A situação do esporte nacional

Do ponto de vista esportivo, os jogos podem proporcionar belos momentos e empolgantes disputas entre os países do continente. Mas o Pan-Americano não é utilizado como um momento de celebração da busca pela perfeição humana, resultante da dedicação dos atletas aos treinos, habilidade técnica e superação dos próprios limites. Há outras coisas em jogo.

O evento foi limitado à busca por alto rendimento e muitos negócios proporcionados por obras superfaturadas e pelo milionário mercado publicitário. Novamente, existe um intenso bombardeio da mídia para criar um clima de ufanismo nacionalista no país. O governo Lula e a grande imprensa fazem grande estardalhaço sobre as chances do país nas competições, além de tentar mostrar algo que mais parece uma piada de mau gosto: nossos governantes seriam “competentes” para organizar grandes eventos esportivos, como as Olimpíadas ou a Copa do Mundo.

Todo esse “otimismo” contrasta com a situação esportiva do país, que não escapa dos graves problemas sociais e econômicos. O que explica nossos pífios resultados em competições internacionais.

A miséria que vitima grande parte da população impede o desenvolvimento do esporte nacional. Na periferia e nas escolas públicas, jovens vivem sem nenhuma prática esportiva. A ausência de políticas e investimentos públicos no setor deixa nossos atletas sujeitos ao patrocínio privado que, respeitando a lógica de mercado, só investe dinheiro quando há “garantia de retorno”. Apenas atletas que já provaram sua capacidade como garotos-propaganda de suas marcas conseguem sobreviver do esporte.

Um retrato dessa realidade é Diogo Silva, lutador de taekwondo que conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil nos jogos do Rio. O atleta vive hoje com R$ 600 mensais da Confederação Brasileira de Taekwondo que, segundo ele, “costuma atrasar o pagamento de três em três meses”. Diogo ficou conhecido por fazer o gesto dos Panteras Negras, numa premiação olímpica em 2004.

Em Cuba, por exemplo, o investimento do Estado no desenvolvimento do esporte (uma conquista da Revolução Cubana) proporcionou a seus atletas a conquista de rendimentos bem superiores aos do Brasil, inclusive em jogos Pan-Americanos.

O esporte brasileiro ainda sofre com a corrupção e a ganância de seus dirigentes. O Comitê Olímpico Brasileiro é nada mais que uma entidade-empresa, cuja finalidade é organizar megaeventos desportivos com o intuito obter lucro. Seu objetivo está longe de ajudar no desenvolvimento do esporte nacional.

Outro exemplo é o futebol. Há anos verdadeiras quadrilhas se encastelaram no comando e controle do esporte no país. Nomes como Ricardo Teixeira, presidente da CBF, e Eurico Miranda, presidente do Vasco, costumam circular com a mesma desenvoltura em páginas policiais e cadernos esportivos.

Na verdade, o que se passa com o esporte no Brasil tem a ver com o que ocorre em outros setores da vida social dominados pelo capitalismo. Esse sistema se apropria de toda criatividade humana – nas ciências, nas artes e nas tecnologias – e trabalha com a manipulação para preservar a exploração e o lucro dos grandes capitalistas.

Independente do número de medalhas que o Brasil conquiste neste Pan, a situação do esporte não vai mudar estruturalmente, porque o caminho para o desenvolvimento esportivo passa por investimentos em educação, alimentação e saúde. Algo que só poderá ser conquistado se houver uma ruptura com o imperialismo (como houve no passado em Cuba) e a implementação de uma política econômica dos trabalhadores.

Pancada
A 1° medalha de ouro do Brasil não saiu do jeito que a cartolagem do esporte nacional queria. Diogo Silva conquistou medalha de ouro para o Brasil no Pan-Americano no taekwondo. Na premiação, ele atacou duramente o governo federal e o COB pela falta de apoio ao esporte. Nenhum deles esteve presente na premiação. Diogo ficou conhecido por conquistar o quarto lugar na Olimpíada de 2004, quando em protesto ergueu os punhos, numa saudação simbólica aos Panteras Negras. Como no caso das vaias a Lula, a conquista da primeira medalha do Brasil no Pan representou uma dura pancada no governo e nos cartolas.
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