A ocupação vista por dentro

Um lado pouco conhecido do movimento de ocupação da USP é o que acontece além das assembléias e dos atos. Todos os dias, mais de 200 pessoas dormem na ocupação, mas é impossível calcular o número exato de estudantes e funcionários, em greve, que circulam diariamente pelo prédio.

Ao contrário do que a grande imprensa divulga, não houve nenhuma depredação. A preservação e a segurança estão garantidas por uma comissão de segurança. “Nossa função é organizar a ocupação para evitar problemas, não deixar jornalistas entrar, manter a organização e garantir a segurança do prédio e dos participantes”, declara um estudante.

Além dessa comissão, existem outras (negociação, cultural, formação e limpeza) que garantem o funcionamento diário da ocupação, e que são abertas a todos os estudantes. A alimentação é garantida pelos próprios estudantes, com arrecadações nas atividades e doações de professores e sindicatos.

O prédio encontra-se totalmente limpo e o acesso é restrito apenas ao térreo, para evitar problemas posteriores. As paredes estão cobertas com as faixas usadas nos atos e as centenas de moções de apoio que chegam de sindicatos e movimentos sociais de todo o país. Também há recortes de notícias sobre a ocupação.

Vários estudantes que estão na reitoria nunca haviam participado de qualquer atividade do movimento estudantil. Outros entraram na universidade há pouco tempo. O que une todos é o entendimento dos efeitos dos decretos de Serra sobre a educação. “A ocupação foi fundamental para trazer para a comunidade acadêmica – e até mesmo para fora dela – o que esses decretos farão com a USP e a educação pública”, entende um estudante da comissão de imprensa.

Foi essa compreensão que fez com que importantes professores da universidade apoiassem a ocupação. Esses docentes são fundamentais para dar vida ao interior da reitoria, com a realização de debates, palestras e grupos de estudo sobre os mais variados temas. As atividades fazem parte da programação diário do “Greve é Formação”. Esses debates sobre questões teóricas e políticas levam centenas de estudantes e funcionários para dentro da reitoria.

“O ‘Greve é Formação’ foi uma grande sacada. Temos aproveitado para aprofundar a discussão em várias questões que envolvem a sociedade. Muita gente acredita que greve é apenas paralisação”, afirma uma estudante.

A solidariedade de artistas também é grande. A ocupação já teve a visita dos cantores BNegão e Tom Zé, que fizeram apresentações gratuitas, e Nasi, do Ira!, que também criticou a grande imprensa e o governo. “A gente vive, infelizmente, a continuação de um governo neoliberal. Toda a nossa imprensa faz um coro muito bem afinado a toda essa campanha (…) de que tudo que é ligado à reivindicação, tudo que é contra o que está estabelecido, é anarquia, é bagunça, é terrorismo”, disse o vocalista ao Opinião.

Uma idéia também compartilhada pelo cartunista carioca Carlos Latuff, que esteve na ocupação e colaborou com vários desenhos para o movimento: “A grande imprensa está preparando a opinião pública para uma ação violenta”.

A reportagem também conversou com alguns jornalistas que fazem plantão do lado de fora da ocupação. Um repórter explica por que a cobertura é tão negativa. “Eu entendo as posições dos alunos, fui do centro acadêmico e apoio vocês, mas quem dá a linha é o editor. Eu tento colocar a verdade no meu texto e ele sai com a visão da empresa, que tem a linha editorial já definida”.

Post author Ivan Valério, de São Paulo
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