ACM: a morte do pequeno ditador da Bahia

Em dezembro de 2006, milhares de chilenos acorreram às ruas para comemorar a morte do ditador Augusto Pinochet. Apesar dos seus 91 anos de idade, Pinochet continuava despertando a ira dos que combateram a ditadura, de maneira que os chilenos tinham poucos motivos para ficarem indiferentes ante a morte do ditador que conduziu por 17 anos os destinos do país sul-americano após o golpe de depôs o governo frentepopulista de Salvador Allende em 1973. Por isso a reação intempestiva da multidão que foi às ruas num misto de alegria e alívio pelo falecimento do general que implantou uma das ditaduras mais brutais e sanguinárias da história das Américas. Os chilenos que saíram as ruas para comemorar e que terminaram entrando em confronto com os simpatizantes do ditador também pretendiam denunciar os horrores da ditadura e o fato de que Pinochet não chegou a pagar por nenhum dos seus crimes, como o assassinato de milhares de trabalhadores e jovens que se levantaram contra o terror do Estado.

No último dia 20, em São Paulo, morreu mais um ditador da América Latina. Contudo, o que se viu nas ruas das cidades brasileiras não foi a explosão da alegria contida pelos anos de opressão e nem mesmo manifestações de pesar foram registradas em doses elevadas como esperava a overdose de jornalismo piegas das suas emissoras de televisão. Muito pelo contrário, a surpresa geral foi a boa dose de indiferença que deu o tom do anúncio do falecimento de Antonio Carlos Magalhães, que foi sempre um ditador menor entre os muitos que a América Latina teve. Apesar da sua pouca estatura como ditador latino-americano, ACM passará à história do Brasil como um político truculento e autoritário, que ajudou nas articulações do golpe de 1964 quando era deputado pela UDN da Bahia. Também ficará conhecido pela fama de ter sido um político corrupto que tomou emprestado do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, a fama do “rouba, mas faz”.

ACM ergueu um império das comunicações na Bahia, depois de ser ministro da pasta no governo Sarney, situação em que lhe permitiu se manter na esfera do poder e dos sucessivos governos desde aqueles dos generais até os civis, passando pelo o apoio ou proximidade com Sarney, Collor, FHC e, por último, o próprio Lula, que não deixou de lhe visitar pessoalmente no Incor, em São Paulo. Ainda assim ACM não conseguiu ser muito mais do que um pequeno ditador e pretenso coronel da Bahia, estado que governou por três vezes, duas delas como governador biônico indicado pelos militares.

A boa nova do episódio da morte de ACM, entretanto, é que a burguesia baiana, que sempre apoiou o político truculento, foi bastante parcimoniosa no derramamento das lágrimas e nas homenagens que lhe prestou, haja vista o desprestígio em que se encontrava depois de ter sido derrotado na Bahia e passar algum tempo com pouca influência nacional. Em todo caso, homenagens comedidas foram prestadas por aqueles que não pretendiam descontentar frontalmente os novos donos do poder, afinal de contas, como diz o ditado, “rei morto, rei posto” e o novo momento sugere que os novos focos de bajulação e oportunismo agora podem estar acenando de dentro do governo petista de Jaques Wagner que pretende se apossar de uma boa parte do espólio do pequeno ditador que se foi.

O fato é que ACM morreu, mas novos arranjos estão sendo produzidos para que se perpetuem a dominação neo-oligárquica na Bahia. Para isso, estão aí inúmeros candidatos a novos pequenos ditadores ou aliados menores do capital financeiro e especulativo, nacional e internacional, e de outros setores da burguesia, como os empreiteiros, sempre prontos a abocanharem o melhor quinhão do orçamento do Estado com a “ajudinha” dos políticos amigos. Neste sentido, pululam novos e velhos aspirantes ao posto de novo coronel da Bahia, como o ministro do governo Lula, o peemedebista Gedel Vieira Lima, e os antigos pefelistas, Paulo Souto, Cezar Borges, José Carlos Aleluia e o próprio neto do ex-senador. Estes, embora não possuam as condições conjunturais que oportunizaram a ACM erguer um império de maldade na Bahia, representam um imenso perigo para os trabalhadores, já que significam o que há de mais reacionário na Terra de Todos os Santos.

Não pensemos, porém, que os candidatos a sucessão de ACM estejam apenas entre aqueles que lhe emprestaram apoio em vida. A se analisar a forma como a Bahia vem sendo governada pelo petista Jaques Wagner, deve-se dizer que o carlismo fez escola fora das suas fileiras, pois o estado segue sendo um manancial de bondades para os agronegociantes, empreiteiros e empresários, e um poço de maldades para os trabalhadores. Entretanto os trabalhadores baianos não se fizeram de rogados e demonstraram que aprenderam nas adversidades a forjar as armas que depuseram todos os ditadores, a luta.