Amanda Gurgel: ‘‘A gente tem de transformar toda essa angústia em ação’

A professora Amanda Gurgel responde às entrevistas da mesma forma em que discursa no vídeo que foi visto por mais de um milhão de pessoas: de forma simples, direta e autêntica. A ativista fala ao Opinião sobre o fenômeno nas redes sociais, a situação prec

Opinião – Em que ocasião o vídeo foi gravado e a que você atribui tanta repercussão?
Amanda Gurgel – Foi numa audiência sobre educação na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Foi aberto um espaço para quem quisesse falar, e eu me inscrevi. A repercussão se deu pelo fato de a fala de ter sido dirigida à secretária de Educação, aos deputados, quer dizer, figuras as quais as pessoas normalmente não costumam se dirigir porque se sentem constrangidas. O outro aspecto, acho, teve a ver com a carga emotiva, porque essa é uma coisa que eu presencio na minha rotina. E por último a carência de representação que os professores do país inteiro têm passado. Com o atrelamento que as direções têm com os governos, cada vez mais as categorias têm se sentido sem representantes. Quando aparece uma pessoa que realmente fala em nome delas, elas se sentem representadas.

Como você descobriu que o vídeo estava repercutindo na internet?
Depois da audiência, eu recebi a ligação de um professor que eu não conhecia dizendo que tinha conseguido transformar o vídeo num arquivo que podia ser compartilhado e pediu autorização para postá-lo no YouTube. Eu autorizei e, no dia seguinte, já era uma coisa incrível, o vídeo já tinha muitos acessos. Eu não tinha ainda a dimensão. Dois dias depois, a gente teve uma assembleia, e as pessoas vinham parabenizar, tirar foto. E eu sem entender o que estava acontecendo, até porque eu não participava das redes sociais.

Os professores do Rio Grande do Norte estão em greve, fale um pouco sobre a situação da Educação lá.
Estamos em greve porque não temos outra opção, diante da situação em que estamos. Para você ter uma ideia, começou o ano letivo na escola em que eu trabalho e não havia metade dos professores. Não tinha carteira suficiente, como até hoje não tem. Quando tem prova e todos os alunos vão para a aula, tem que ter revezamento de carteiras. E minha escola nem é uma das piores. No interior do estado, em Ceará Mirim, teve uma escola que os bombeiros tiveram que interditar, porque não tinha condições de funcionamento. Com o teto desabando, a fiação dando choque. Professores e alunos no banheiro tomando choque! É um caos generalizado!

E como a categoria reage a isso? Existe desânimo?
Existe. Ninguém estuda quatro ou cinco anos sonhando que vai ter que pegar três ônibus para chegar ao seu local de trabalho, que você vai morar em uma periferia e trabalhar em outra. Que quando chover, sua rua vai alagar e você não vai ter condições de morar em um lugar melhor. E que você vai trabalhar sem condições. Você pode até sonhar em ser professor, mas não nessas condições. É óbvio que as pessoas tenham certo desânimo. Mas eu noto também uma persistência. E esse momento, para categoria e pra mim em particular, está sendo uma injeção de ânimo. Já não vejo a hora de voltar para a escola, reencontrar os alunos. Estou querendo voltar para a sala de aula.

Os professores são uma das categorias mais atingidas pelas doenças de trabalho. Você percebe isso no seu dia-a-dia?
Sim, vemos isso o tempo todo. Os professores sofrem desde doenças psicossomáticas, como depressão, transtorno bipolar, síndrome do pânico, síndrome de burnout… Além de pressão alta, cardiopatia, problemas relacionados à voz. Todos esses problemas nós vemos nos professores. Existe uma pressão por parte do governo para que o professor não saia da sala de aula, independentemente de sua condição, porque para eles o importante é que as crianças estejam dentro da sala, controladas. Independentemente de elas estarem aprendendo ou não.

E a que você atribui a situação precária da educação hoje?
À redução progressiva dos investimentos. A gente sabe que a política dos organismos internacionais para os países em desenvolvimento são políticas de investimentos cada vez menores na área. Então, obviamente, o resultado vai ser esse. Sem investimento, não há como ter qualidade. Como a gente vai mudar isso com esse Plano Nacional de Educação do governo que quer, em dez anos, avançar lentamente até ter 7% investidos? Do jeito que está, as perspectivas de mudança são praticamente nulas. É por isso que estamos chamando um grande movimento via internet, que também se estenda para as ruas, de investimento de 10% do PIB na Educação imediatamente. Não podemos mais esperar.

E qual a solução para a educação?
Tenho dito que a gente tem de transformar toda essa angústia em ação. Isso significa que temos de ir para as ruas. Precisamos conciliar esse movimento na internet, que não podemos subestimar, ao nosso movimento de rua, de massas, porque está comprovado pela história que é o que funciona, o que pressiona os governos.

Sua categoria é majoritariamente feminina. Você percebe o machismo?
O machismo acontece sim. A opressão à mulher é uma realidade em todo lugar. A nossa condição de mulher como docente é ainda mais complicada. Porque a mulher ainda se coloca na condição daquela que cuida de lar. Então, imagina, muitas professoras trabalham três horários e quando chegam em casa ainda vão preparar o almoço. Chegam em casa 11h da noite e ainda vão preparar o almoço do outro dia para os filhos, o esposo.

O fato de você ser mulher e nordestina contribui para levantar outras questões também?
Acredito que sim. Fora um ou outro comentário infeliz no YouTube, há muitas mensagens de apoio de todas as regiões. Mas as nordestinas, acredito que estão se sentindo representadas. Logo que saí do programa do Faustão recebi uma mensagem das minhas amigas, colegas de profissão, que estavam reunidas e disseram que eu era a melhor representante: ‘mulher, professora, nordestina e forte’.

Como você começou a atuar politicamente e como conheceu o PSTU?
Conheci o partido ainda na universidade. Eu era ativista no movimento estudantil e era próxima ao PT. Nessa época eu tinha aversão ao PSTU. Quando entrei na categoria de professores, percebi automaticamente como era vergonhosa a atuação da direção do sindicato, que na época era do PT e do PCdoB, e como era escancarada a promiscuidade deles em relação aos governos. Então, logo no começo eu já tinha me declarado como oposição, e não sabia direito o que era isso. As pessoas chegavam e diziam ‘você é oposição’, e eu ‘mas o que é oposição?’… Havia outros grupos de oposição, mas aos poucos a gente vai se situando. Eu me situei na oposição Conlutas a princípio. Aproximei-me do PSTU depois, observando a forma como os militantes se dedicam à causa dos trabalhadores. Eu fiz uma reflexão e vi que era muito confortável de minha parte ficar esperando uma greve para poder realizar qualquer atividade em defesa dos trabalhadores, enquanto aqueles militantes estavam diariamente nessa luta. Achei que era um dever meu dividir essa tarefa com eles, meus camaradas de Natal, que admiro muito e dos quais tenho muito orgulho.

Post author Por Diego Cruz, da redação
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