A segurança nacional e o desastre do Golfo do México

Moradores negros disputam lugar para deixar estádio em Nova Orleans
EFE

Leia artigo de James Petras publicado no site Rebelion.orgÉ a um só tempo irônico e trágico que, quando o Governo Federal dos EUA gasta dezenas de bilhões de dólares na “segurança nacional” [“homeland security”] e emprega um exército de 100 mil funcionários; centenas – senão milhares de norte-americanos – tenham morrido por causa da absoluta ausência de segurança. Sejamos claros, o furacão, as excepcionais ondas do mar e as inevitáveis inundações dos Estados do Golfo [do México] – Mississipi e Luisiana – foram previstas com dias de antecipação pelas autoridades locais, estatais e federais. Estas autoridades incitaram a população à imediata evacuação, individualmente e por conta própria.

Noutras palavras, não houve uma política estatal eficaz de evacuação, nem em nível federal, estatal ou local, para ajudar as centenas de milhares de indivíduos que não dispunham de meios de transporte privado. Muitos dos homens e mulheres da Guarda Nacional estavam no Iraque – e não nos seus Estados de origem – nos quais teriam podido intervir nesta emergência nacional. E o tenente da Guarda Nacional do Mississipi, Andy Thaggard, declarou: “Sentir falta do nosso pessoal é a grande questão neste acontecimento. Precisamos deles”. A Guarda Nacional do Mississipi tem uma brigada de quatro mil soldados na região central do Iraque; Luisiana tem três mil tropas de sua Guarda em Bagdá.

O Diretor de Segurança Nacional e seu exército de funcionários foram eloqüentes em seu silêncio e, o que é ainda pior, por seu abstencionismo. Às equipes de resgate de emergência operavam abaixo do contingente de pessoal e careciam de qualquer plano de ajuda efetiva, graças aos substanciais cortes orçamentários federais para baixar os impostos dos 1% mais ricos da população. Como conseqüência disso, dezenas de hospitais, asilos, centros psiquiátricos e outras instituições públicas encontram-se sem eletricidade, água potável, comunicação telefônica e quaisquer recursos de emergência.

A filosofia governamental de “salve-se quem puder”, que coloca a ganância individual e a riqueza por cima do serviço público e o investimento social, transformaram um fenômeno natural (furacão, grandes ondas e inundações) numa catástrofe social. A continuação da guerra e a ocupação no Oriente Médio debilitaram a segurança dos cidadãos dos Estados Unidos de maneira intensamente dramática e gráfica, milhares de famílias sedentas e famintas que vagam erraticamente submersos até a cintura em águas sujas, arriscando suas vidas e integridade física para conseguir produtos essenciais em supermercados inundados.

Agora que o número de mortos está se elevando a milhares e os funcionários públicos retorcem as mãos e se afligem pelo desastre, o presidente Bush abandonou suas férias prolongadas mas o significado mais profundo deste desastre político ainda está por se debater: a segurança nacional significa, primeiramente e sobretudo, a segurança do povo norte-americano.

Este desastre não era inevitável. Em junho de 2004, o Diretor de Gestão de Emergências de Jefferson Parish, Luisiana, disse: “Parece que o dinheiro destinado a reforçar os diques sofreu cortes no orçamento do presidente e vai se dedicar à segurança nacional e à guerra do Iraque, e suponho que é o preço que temos que pagar. Ninguém na região está contente com a não-finalização dos diques e estamos fazendo todo o possível, porque para nós é um assunto de segurança”. A segurança nacional significa a recuperação do orçamento nacional, estatal e local para a defesa civil contra fenômenos naturais, a reconstrução de nossos diques, o aumento de veículos de transporte de emergência – barcos, helicópteros e caminhões – para evacuar as populações vulneráveis, instalações de emergência seguras e acessíveis com armazenamento de alimento, água e serviços médicos.

O dinheiro, as agências, os veículos de transporte, os projetos de ajuda de emergência e a Guarda Nacional estão lá, no Iraque, não em nosso país, onde poderiam salvar vidas. Tragam nossas tropas para casa, já!

Petras, James (2005) “Homeland Security and the Gulf Disaster”, em