As cenas de uma farsa

Há pouco mais de três meses, surgiram os primeiros indícios do gigantesco esquema de corrupção montado pelo governo Lula, o PT e seus aliados. De lá para cá, o volume e o mau cheiro do lamaçal não pararam de aumentar.A história toda, por mais trágica que seja para o país, tomou ares que vão do dramalhão rasgado à mais incrédula ficção. Há um pouco de tudo: choro incontido, traições, mentiras, escroques e até uma cafetina que ameaça os poderosos.

Coadjuvante dá início à trama
Em 14 de maio, a imprensa divulga fitas com Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação dos Correios, flagrado ao receber R$ 3 mil de supostos empresários. Nas conversas, confessa estar agindo em nome do então presidente do PTB, Roberto Jefferson.

Roberto Jefferson rouba (também) a cena
No dia 21, o nome de Jefferson surge em outra denúncia: é acusado de pressionar a direção do Instituto de Resseguros do Brasil para dar uma mesada de R$ 400 mil ao PTB, em troca de indicações para cargos. Duas semanas depois, em 6 de junho, acuado e sentido-se fritado, denuncia a existência do mensalão, até então definido como um pagamento de R$ 30 mil mensais para parlamentares da base aliada, e acusa Delúbio Soares, tesoureiro do PT, de ser o operador da falcatrua.

Zé Dirceu e líderes aliados são escalados
Em 12 de junho, Jefferson amplia a história do mensalão, afirmando que o dinheiro vinha de empresas estatais e privadas. Entram em cena Sílvio Pereira, então secretário-geral do PT e braço direito de Zé Dirceu, e o publicitário Marcos Valério. Dois dias depois, em depoimento ao Conselho de Ética, Jefferson aponta José Dirceu como chefe do esquema, revela que o PTB recebeu R$ 4 milhões do PT em 2002, e entrega os líderes do PP, José Janene, e o do PL, Valdemar Costa Neto.

Zé Dirceu e Bob Jefferson ferem-se no duelo
Em 13 de junho, a secretária de Marcos Valério, Karina Sommagio, relata a intensa movimentação de malas de dinheiro entre seu local de trabalho, os bancos Rural, BMG e hoteis de Brasília. Três dias depois, o todo-poderoso José Dirceu é obrigado a abandonar a Casa Civil. No dia seguinte, Roberto Jefferson, antigo comparsa de Zé Dirceu, transformado em rival raivoso, licencia-se da presidência do PTB.

Entra o comercial
No dia 24, começam a surgir extratos, mostrando a milionária movimentação nas contas de Marcos Valério. Nos dias seguintes, os valores crescem na mesma proporção da lista de envolvidos. Dois ganham destaque: a imprensa revela que uma empresa de que Luis Gushiken, então secretário das Comunicações, foi sócio até assumir o governo teve lucros astronômicos, principalmente por contratos com os fundos de pensão. Já o filho de Lula, Fábio, ficou R$ 5 milhões mais rico somente com um contrato entre sua empresa e a Telemar.

Começa a degola
Para os petistas, a situação começa a ficar parecida com um filme de terror de quinta categoria. Cabeças começam a rolar. A primeira é a de Delúbio Soares, em 4 de julho.

No caminho, uma cueca…
O suposto terror vira comédia quando, em 8 de julho, José Adalberto Vieira, assessor do deputado do PT cearense José Nobre (irmão de José Genoino) é pego com US$ 100 em sua cueca.

A degola continua…
Nocauteado pela cueca, Genoino deixa a presidência do PT em 9 de julho. No mesmo dia, Marcelo Sereno, então secretário de Comunicação do PT e braço direito de Zé Dirceu, também sai de cena. Três dias depois, Gushiken é rebaixado, perdendo seu papel de ministro.

Os ricos também amam… ficar mais ricos
Além da falcatrua generalizada nas altas esferas do Estado, o indignado público percebe que os personagens da lamentável história também estavam enchendo seus próprios bolsos. No dia 14, revela-se que um funcionário da Previ sacou R$ 326 mil das contas de Valério e entregou para o diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, que, um mês depois, comprou um apartamentozinho no valor de R$ 400 mil. Em 19 de julho, Sílvio Pereira entra para o núcleo dos novos-ricos, quando se descobre que, além de ter uma mansão em Ilhabela (avaliada em R$ 500 mil), também recebeu um presentinho, um Land Rover no valor de R$ 90 mil, da empreiteira baiana GDK, que fechou contratos no valor de R$ 272 milhões com a Petrobras.

Manobra no roteiro: surge a história do “empréstimo”
Entre 15 e 17 de julho, surge a história do empréstimo. Em um trabalho orquestrado, Valério dá entrevista ao Jornal Nacional afirmando que fez milionários empréstimos para que o PT pagasse suas despesas de campanha. O Caixa 2 é assumido por Delúbio e, no domingo, Lula aparece no Fantástico com uma história semelhante. A tática era simples: assumir um crime menor, um deslize eleitoral, “que todo mundo faz”, como lembrou Lula, para esconder o resto. Mas como o Brasil já viu esse filme (a Operação Uruguai de Collor), ninguém engole a história.

“A lista de Valério”
O país descobre que Marcos Valério é um dos maiores benfeitores de sua recente história. No fim de julho, sua lista inclui todo tipo de gente: do presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo, a vários políticos da base aliada, passando pela agência do marqueteiro Duda Mendonça (que levou R$ 15 milhões) a petistas das mais variadas instâncias e regiões do país. As estimativas mais baixas falam em R$ 55 milhões, só nas contas já descobertas. A fábula, consta, pode chegar a R$ 1 bilhão.

“Fui induzido ao erro”
Ameaçado de ser aposentado, Valdemar Costa Neto renuncia ao mandato. Com isso, espera ser escalado para representar, em 2006.

Agosto: Apertemos cintos…
No Conselho de Ética da Câmara, Jefferson acusa Zé Dirceu de ter articulado uma viagem de líderes do PT e do PTB à Europa para fazer negócios escusos com a Portugal Telecom. Por sua vez, o doleiro Antonio Oliveira, o Toninho da Barcelona, preso na penitenciária de Avaré (SP), declara-se disposto a revelar CPI dos Correios os nomes de políticos e instituições financeiras para os quais operou uma rede clandestina de remessa de dinheiro para Ilhas Cayman e Panamá. Segundo ele, entre seus clientes estão vários partidos políticos, até o PT, que teria designado, em junho, dois advogados para comprar seu silêncio em troca de ajuda para livrá-lo da prisão. E, para completar, Ricardo Machado, ex-sócio de Valério, revela que ajudou a promover duas festas com prostitutas para convidados em hotel de Brasília, todos da quadrilha do mensalão.

Da ilha da Fantasia às Ilhas Cayman
Saindo dos bastidores, Duda Mendonça, o criador da campanha “Lulinha, paz e amor”, em depoimento à CPI, com lágrimas (de crocodilo), admiti que recebeu dinheiro do PT através de contas bancárias abertas em paraísos fiscais no exterior. Sentindo-se encurralado Lula vai à TV e faz um acanhadíssimo pedido de desculpas.

Se este apartamento falasse
Mas, além de pífias, as desculpas esbarram em mais uma denúncia: o ex-deputado e presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirma, à revista Época, que Lula participou diretamente das negociações entre PT e PL para dar apoio político nas eleições em troca de dinheiro. O encontro teria acontecido no apartamento do deputado petista Paulo Rocha, com a participação de Zé Dirceu, o vice José de Alencar e Delúbio.

O rei está nu e o povo vai para as ruas
Em sua entrevista, Valdemar verbaliza o que todos já sabiam: “O presidente sabia o que a gente estava negociando (…) O Lula foi lá para bater o martelo (…) Delúbio, Lula e José Dirceu são a mesma família, por que agora, na desgraça, só um vai pagar?”. O rei está nu, como na fábula infantil. E tal qual no conto de Hans-Christian Andersen, o povo começa a perceber. A partir de 8 de agosto, protestos pipocam por todos os cantos por onde Lula passa. E, no dia 17…bem, está é uma história que fica para as próximas páginas.

Post author Wilson H. Silva e Roberto Barros, da redação
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