Arrigo Barnabé e a Lira Paulistana

Arrigo Barnabé, com Vânia Bastos, em Berlim
Divulgação

Disco `Clara Crocodilo`, um marco da música brasileira e na geração dos anos oitenta, completa 25 anosO ajuste entre as tendências internacionais e a realidade local há muito tem sido a norma que pauta o desenvolvimento cultural do Brasil. Há momentos de apego exagerado às nossas “particularidades”, que nada mais são do que manifestações concretas do internacionalismo do capital; como também há o contrário: adesão apressada ao que se produz a ultramar, virando as costas aos desafios de configuração do Brasil. São raros os momentos de equilíbrio entre essas duas tendências, quando a experiência acumulada se harmoniza com os modelos estrangeiros, momentos em que os ponteiros da história se ajustam. Sem dúvida ‘Clara Crocodilo´, de Arrigo Barnabé, é um desses casos.

Natural de Londrina, Paraná, Arrigo Barnabé chega a São Paulo em fins de 1970, para cursar arquitetura. Pouco depois se transfere para o curso de Composição e Arranjo na Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP) permanecendo ali um breve período, um ano e meio. Em 1979 participa do primeiro festival de música universitária, realizado pela Rádio e Televisão Cultura (atual TV Cultura), conquistando o primeiro lugar com a música ‘Diversões Eletrônica´s (o arranjo da percussão fora feito por Itamar Assumpção, outro personagem dessa história, também vindo de Londrina).

‘Diversões Eletrônicas´ faria parte do LP ‘Clara Crocodilo´, produzido e distribuído de maneira independente, lançado no ano seguinte. Um disco que combina elementos do universo musical erudito, como as técnicas vanguardistas da Música de Viena (dodecafonismo, atonalismo, serialismo) com produtos da cultura de massas, principalmente a narrativa das histórias em quadrinhos e programas de rádio, ao estilo Gil Gomes. Dessa mistura Arrigo teceu ‘A Saga de Clara Crocodilo´, um office-boy que um laboratório multinacional transformou em um monstro: meio réptil, meio homem.

Filho do Tropicalismo, como declarou, Arrigo indagava porque os integrantes desse movimento, que inovaram na letra e no arranjo, não inovaram na música também. Colocando-se na perspectiva da linha evolutiva da MPB, Arrigo ousou na estrutura da música. Músicas como ‘Aventuras em um drive-in´ e ‘A procura do orgasmo total´, além de ‘Saga´, são mostras da ruptura musical/poética promovida por Arrigo. Os tons de sua música, junto às pinceladas da poesia concreta, pintavam um quadro diferente de São Paulo, iluminando o lado oculto da cidade. A imagem representada destoava da construída ao longo de décadas anteriores, “a cidade da garoa, uma cidade boa”, “a cidade que não pára”, imagens otimistas forjadas à época do sonho da industrialização, que há muito tinha se tornado pesadelo. Ao contrário, a São Paulo que emergia das músicas, era a cidade triste, sombria, decadente, reificada, mergulhada no paraíso encantado do consumo.

Arrigo foi um dos protagonistas da cena que a imprensa denominou de Vanguarda Paulista. Sob essa classificação foram aglutinados grupos e intérpretes como o Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque (Premê), Língua de Trapo, Ná Ozzetti, Susana Salles, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, além do próprio Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno. Enfim, músicos com diferentes propostas estéticas e de trabalho, que não constituíam de fato um movimento.

Rótulos à parte, o certo é que essa geração de compositores e intérpretes estava revolucionando a música popular brasileira. Tinham em comum também a produção independente dos discos e a cidade de São Paulo, com seus costumes e personagens outsiders, que combinados numa verve crítica, compunham o eixo central de suas canções.

A produção independente, por outro lado, não marcou somente a música. Às margens do Estado e da indústria cultural foram criados circuitos “alternativos”. Dentre esses o Lira Paulistana foi emblemático. Localizado na rua Teodoro Sampaio, na divisa do bairro Pinheiros e Vila Madalena (entre a Usp e a PUC), um modesto porão, com pouco além de 200 lugares, tornou-se o centro difusor da nova cultura universitária, presente na cidade em fins dos anos 1970 e início dos 1980. Concebido inicialmente como teatro, o Lira transformou-se em gravadora, editora, produtora, loja de discos e livros. Foi responsável entre outras coisas pelo primeiro LP de Itamar Assumpção. Além dos shows e espetáculos teatrais era espaço para exibição de produções cinematográficas, geralmente em Super 8. Tudo era produzido de forma artesanal e em equipe, com o diálogo dos artistas e técnicos envolvidos no setor, em suma, tinha-se o controle da totalidade do processo de trabalho.

Embora não tenha se apresentado no Lira, Arrigo, como aquela geração de artistas, vislumbrou a possibilidade que aquele pequeno porão representava, produzir/distribuir cultura à revelia do mercado. Mas se é certo que no capitalismo isso não é possível (a experiência do Lira foi efêmera – fundado em 1979, em 1987 foi transformado em lambateria – e um fenômeno reduzido a São Paulo) por outro lado essa geração vanguardista não foi cooptada pela indústria cultural. Pois uma das principais características desta é a tensão que a movimenta, a contradição entre padronização cultural e inovação (que muitas vezes não é feita sob regras mercadológicas).

Sem arcar com os riscos do investimento (vale lembrar que o setor fonográfico passava por uma crise financeira nos anos oitenta, acompanhando a recessão mundial, tendo pouco interesse em incorporar novos projetos) a indústria cultural pode selecionar, a qualquer momento, aqueles percebidos como um grande negócio, que podem ter uma grande penetração no mercado, vendendo muito, único objetivo dessa indústria. Esse processo irá se acentuar nos anos 90, com a tecnologia digital, que barateou os custos de produção e simplificou consideravelmente o trabalho de produção e reprodução dos cds, a produção independente se integrou às grandes gravadoras por meio dos contratos de distribuição. Surgiriam então os selos independentes, que assumem uma relação de terceirização produtiva com as majors, grandes gravadoras.

As últimas apresentações no Lira foram das bandas que estavam iniciando a cena punk em São Paulo (Ratos de Porão, Inocentes, Cólera). Com a recuperação das grandes gravadoras surge o “Rock Nacional”, partindo principalmente de Brasília, em um fenômeno com dimensão nacional. Os anos oitenta – que do ponto de vista econômico passaram para a história como a década perdida -, para a experiência brasileira de esquerda foi o início de um ciclo histórico: surgimento do PT, CUT, retorno da UNE, movimento das Diretas-Já… Enfim o ciclo que hoje presenciamos seu fim, momento em que o velho não morreu e novo ainda não despontou.