A UNE, 25 anos depois de Salvador: Duas ou três coisas que eu sei sobre ela

Umas das teses apresentadas ao próximo congresso da Une – aquela que é defendida pela maioria da atual direção – publica uma declaração, que me é atribuída, elogiando a UNE – a UNE de hoje, não a UNE do passado – como uma das entidades estudantis mais democráticas do movimento estudantil mundial. Esta declaração é falsa. Não fui consultado. Aqueles que a divulgaram estão usando o meu nome de forma desonesta. A corrente político-estudantil majoritária na direção da UNE – a União da Juventude Socialista, UJS – decidiu publicar uma declaração feita anos atrás, fora do contexto, para gerar, conscientemente, confusão política.

Depois da eleição do Governo Lula, a localização política da UNE mudou de tal maneira que ela ficou irreconhecível. Passou de uma oposição, às vezes condicional ou limitada às políticas educacionais do MEC sob Paulo Renato e FHC, para um apoio acrítico à gestão de Tarso Genro. A decadência política da UNE é hoje indissimulável: na maioria dos centros mais avançados e organizados do movimento estudantil, que permanecem sendo as Universidades públicas, a direção da UNE não é mais uma referência. Na verdade, a direção da UNE é desprezada pela ampla maioria do ativismo estudantil real, ou daqueles que lutam preservando a independência das reitorias e dos governos.

Para ser justo, é preciso dizer que essa realidade não é nova. No entanto, se essa crise de representação que veio estreitando as bases sociais da UNE nos remete aos impasses do movimento universitário – um movimento que ora vê ampliada, ora diminuída sua capacidade de atrair a maioria dos estudantes – se agravou de maneira aguda depois da eleição de Lula. A subordinação política ao governo, dificilmente, poderia melhorar esta situação, e deixar de se expressar em métodos degenerados para manter o controle do aparelho. A manipulação de uma declaração é um dessas conseqüências, mas não é a mais importante.

É verdade que no passado, antes da cooptação da UNE pelo Governo Lula, elogiei a UNE mais de uma vez – creio que merecidamente – em entrevistas gravadas, e em textos escritos, como sendo uma das entidades mais democráticas do movimento estudantil à escala internacional. Não é desconhecido que, nas últimas duas décadas na maioria da América do Sul, sequer existiam organizações estudantis nacionais com alguma mínima representatividade e, quando existiam, eram controladas, freqüentemente, pelos governos, e dirigidas por forças reacionárias. Na Argentina, por exemplo, um dos países que mantêm, comparativamente, maior proporção da juventude em idade escolar matriculados em Universidades, o controle das entidades estava sob influência dos Radicais, e os congressos estudantis eram indescritíveis, de tão artificiais, burocráticos e manipulados. Não era preciso muito boa vontade nos anos oitenta e noventa, bastava um pouco de bom senso, para reconhecer que a UNE era uma entidade diferenciada na América Latina, estruturada sobre um movimento estudantil com vida na base, saudável luta interna, disputa de projetos, controvérsias organizadas, alternativas de direção e campanhas unitárias. Comparativamente, a situação na CUT era desoladora.

Paradoxalmente, agora que esse quadro melhorou um pouco, com algumas experiências animadoras de mobilização e organização estudantil ao lado dos trabalhadores – e independente do Estado – na Argentina, Equador, Bolívia e na Venezuela, a UNE brasileira passa para a retaguarda da retaguarda: aceita, alegremente, o atrelamento ao governo Lula que assegura com a reforma universitária uma anistia fiscal de dezenas de milhões anuais para o setor privado de ensino – pendurado em empréstimos milionários no BNDES, que poderiam ser executados, federalizando vários destes supermercados de diplomas – enquanto prossegue o abandono das universidades públicas. A reforma universitária do Governo do PT, no qual o PCdB detém posições chaves, defende até a participação do capital estrangeiro na educação, mas, atenção (ufa!) limitado a “só 30%”. Isto porque é um governo de forças “nacionalistas”: ai de nós, se não fossem.

Escrevo estas linhas com amargura, porque, quando voltei para o Brasil, dediquei alguns anos de militância à UNE. É com emoção que me recordo do Centro de Convenções em Salvador em 1979, ainda em obras – na verdade, não mais do que uma estrutura de concreto nua – onde muitos milhares se reuniram, desafiando a ditadura para o Congresso de Reconstrução. Foi lá que votamos a histórica Carta de Princípios que definia para a UNE um campo de classe. Foi lá que juramos que a nossa UNE estaria sempre ao lado dos trabalhadores, e da luta do povo mais pobre e mais oprimido. Essa UNE que era de todos nós – de uma gente que não temia a ditadura – infelizmente, já não existe mais. Agora que a geração de Salvador chegou ao poder, receio que, afinal, não fomos todos os que levamos aquele juramento da independência da UNE a sério.

De qualquer forma, mesmo recorrendo à perspectiva que os anos nos oferecem, levando para longe a inocência, creio que os sentimentos vividos naqueles dias na Bahia, ainda sejam uma parte do melhor que carregamos em nós. Guardo, também, excelentes recordações pessoais das polêmicas com Aldo Rebelo, Alon Feuerwerker, Marcelo Barbieri, Paulo Massoca, entre outros – ásperas, talvez até exaltadas, nunca ofensivas – que hoje estão no Palácio, ou apóiam o governo. Tenho orgulho de ter estado presente, já como convidado para debates, em muitos dos Congressos e CONEG’s da UNE nos últimos vinte anos.

A UNE esteve na linha de frente da resistência ao Governo Figueiredo entre 1979 e 1984, e cumpriu um papel na campanha das Diretas. Não hesitou em apoiar as lutas dos trabalhadores de inúmeras categorias e a grande Greve Geral em 1989. Em seu melhor momento, a UNE fez história e foi a entidade que furou o cerco e encabeçou o “Fora Collor” em 1992. Assumiu essa responsabilidade quando o partido majoritário na esquerda brasileira, o PT, era hostil à mobilização para derrubar o governo, denunciando a campanha para derrubar Collor – afinal, o primeiro presidente eleito depois de 1964 – como “golpista”, menos de seis meses antes da votação do impeachment, e a CUT se recusava a fazer o 1 de Maio de 1992 sob essa bandeira. Essas circunstâncias aumentam o mérito de quem estava contra a corrente, e levou dezenas de milhares às ruas no 11 de agosto daquele ano.

Por suposto, sua trajetória ao longo dos últimos vinte e cinco anos não poderia estar isenta de crítica, mas isso é hoje polêmica histórica. A UNE titubeou diante do Governo Sarney – chegou a convidar Marco Maciel para as suas instâncias – e creio não ser injusto se ainda me lembro de alguns zigue-zagues durante o Governo FHC. A conquista da meia-entrada associada ao controle da emissão das carteirinhas, uma conquista que viabilizava o autofinanciamento, ao não ser transparente, acabou favorecendo um agigantamento do aparelho e burocratização. Não poderia esquecer que a insistência na eleição indireta da diretoria – sob pretexto de impedir que uma chapa de direita ganhasse nas urnas – revelou-se um erro, uma insensata teimosia que diminuiu a representatividade da UNE. Há mais de uma década, talvez, que a UJS só permaneceu como maioria elegendo muitas centenas de delegados em Universidades privadas – das regiões mais remotas e arcaicas do país – onde as condições de isolamento ou de repressão impedem a existência de um movimento estudantil.

No entanto, somando e diminuindo, a UNE passou intacta, senão incólume, uma prova histórica de vinte e cinco anos, como um ponto de apoio ou um espaço de construção da frente única para a luta pelo ensino público e gratuito, até à adesão ao Governo Lula.

Essa UNE, é triste admitir, não existe mais. A UNE que vai fazer Congresso será somente um instrumento auxiliar do Governo Lula. Não pertence aos estudantes. Ao lado da CUT, é um cadáver insepulto. Permanecerá, possivelmente, e até poderá prosperar como um aparelho atrelado ao MEC. O seu destino parece indivisível do julgamento que a história vier a fazer do Governo Lula. E a História será mais implacável que estas palavras.

VALÉRIO ARCARY, professor do CEFET-SP, foi delegado ao congresso de reconstrução da UNE em 1979, e nos congressos em Piracicaba em 1980 e 1981. Foi, também, candidato pelas chapas Novação e Mobilização Estudantil nas eleições diretas da UNE.

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