A Segunda Guerra Mundial e a onda revolucionária do pós-guerra

Resistência em Paris. EUA detiveram suas tropas para que nazistas eliminassem os combatentes

Há 60 anos, no dia 8 de maio de 1945, terminava o mais sangrento conflito militar da história da humanidade. No fim do conflito a derrota do nazi-fascimo produziu a maior onda revolucionária do século passado. Apesar da reação do imperialismo, auxiliado pelos partidos stalinistas, a onda revolucionária levou a expropriação do capitalismo a um terço da população do planeta

A força motriz que deflagrou a Segunda Guerra foi a rivalidade interimperialista na disputa por novos investimentos, mercados e fontes de matérias-primas baratas. As principais potenciais imperialistas envolvidas no conflito (Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, com Itália e França ocupando um papel secundários) buscavam conquistar a hegemonia do capitalismo e impor uma nova ordem, não apenas aos paises sub-desenvolvidos, mas também aos industrializados.

Mas a invasão na URSS mudou o caráter social do conflito. Até o momento, a guerra era marcada pela disputa entre os países imperialistas para decidir quem teria prioridade na rapina mundial. Com a invasão à URSS, a pilhagem realizada pelo imperialismo alemão era sobre a propriedade coletiva conquistada pela Revolução de Outubro.

Embora tivesse a defesa desorganizada, sobretudo, por responsabilidade de Stalin que decapitou o comando do Exército Vermelho em seus expurgos, a enorme resistência do povo soviético produziu um grande impacto no avanço da Wehrmacht. Outra surpresa desagradável foi a chegada do terrível inverno russo que liquidou milhares dos despreparados soldados alemães.

A vitória do Exército Vermelho na prolongada defesa da Stalingrado deu uma guinada radical no conflito. Pela primeira vez a Wehrmacht era derrotada e não conseguiria se reerguer mais. A vitória em Stalingrado pôs a iniciativa nas mãos do Exército Vermelho, que só iria parar com a tomada de Berlim.

Com a mudança da correlação de forças, entre 1943 e 1945, Stalin, Churchill e Roosevelt tentaram estabelecer os parâmetros da futura ordem mundial, dividindo o mundo em áreas de influência. Nas conferências de Yalta e Potsdam, ambas em 1945, foram definidas as divisões de Berlim e da Alemanha pelos países vitoriosos. O Leste Europeu ocupado pelo Exército Vermelho foi convertido em zona de influência soviética. Posteriormente, sob coerção militar da URSS, foi expropriada a propriedade capitalista na região, em uma revolução de “cima para baixo”. Mas essa iniciativa da burocracia stalinista, baseada em acordos com o imperialismo, estava longe de estimular a revolução mundial, ao contrário, os acontecimentos posteriores irão demonstrar como o stalinismo vai utilizar do prestígio da URSS na derrota contra o nazi-fascimo para barrar a revolução européia.

A onda revolucionária do pós-guerra
A derrota do fascismo acendeu o rastilho de pólvora da revolução mundial. A onda revolucionária se abateu simultaneamente na Europa e na Ásia, rompendo com os limites das negociações de Yalta e Potsdam.

Na Europa, a luta contra a ocupação fascista, empreendida pela resistência na Iugoslávia, Albânia, Grécia, França e na Itália, encabeçada, em grande número, pelos Partidos Comunistas, desdobrou-se em poderoso ascenso revolucionário.

Na Iugoslávia, ao contrário dos planos do imperialismo que almejavam reecolonizar a região, plenamente aceitos por Stalin, o exército dos partisans comunistas liderados por Tito, que nessa altura já somavam 900 mil pessoas, desobedece as ordens do Kremlin, cuja orientação era a deposição das armas e a participação de um governo de coalizão com partidos pró-imperialistas. Eles tomam o poder e iniciam a expropriação da burguesia.

Na Itália, o Partido Comunista organiza uma importante resistência no Norte e no Centro do país com 100 mil combatentes. Em 1945, os partisans capturam Mussolini e o executam. Dos pouco mais de 5 mil militantes de antes da guerra, a maioria encarcerada nas prisões fascistas, o PCI emerge da guerra com mais de 800 mil membros, conquistados, sobretudo, pelo prestígio obtido pela atuação na resistência nos campos de batalha contra Mussolini e a ocupação nazista.

Na França, do mesmo modo, o PC sai com enorme prestígio depois de anos de resistência à ocupação. Nesse país, no entanto, a resistência partisan também é exercita por setores burgueses, dirigidos pelo general De Gaulle. Mesmo assim o PCF atuava de forma majoritária na luta pela libertação do país. Muitos dos seus combatentes eram refugiados da guerra civil espanhola. Nas vésperas da tomada de Paris pelas tropas norte-americanas, estourou uma insurreição contra os nazistas. Os norte-americanos pararam a 30 quilômetros da capital da França, esperando que os alemães matassem os insurretos, porque eles, na sua maioria, eram comunistas. Segundo diferentes dados, foram mortas entre três e cinco mil pessoas. Contudo, os revoltosos conseguiram dominar a situação e então os americanos entraram em Paris. O mesmo aconteceu também no sul da França.

Mas nesses dois países a revolução foi bloqueada quando os PCs resolveram acatar as ordens de Stalin e participar dos governos burgueses para reconstruírem o Estado e a economia capitalista, auxiliando na implementação do Plano Marshall. Maurice Thorez, secretário geral do PCF, e Ercoli Togliatti, líder do PCI, passam a exercer cargos ministeriais nos governos burgueses de “unidade nacional”, agindo de forma decisiva para aplacar os protestos e mobilizações operárias e camponesas. A palavra de ordem lançada por Thorez é emblemática no que se refere à política contra-revolucionária aplicada pelos PCs na época. Dizia ele: “um único Estado, um único exército, uma única polícia”. O que se viu foi uma traição do stalinismo de dimensões históricas: uma revolução socialista vitoriosa na França e Itália, dois países imperialistas, mudaria o curso da história da humanidade.

`MembrosNa Grécia, o ELAS (Exército Nacional Popular de Libertação), dirigido pelo PCG, expulsa as tropas nazista, e passa a controlar a maior parte do país. Mas Stalin tinha outros planos para a Grécia. Tentando obter a confiança dos aliados, especialmente do imperialismo britânico, orienta o PCG a conformar um governo de “unidade nacional” com Papandreu (político burguês aliado dos interesses britânicos). Em dezembro de 1944, entretanto, irrompe pelas ruas de Atenas uma greve geral operária que logo se transforma em insurreição. Os combates de Atenas duram cinco semanas. As massas travam a luta com a maior combatividade e heroísmo; houve milhares de vítimas nessas jornadas. Churchill telegrafa para o embaixador britânico e lhe dá a ordem que será repassada para as tropas inglesas estacionadas na Grécia: “aja como se estivesse numa cidade ocupada”. A ordem não tardou a ser cumprida. Ttropas inglesas são deslocadas do Front italiano para Atenas e aviões e a frota britânica bombardeiam impiedosamente os bairros operários da cidade. O PC mantém Atenas isolada do restante do país. Os reforços do ELAS, tão aguardado pelos operários, nunca chegaram. A ordem da ofensiva final jamais será dada. Stalin mantém o compromisso assumido com Churchil de assegurar a “estabilidade” no Mediterrâneo, às custas das vidas de milhares trabalhadores gregos.

Isso sem mencionar a heróica resistência dos judeus e judeus comunistas no Gueto de Varsóvia, quando se levantaram e se armaram contra a ocupação nazista e o iminente extermínio.

Se Stalin tinha conseguido deter o avanço da revolução européia, na Ásia, contudo, o movimento revolucionário rompe com os limites dos acordos aliados e produzem vitórias formidáveis depois de anos de luta aintiimperilaista.

Na China a guerrilha dos comunistas de Mao Tse Tung, depois de uma longa luta contra o imperialismo japonês, derrotam as forças de Chian Kai Cheg e tomam o poder em 1949, rompendo com sua condição de colônia e dando inicio a expropriação capitalista no país.

A rendição japonesa também fez eclodir na península da Indochina, antiga colônia francesa, um poderoso movimento revolucionário anti-colonial que tomou o poder antes mesmo que os aliados pudessem lançar os olhos para a região. Uma testemunha ocular da revolução dizia: “Horas depois da notícia (rendição do Japão), desencadeou-se uma tempestade social de tais proporções que poderia ter sido derrubado qualquer coisa”. A reação do imperialismo nessa região vai desencadear mais tarde a Guerra do Vietnã.

No final dos anos 40, apesar de todos os esforços do imperialismo e da sua linha auxiliar no movimento operário, o stalinismo, a onda revolucionária do pós-guerra levou a expropriação do capitalismo a um terço da população do planeta.