Ajuda bilionária de governo norte-americano a bancos não contém crise

No último dia 7, o governo dos Estados Unidos anunciou seu mais recente plano para tentar evitar o agravamento da crise financeira e econômica que afunda o país numa recessão. Na mais ousada ação do governo Bush após o estouro da crise, o governo anunciou um socorro bilionário às duas maiores companhias de crédito financeiro imobiliário. O resgate à Fannie Mae e Freddie Mac, anunciado pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, vai custar cerca de US$200 bilhões aos cofres públicos. Analistas avaliam essa ajuda como a maior intervenção do Estado na economia desde a crise de 1929.

Segundo o governo, o socorro ocorre para evitar que a quebra das duas grandes companhias mergulhe o país numa “crise sistêmica”, com reflexos no resto do mundo. O valor do ajuda não se compara à última grande ação do governo para amenizar a crise, quando o governo articulou a compra do banco de investimentos Bear Stearns para o JPMorgan. Na ocasião, o governo despendeu US$29 bilhões para salvar o tradicional Bear Stearns da falência.

As duas companhias resgatadas pelo governo concentravam boa parte dos negócios de crédito imobiliário no país e estavam à beira do abismo, amargando prejuízos de US$14 bilhões no último ano. O mercado de crédito imobiliário de risco, chamado de “subprime”, foi o primeiro setor a expressar a atual crise econômica. O subprime são os empréstimos realizados a famílias de baixa renda, lastreados pela hipoteca de imóveis. O setor, que havia crescido de forma exponencial e insustentável nos últimos anos, formou uma bolha que explodiu e contaminou todo o mercado financeiro.

Os empréstimos deixavam de serem pagos e o castelo de areia erguido para sustentar o consumo, o crescimento da economia e, principalmente a ciranda de especulação, caiu. A inadimplência nesse tipo de empréstimo chegou a 9,2%. A maior nos últimos 39 anos, desde que se começou a levantar esse dado.

O alto comando das duas companhias foi dispensado, recebendo milionárias indenizações, e um órgão estatal, o FHFA (Agência Financeira Federal de Casas) ficou responsável por, temporariamente, dirigir as empresas. Tal transação foi totalmente negociada com a antiga direção das companhias e terá como objetivo rearranjar o mercado de crédito imobiliário no país. A política do governo é desconcentrar o mercado do subprime e pulverizar o chamado crédito de alto risco.

O governo decidiu fazer o anúncio da ajuda no domingo a fim de influenciar as bolsas de valores já na segunda, iniciando a semana com uma notícia que tranqüilizasse os investidores. No entanto, se na segunda do dia 8 as ações negociadas nas principais bolsas do planeta teve uma ligeira alta, já na terça elas sentiram o peso da realidade e voltaram a despencar.

Estatização à moda Bush
A ação bilionária do governo norte-americano está sendo apontada por analistas como a “morte do neoliberalismo” e uma guinada de Bush a uma política mais intervencionista. De fato, o governo anunciou que pode voltar a intervir em outros setores. No entanto, a atual política de Bush expressa a outra face do “neoliberalismo”, o relativismo da lógica da não-intervenção do governo na economia. Lógica esta sempre abandonada em tempos de crise, que coloquem os lucros sob perigo.

A estatização das duas maiores companhias de crédito imobiliário dos EUA, longe de dispor dos seus lucros para o benefício da população norte-americano, serve para socializar os prejuízos bilionários do mercado. Na prática, o governo coloca mais água no moinho da complexa e intrincada especulação financeira. A mesma apontada agora como responsável pela crise. O socorro aos bancos foi negociado e acordado pelo governo Bush com os dois candidatos à presidência, o republicano McCain e o democrata Barack Obama.

Desde o início da crise, o Federal Reserve, banco central norte-americano, assim como o banco central europeu, já despejou bilhões no mercado financeiro. Tal política, porém, vem se mostrando insuficiente para conter a crise, que já atinge em cheio a Europa e o Japão.

Já no coração do império, a recessão se agrava cada vez mais. A ultima pesquisa de desemprego divulgada no início de setembro revela que o número de pessoas fora do mercado de trabalho é o maior em quatro anos e meio. Com a eliminação de 84 mil postos de trabalho em agosto, a taxa de desempregados chegou a 6,1%.

Estes, porém, não contarão com a ajuda de Bush.