. Isto permitiria formar um banco estatal único, que reuniria toda a riqueza, direcionando-a para a produção de alimentos, matérias-primas e produtos necessários para a população a preços baixos. Permitiria, também, crédito fácil e barato aos trabalhadores. A outra grande medida que permitiria baixar os juros de forma sustentada é a suspensão do pagamento das dívidas interna e externa aos grandes bancos.